Sem consenso, sem acordo.

Uma análise do novo na velha crise brasileira.

As crises políticas no Brasil sempre se resolveram, historicamente, em acordos entre as elites. Havia, durante o último século da economia escravagista brasileira, um medo no ar em função da sublevação dos escravos ocorrida no Haiti em 1791. A grande população de escravos era uma ameaça. O assustador “e, se?”. E se os africanos se dessem conta das possibilidades de sucesso de uma revolta massiva?

Solução: não dar um minuto sequer de existência gratuita a nenhum negro. Ocupados em sobreviver mais um dia, não haveria o tempo necessário para organizar uma revolta. Sempre com fome, sempre atordoados de tanto trabalho, sempre humilhados, sempre condenados, sempre aviltados, nada poderia lhes dar a chance da revolta. Acima de tudo não poderiam ler, reunir-se ou trocar mensagens. A imposição da ignorância e da fome eram as armas da ordem escravagista.

De posse desse tipo de disposição (consciente ou inconsciente) as elites sempre realizaram seus acordos escondendo os interesse em jogo da maioria da população. Esses acordos tiveram como objetivo principal a manutenção de privilégios. Esses interesses resolviam um intuição básica que também movia o consenso no qual se assentam os acordos: O medo de uma sublevação violenta. E, se? (…) foi o motor dos consensos nacionais em cada momento de crise social e/ou econômica. Afastar o “e, se” o povo não aceitar, era o grande desafio e objetivo das elites ao desenhar a arquitetura dos acordos “por cima”. O suicídio de Getúlio Vargas foi um dos raros momentos de latente incerteza. O golpe de 64 foi outro.

Ao chegar ao poder em 2003, o PT e Lula ousaram admitir um novo ator político na arena desses acordos de união nacional. Explicitamente a “Carta ao Povo Brasileiro” se dirigiu aos mercados financeiros. Implicitamente o povo brasileiro era o endereço ao qual se remetia uma inédita proposta de acordo. De forma sutil surgia ali um novo ator político, para o qual o voto se tornara uma ferramenta de poder diferente do que havia sido, até então.

Hoje, uma parte da população está mobilizada para encerrar com a recente hegemonia de esquerda, tolerada na forma de governos de coalizão. O fato é que o que os coloca em estado de mobilização é uma nostalgia difusa. Querem os “velhos e bons tempos” de volta. Não estão com fome. Não passam por necessidades que lhes afetem a sobrevivência imediata. Tem tempo de sobra e ajudaram a lotar as arenas da Copa do Mundo, o Rock in Rio e, em 2016, os ginásios das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Apenas são conservadores e lhes causa um profundo desconforto ontológico ver o que o mundo está se tornando.É o que basta para provocar a onda de intolerância e ódio que temos testemunhado.

Bem ao estilo “Teorias da Conspiração” elegeram um partido, o PT, e seus líderes, Lula e Dilma, como os artífices do espírito do nosso tempo. A simplificação grotesca que relaciona a multiplicação da diversidade de modos de ser, étnicos, culturais e religiosos, e muitas outras transformações sociais, a um suposto desvio maligno da ordem eterna e divina é gritante.

Em meio a uma crise econômica, que internamente é mais fabricada do que real, os conservadores apostam na perspectiva apocalíptica de uma crise financeira internacional aos moldes de 1929. Crise que aliás, é esperada nos meios cristãos conservadores norte-americanos desesperadamente. Afinal parece ser isso ou, depois de um negro na Casa Branca, terão que suportar uma mulher.

Por outro lado, no Brasil, temos uma crise real do sistema de financiamento das campanhas eleitorais (e na relação da grande mídia com o fisco) representada tanto pela operação Lava a Jato, quanto pela operação Zelotes. É nesse ponto que a elite vacila e não sabe que acordo “por cima” firmar.

A imprensa, a elite econômica e a elite política sempre se articularam para dar uma face visível aos acordos “por cima”. Foi assim no “Plano Cruzado” que sucedeu a eleição de José Sarnei no colégio eleitoral em 1986. E, repetiu-se no “Plano Real” em 1994, após o consenso que levou à queda de Fernando Collor. Em ambos os casos, como em várias outras ocasiões, a imprensa deu voz as forças políticas que pregavam a “união nacional”.

Atualmente as redes sociais impedem a construção de um meta sentido para essa crise. As versões da realidade são polifônicas porque as tecnologias de interação virtual permitem esse tipo de interpretação plural de um conjunto de fenômenos complexos e multifatoriais. Não porque a esquerda domina as universidades, os movimentos sociais e a mídia, como deliram os conservadores.

Nesse contexto não há como ocorrer um acordo de coalizão de governo (após uma suposta queda de Dilma) sem se levar em conta que o próprio vice-presidente Michel Temer pode ser indiciado em algumas das muitas investigações em curso na Operação Lava a Jato. O mesmo vale para Aécio Neves.

Como é o próprio sistema político que incentiva a corrupção, é dada como ilegítima qualquer razão para o impedimento de Dilma que não tenha ocasionado a queda dos demais presidentes pós-constituição de 1988. Afinal, os “erros de Dilma são os de FHC, Lula Itamar e Sarnei que não sofreram impedimento.

Essas e outras incertezas, sobre a profundidade da crise na economia, tornam o acordo por cima ainda mais complicado. Se temos uma parte das classes médias protestando ferozmente nas ruas por que seu modo de vida, valores e moralismos estão em cheque, o que pode acontecer a qualquer governo que venha a se constituir, se não for mais possível pagar o “Bolsa Família”? E qual será o papel das forças políticas de esquerda se estiverem fora do governo? Essas perguntas estão impedindo que a segurança de um acordo entre as elites seja previsível, em termos de cenários de curto e médio prazo.

Esse é o legado de Lula e do PT. Um povo que poderá se alinhar, ou sublevar-se. Não mais em função de questões morais, apenas. Mas, também contra ou a favor dos dirigentes políticos, conforme eles lhes entreguem ou suspendam benefícios diretos e tangíveis. Mesmo que seja apenas um auxílio que torne o efeito da miséria menos letal. Lembrem a eficácia da estratégia de manter o escavo faminto e extenuado que permitiu o modo de produção escravagista perdurar no Brasil por quase um século ainda depois da revolta do escravos no Haiti.

A fome era um fator que dava segurança as elites. Faminto, na independência na república, nos golpes militares, nas eleições, na ordem e na desordem, nada poderia ativar sua revolta. Ao mudar essa certeza, a de que a fome e a miséria eram inevitáveis, a esquerda moderada conseguiu dar a uma parcela crescente da população brasileira um novo significado para o voto.

Os programas sociais não podem por si só gerar um ator político pleno e articulado. Muita água ainda passa por baixo da ponte da história antes que isso possa ser um dado certo. Mesmo assim, a crise atual já traz em seu ventre uma clara ameaça de retrocesso. Mas, desta vez o elemento imponderável é o novo nas velhas e sucessivas crises brasileiras. Hoje, o pobre é a variável mais crítica e imprevisível.


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