A Europa não é a nossa tribo

Depois de 60 anos de união, os europeus ainda não se sentem unidos. O que só mostra quão inteligentes foram os fundadores da União.


Há que tirar o chapéu aos inventores das comunidades europeias. A Europa tinha acabado de sair de duas guerras absolutas, em que as ideias de Nação, levadas ao extremo, quase aniquilavam a humanidade inteira.

Os vários pais fundadores da Europa — pessoas pouco carismáticas, de que pouco se fala, mas que foram inteligentíssimos engenheiros políticos—perceberam que a solução a longo prazo era só uma: juntar todas as tribos europeias num projecto comum que afastasse as tentações de seguir para uma terceira guerra. Ou seja, pragmaticamente, pensaram que seria mais difícil os alemães e franceses arrastarem o mundo para mais uma guerra se estivessem unidos de alguma forma. Se esta união permitisse recuperar as economias e enriquecer os países europeus, tanto melhor.

Os pais desta coisa sui generis que é a União Europeia também perceberam outra coisa: fazer isto à força não só era impraticável, como seria fazer aquilo que tinha provocado as guerras que pretendiam evitar. Se a ideia era juntar a Europa toda sob um só regime, não estaríamos muito longe do que tinha pensado Napoleão, Hitler e outros amigos desses.

Mais valia conquistar os corações dos Europeus pelo estômago, que é como quem diz, pela economia. O resto viria depois: os europeus a viajar, a trabalhar, a estudar em conjunto e todos a viver em paz. Nada mal pensado, para dizer a verdade.

Desta ideia de criar europeus sem pressas surge a necessidade de garantir a liberdade de movimento de pessoas, de bens, de capitais… Sim, os europeus podem viajar e podem emigrar para qualquer país com a mesma facilidade com que mudam de região do seu país. Com o passar do tempo — pensaram os fundadores das comunidades — começarão a ver-se como um todo e os ódios desvanecer-se-ão, pouco a pouco.

(Desta ideia de esquecer as ideias grandiloquentes e começar um projecto europeu pondo os europeus a viver em comum está na base, por exemplo, do programa Erasmus: que melhor ideia para que as desconfianças ancestrais desapareçam do que pôr os europeus a estudar juntos?)

Então, onde está a tribo europeia?

Estudamos juntos como nunca tínhamos estudado juntos; trabalhamos juntos como nunca tínhamos trabalhado antes; vivemos e viajamos num espaço comum. Votamos em algumas eleições comuns. Temos um parlamento, uma bandeira, um hino. Porque não sentimos a Europa como uma tribo, depois de 60 anos de tantos pequenos passos?

A razão é simples: somos todos humanos. Os seres humanos agarram-se a certas etiquetas tribais e são extraordinariamente renitentes em abandoná-las.

As identidades tribais podem estar centradas numa língua, num território, num Estado ou numa história comum—ou, como acontece em muitos casos, num complexo composto por todos estes elementos (ou até de visões mitificadas duma história meio inventada).

Uma vez criada esta ideia de Nação, ficamos ligados a essa identidade por força da tendência biológica que todos temos para traçar uma fronteira clara entre quem somos nós e quem são eles. Tentativas de apagar as identidades nacionais (ou seja, tribais) são sempre vistas terror e hostilidade. Se a isto adicionarmos gerações que passaram por escolas onde cada Nação era sagrada, vemos que a União Europeia e os seus pequenos passos pouco podem.


Curiosamente, os próprios programas e projectos comuns acabam, muitas vezes, por amplificar estas identidades nacionais. Os estudantes Erasmus, fora das fronteiras, transformam-se imediatamente em estudantes deste ou daquele país. Um polaco a estudar na universidade do seu país imagina-se europeu ou polaco ou o que quiser. Se vier estudar para Lisboa, será acima de tudo um estudante polaco.

O mesmo se passa com as relações comerciais: com o fortíssimo erro da confirmação a infectar-nos o cérebro, os contactos intensificam preconceitos. Um português que vá a Espanha vender o seu produto vem de lá a explicar tudo o que já sabia sobre os espanhóis e que agora confirmou ao vivo. Claro que vem também com algumas memórias comuns dos seus novos clientes—e isso, se não pode tudo, pode muito.

No fundo, somos como um conjunto de estranhos que começou a viver na mesma casa. Com o tempo, as primeiras impressões não se desvanecem: tornam-se caricaturas. Mas lá vão ficando amigos, lá se habituam a viver em conjunto. O que não quer dizer que se tornem uma família: ninguém sente a obrigação de ser solidário. A economia pode ser mais ou menos comum, mas continua a haver uma tabela de custos, um horário de tarefas, toda a contabilidade dos estranhos que vivem juntos. (E daí não vem mal ao mundo…)

Se a Europa fosse uma tribo, a questão das dívidas soberanas não existiria: a dívida da Zona Euro, no seu conjunto, não é significativa. Mas não somos uma nação, não somos uma família: ainda fazemos contas para ver quem deve o quê a quem e guardamos rancores bem antigos, que não se apagam em 60 anos.

A Europa falhou?

Haverá quem julgue que o facto de a União Europeia não ser uma tribo é um grande falhanço de todo o projecto e que tudo isto descambará, mais tarde ou mais cedo, uma outra guerra, talvez ainda pior do que as anteriores.

Não posso adivinhar o futuro, mas não me parece que alguém possa considerar a União Europeia uma grande falha. Já passaram muitas décadas e a União Europeia está aí. Não houve, para já, uma nova guerra no espaço da União e, apesar de tudo, uma guerra entre a Alemanha e a França ainda parece um disparate. Muitos povos que estão fora da União querem entrar e há regiões que, mesmo querendo a independência, põem à frente desse desejo a vontade de ficar dentro da União (Escócia e Catalunha, por exemplo).

Pode parecer-nos algo aborrecidíssimo, mas ver os países europeus a resolver os seus diferendos em reuniões pela noite fora seria o sonho de qualquer pacifista do século XIX. Nações que prometiam sangue aos vizinhos que lhes fizessem frente põem-se agora a contar tostões e a rever constantemente tratados e leis. Não sei se concordam, mas isto é bom. Aborrecido, mas muito bom.


Para a minha geração, a Europa é um conjunto de coisas simples: percorrer a Europa de InterRail sem passaporte; poder trabalhar noutro país sem pedir autorização; poder votar em eleições continentais (e não o fazer…); fazer compras pela Internet sem pagar taxas de alfândega; passear por uma qualquer cidade europeia e senti-la um pouco nossa.

Por vezes, nem nos lembramos de tudo o que temos por causa da Europa, mas todos sabemos instintivamente que estamos melhor por sermos, também, cidadãos europeus.

Gostamos de viajar pelos países desta Europa e identificamo-nos com uma história que tem muito de comum. E, por sermos europeus e humanos, continuamos a sentir as nossas nações a pulsar no coração.

No fundo, gostamos de ser mais ou menos tribais, portugueses de corpo e alma, mas também europeus, se não no coração, pelo menos, no bolso e nos bilhetes de avião.


Para a minha geração, a Europa é um conjunto de coisas simples: percorrer a Europa de Inter-rail sem passaporte; poder trabalhar noutro país sem pedir autorização; poder votar em eleições continentais (e não o fazer…); fazer compras pela Internet sem pagar alfândegas; passear por uma qualquer cidade europeia e senti-la um pouco nossa.

Gostamos da Europa, mas a Europa não é a nossa tribo—e espero que assim continue. Não se combata o tribalismo nacional criando outro tribalismo. Não se imponha um tribalismo europeu à força: o esforço seria tremendo e provavelmente destinado ao fracasso—além de que parte da beleza do projecto é esta forma pragmática como une povos diferentes. Uma União Europeia fluida, que aceite eventuais saídas sem dramas, que se veja como um complexo de identidades, povos, línguas e Estados pode ainda sobreviver muitos e bons anos.

Que possamos ser também europeus, sem deixar de ser menos portugueses, espanhóis (ou catalães e escoceses) — ou até nada disso: aceite-se e promova-se o ateísmo tribal — um atribalismo?—daqueles que não querem ser nada disso. Sejamos portugueses, europeus e humanos de alma e coração—se quisermos. E que saibamos defender essa liberdade quando for preciso.

Ora, aí está uma questão que virá aí, com toda a força: conseguiremos defender um espaço que nos permite viver sem ter o sangue sempre a ferver? Um espaço criado para nos trazer a paz e a properidade sobreviverá ao torpor dessa paz e dessa prosperidade? Ou falhará nalgum tropeção económico (ainda) mais forte?

Outra pergunta, talvez mais incómoda: saberemos defender este espaço de liberdade, para lá da tribo, quando alguém nos atacar com a sua ideia de tribo bem viva e a ferver no sangue?

Seremos capazes de proteger um espaço que não nos põe o coração a bater, que não é uma nação, e nos dá apenas algo tão banal—e tão importante—como o conforto de não ter de lutar pela nossa tribo?