Utopia, Escatologia e Teoria da Conspiração.

O pensamento de John Gray, a literatura de Umberto Eco e um lugar para a esperança.

Muitas das maiores correntes filosóficas surgidas sob a marca do Iluminismo e que levaram à Revolução Francesa tem em comum variadas formulações do humanismo, como o liberalismo e o comunismo. Em comum, estas correntes de pensamento (econômico, filosófico e político) assumem alguns pressupostos muito otimistas sobre a natureza humana.

Contando com a inventividade técnica dos humanos os humanistas apostam na possibilidade de reformar moral e eticamente a humanidade. Uma transposição clara da teoria darwiniana da evolução (formulada em termos de disputa pela emergência de recursos para a sobrevivência dos espécimes) para a esfera do aperfeiçoamento e melhoramento incessante da alma humana.

Ignora-se um aspecto central da teoria de Darwin: As espécies emergem em meio às contingências e determinantes do ambiente, desenvolvem-se, adaptam-se, degeneram e desaparecem constantemente. Por alguma arte misteriosa e providente, o ser humano teria sido criado ou surgido para perpetuar-se dominar e submeter toda a existência a seu desígnio auto-emergente ou divinamente revelado. Segundo o humanismo, tanto secular, quanto religioso, somos os filhos diletos do criador e/ ou o objetivo último da criação.

Esta fé antiga foi se tornando mais intensa com a difusão do monoteísmo judaico cristão. Especialmente quando este se encontra com o idealismo em Agostinho, através da filosofia de Platão. O monoteísmo tem muito a ver com a busca da verdade única e as lutas em torno de suas muitas versões.

O século XX foi, peculiarmente, dominado pelo embate entre dois mitos originados no antropocentrismo iluminista em que os humanos são muito diferentes dos demais seres vivos: O comunismo e o liberalismo. Tanto que o ocaso do primeiro na década de noventa, permitiu o ressurgimento do segundo como neoliberalismo. E ainda assim, para dar lugar as lutas épicas pela conversão do mundo a democracia liberal norte-americana no pós 11 de Setembro de 2001.

No entanto, a cada passo, esta defesa do homem como centro da criação e fim último da história da vida vem sendo confrontada com a natureza cíclica dos eventos ao longo da história. Vemos a contingência se sobrepondo a providência. E constatamos a falta de sentido da redenção humana frente ao lugar marginal dos humanos na cadeia da vida. É isso o que vem sendo confirmado a cada refinamento do olhar empírico. Ou seja, podemos admitir o progresso no conhecimento. Não temos sinais dele na moral ou na ética.

É possível confirmar isso ao ver a diversidade de valores e modos de vida que são caros aos humanos. Enquanto uns poucos consideram a liberdade um bem supremo, para muitos outros a segurança é uma necessidade primordial. Um mundo redimido e pacificado pode ser intolerável para os propensos à luta e ao combate. E certamente sempre há diferentes tipos de valores coexistindo em cada momento. Quando importantes obrigações morais colidem, por exemplo, sobrevém a tragédia. Sobre tudo, parece que não podemos moderar nossas ambições e menos ainda evitar que elas colidam e que vivamos em constantes conflitos.

Uma das expectativas do pensamento ingênuo sobre a centralidade da humanidade no esquema geral da existência é a superação da morte. De certa forma a única saída para a contingência representada pela existência, a morte é sistematicamente renegada pelos humanos. Espera-se que alguma forma de vida eterna advenha por obra e graça divina ou por desenvolvimento das habilidades e capacidades tecnológicas humanas. Como tudo a nossa volta emerge, se desenvolve e desaparece, um fundamento para a expectativa de transcender a morte é justamente a esperança escatológica.

Curiosamente, a escatologia é a crença de que um único e grande evento, o fim do mundo (em geral num banho de sangue) traria a esperada redenção humana e o fim da história. A semelhança deste desfecho, seja na redenção divina, ou na revolução que derrota a estrutura social que corrompe o homem é uma herança evidente do enredo judaico-cristão.

Podemos perceber uma similaridade nesta promessa de redenção da alma e na de igualdade, liberdade e fraternidade que submerge no terror, na ditadura do proletariado ou do fim da historia que animou o catecismo liberal após a derrocada da União Soviética. Todas estas esperanças parecem justificar seus meios pelos fins grandiosos a que se propõem.

No entanto, repetidamente a cena aparece diante de nossos olhos. A história não se mostra como uma epopeia de humanos degradados, esquecidos e, depois, resgatados por deuses. Ao contrário, se apresenta como uma sequência de eventos cíclicos em que paz e guerra, liberdade e tirania se alternam ao acaso. Em longo prazo, como escreve John Gray reiteradamente, uns são tão comuns quanto os outros.

Desde muito cedo o pensamento utópico ingênuo, precisou se explicar diante das iniqüidades que afetam a humanidade. Explicação que viria a reduzir o constrangimento divino ou de nossa inerente sapiência, principalmente considerando que inúmeras das catástrofes e sofrimentos que afetam a humanidade são auto-infligidos.

Para explicar a má sorte humana é que nos chegam inúmeras teorias da conspiração. O homem, uma tabula rasa, teria em si propriedades para emergir como um Deus. Mas somente se contra ele não conspirassem instituições, demônios, sociedades secretas, baseadas em elos consanguíneos ou pela adesão e conversão voluntária. Maquinações perversas que repetidamente trairiam a humanidade acorrentando-a a instituições corruptas são a marca de qualquer teoria da conspiração.

A tentativa de extinção dos judeus, no holocausto nazista, foi baseada em uma teoria da conspiração que apresentava este povo como arquiteto de tudo quanto desviaria a humanidade de seu destino divino ou secularmente grandioso e único entre os seres vivos. A tentativa sistemática e deliberada de genocídio de todo um povo foi a novidade que as tecnologias da morte nos apresentaram no século XX.

Certamente as instituições conformam os comportamentos humanos. E instituições nós as temos em grande quantidade com os mais variados formatos. A família é uma instituição e Freud demonstrou o quanto sair dela como uma pessoa adulta, boa ou má, saudável ou doente é, em parte, uma questão de sorte. Existimos entre a contingência genética e os eventos que calham imprimir os traumas que se tornaram parte, maior ou menor, do que chamaremos de nossa identidade.

O dinheiro, a escola, o Estado, o exercito, a mídia, tudo são instituições. Portanto não é totalmente sem fundamento desconfiar que complôs e conspirações expliquem a morte de reis e rainhas, presidentes e ministros, revolucionários e reacionários e todos os sofrimentos humanos.

Olhando bem, parece até inevitável que os vencedores (por serem poucos e aparentemente sempre os mesmos) sejam culpados de alguma forma de conspiração que explique o padecimento de palestinos, judeus, xiitas, sunitas, curdos, paquistaneses, soldados norte-americanos, sem terras latino americanos, monges tibetanos, militantes de esquerda, homossexuais, mulheres e outros tantos…

O problema é conciliar isso com outra evidência: — A de que para cada grande grupo de oprimidos sempre exista, uma minoria de opressores entre eles. Temos indícios de que a qualquer minoria serve bem o chapéu de conspiradora. Tanto que o mal pode vir de complôs de árabes ricos, judeus que controlam a moeda e a mídia, xiitas, sunitas, curdos, paquistaneses, militares norte-americanos, o fórum de São Paulo, monges tibetanos e outros tantos… Todos muitos bem assessorados por espiões e assassinos que se comprazem em dirigir anonimamente os ventos da história.

Vale a pena ler a biografia de Simonini, magistralmente narrada por Umberto Eco em “O Cemitério de Praga”. Sendo o único personagem de ficção em todo o romance, Simonini, evoca um personagem que permanece entre nós: Uma face para a soma das perversões humanas.

Então será que a humanidade é inerentemente boa e corrompida por estruturas sociais que deturpam nossa potência infinita ou demiurgos que aprisionam a alma na carne? Ou seremos uma totalidade complexa de onde o mal não pode ser excluído?

Uma moderna forma de utopia vem se apresentando após as escatologias apocalípticas evocadas pelo (complô?) 11 de Setembro de 2001. Depois das guerras do Iraque, da primavera árabe e da decadência econômica da Europa, o mundo, de cabeça para baixo neste início de 2012, está pronto para acolher novamente uma nova esperança, aparentemente mais suave.

Esta corrente, não muito original, reabilita a ideia de que a humanidade é parte de uma cena mais ampla e apenas atualmente incognoscível, mas que para conhecê-la bastaria abrir os olhos. Advoga uma esperança de que emergiremos mais viçosos e fortes a cada revolução de nossa aventura cientifica. Reafirma a convicção de que as contradições e paradoxos políticos constituem apenas uma solução precária para respostas que só o desenvolvimento tecnológico pode realmente oferecer. Parece que um positivismo renovado, inclusive no aspecto de mitificar a ciência, está emergindo em meio as antiutopias que permearam a arrancada do milênio.

Eliminando a economia baseada na escassez e no valor moeda poderíamos ver o Estado e todas as demais instituições desabarem. Viveríamos em uma sociedade sem dinheiro com uma economia com base na gestão racional dos recursos cognitivos e naturais. Enfim, uma vasta esperança fundada em um otimismo sem meias medidas.

Ambos os mundos conceituais convivem lado a lado. Os que pensam que não há o que fazer com o animal humano e os que esperam um evento planetário que nos redima.

A roupagem dos utópicos é muito diversificada: Místicos esperam o retorno dos deuses astronautas. Outros apostam que instituições corruptas desabem como um castelo de cartas e surja um ser humano liberto das amarras que o aprisionam em um mundo de contingências artificiais. As escatologias religiosas e as seitas que delas surgem, esperam o Deus redentor e vingativo que recompensará os justos e punirá os ímpios.

Igualmente, os que se denominam céticos têm tantas tonalidades e nuances quantos as partículas do átomo. Em comum apenas uma espécie de forma de ver as coisas que é mais humilde quanto a nosso lugar no esquema do cosmos. Uma espécie de síntese entre o furor anticristão de Nietzsche (um esperançoso, afinal) e o dar de costas de Schopenhauer a piedade cristã e ao humanismo.

O ano do fim do mundo no calendario dos antigos Maias é também o ano do fim de vários de nossos mundos conceituais. Se há algo de novo sob o sol talvez nunca o saberemos. Porém, como não podemos viver sem crenças, não deixamos de fazer apostas.

A PNH é uma aposta em instrumentos técnicos e afetivos que seriam capazes de incidir positivamente sobre as subjetividades polifônicas e contraditórias no interior de uma instituição do Estado de bem estar social tardio implantado no Brasil ao longo dos governos FHC e mais intensamente com Lula e Dilma.

A disponibilidade de recursos naturais e de um mercado consumidor emergente, em meio a crise de modelo econômico e de escassez de espaço e recursos naturais no primeiro mundo tem nos favorecido. Não é de todo errado ter esperanças de que este cenário se mantenha por mais alguns anos.

É, no entanto, prudente contar com reveses. Mais cedo ou mais tarde, nos farão descer a rampa (como já alertava Eduardo Passos antes de 2010). Muito provavelmente desceremos por obra de alguma forma de estagnação ou retração econômica. Se isto vier além do horizonte de nossa vida ativa, será útil prepararmos as novas gerações para lidarem com tempos difíceis como os enfrentados por nossa presidente Dilma nos anos 60 e 70.

Se em nossa maturidade intelectual estivermos em meio a um cenário social mais delicado e perigoso do que o atual, vale a reflexão sobre a necessidade humana da utopia, da esperança e do realismo cético, pois todos são remédios, em e para, tempos diferentes.

Feliz 2012!

Referências:
 
Eco, Umberto. O Cemitério de Praga. 3ª ed. — Rio de Janeiro: Record, 2011.
 Gray, John. Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais. 5ª ed. — Rio de Janeiro: Record, 2007.
 __________ Al-Qaeda e que significa ser moderno. Rio de Janeiro: Record, 2004.
 __________MISSA NEGRA, RELIGIÃO APOCALÍPTICA E O FIM DAS UTOPIAS. Rio de Janeiro: Record, 2008.
 Zeitgeist, o Filme — Lançamento Oficial Legendas em Português:
 video.google.com/videoplay
 Zeitgeist Addendum:
 http://video.google.com/videoplay?


Originally published at www.redehumanizasus.net.