</>

Será que a homeopatia matou esta menina?

Nov 13, 2014 · 4 min read

A MENINA acima chamava-se Isabella Denley, tinha 13 meses e morreu em 2002. Os pais recusaram tratamento médico para a doença grave que tinha, apostando tudo na homeopatia. Podem ler a história aqui.

Na realidade, é abusivo acusar a homeopatia desta morte. Não sabemos o que teria acontecido se os pais tivessem optado por tratamentos de eficácia comprovada.

Da mesma forma, também é abusivo defender a homeopatia com base nos nossos casos particulares. Ora, é isso mesmo que a maior parte dos defensores desta prática faz: apresenta o seu próprio caso, ou o caso de amigos ou o caso de alguém que lhe contou um caso em que a homeopatia parece funcionar.

Por exemplo, Paulo Varela Gomes, num artigo publicado no Público, defende a homeopatia com base, única e exclusivamente, no seu caso pessoal. Sobrevive há dois anos e meio a um diagnóstico de cancro terminal e leva o leitor à conclusão de que foi a homeopatia a responsável por este milagre. Pelo número de partilhas do seu artigo, poucas pessoas parecem compreender que, no que toca à medicina e à ciência, os nossos casos particulares servem de pouco ou nada para chegar a conclusões sólidas.

Reparem: dizer que homeopatia cura com base num só caso isolado ou com base na nossa experiência pessoal é tão absurdo como dizer que viver em Lisboa impede o aparecimento de gripe porque eu vivo em Lisboa e nunca tive gripe. Dizer que homeopatia cura o cancro com base num só caso é ainda mais absurdo—e muito mais perigoso.

Se queremos mesmo saber se determinado medicamento ou prática tem um efeito real, temos de analisar dados estatísticos e realizar ensaios clínicos bem pensados. Assim, se quiseremos avaliar a homeopatia, devemos:

  • olhar para as análises estatísticas de sobrevivência dos doentes de cancro que usam as várias terapias disponíveis;
  • analisar os ensaios clínicos de medicamentos homeopáticos realizados de acordo com os critérios usados para todos os medicamentos (com técnicas de “dupla ocultação”, em que comparamos dois grupos de doentes: um grupo que toma o medicamento em teste e outro que toma um placebo, sem que nenhum dos grupos saiba o que está a tomar; a explicação mais completa deste tipo de ensaios fica para um outro artigo).

Se olharmos para os dados friamente (como fez o governo britânico), as conclusões são claras: a homeopatia não funciona. Os poucos ensaios que parecem revelar um efeito ou foram realizados sem todos os protocolos habituais ou são explicáveis pelo acaso. Os medicamentos verdadeiros mostram eficácia quase sempre (uma vez por outra a eficácia parece desaparecer por efeito do acaso). Os medicamentos falsos mostram falta de eficácia quase sempre (uma vez por outra parecem ser eficazes por efeito do acaso). Os medicamentos homeopáticos estão, claramente, neste último grupo. É uma prática sem efeitos para lá do efeito de placebo.

Podem encontrar uma lista de revisões sistemáticas dos estudos da homeopatia nesta página da Comcept.

Por outro lado, os dados demonstram que os tratamentos reais contra o cancro têm feito descer as taxas de mortalidade de forma assombrosa. Têm efeitos secundários tremendos, mas funcionam. Todos os anos, a medicina salva milhares e milhares de pessoas com cancros considerados até há alguns anos como incuráveis. Queremos mesmo abandoná-la para nos entregarmos nos braços de comprimidos de açúcar com um vago efeito de placebo?

… dizer que homeopatia cura com base num só caso isolado ou com base na nossa experiência pessoal é tão absurdo como dizer que viver em Lisboa impede o aparecimento de gripe porque eu vivo em Lisboa e nunca tive gripe.


VOLTANDO À HOMEOPATIA. Sim, esta prática tem um efeito real: o chamado efeito de placebo. As melhorias sentidas pelos doentes devem-se ao efeito psicológico comum a todos os medicamentos, pelo qual qualquer pessoa sob tratamento (qualquer tratamento) tende a sentir-se melhor. Ora, este efeito é inútil para combater o cancro. Se alguém substituir um tratamento real por um tratamento homeopático, terá tantas probabilidades de se curar como se bebesse água. Isto não quer dizer que a cura seja impossível. Todos os cancros têm uma percentagem de sobrevivência—e pode acontecer haver um factor desconhecido que contribua para a melhoria do doente. Mas os tratamentos homeopáticos, esses, nunca se revelaram de forma sistemática como bons tratamentos para o cancro (ou qualquer doença).

No caso de Paulo Varela Gomes, os médicos perderam a esperança. É normal que o doente tenha tentado tudo o que lhe apareceu à frente, independentemente do que a ciência diz. Felizmente, o diagnóstico revelou-se errado—ou alguma coisa teve um efeito curativo. Mas daí a concluir que a homeopatia foi a causa da cura vai uma grande distância.

Se, mesmo assim, caírem na tentação de olhar para os casos particulares, para todos os amigos ou conhecidos que dizem ter sido curados pela homeopatia, leiam também os casos particulares de algumas vítimas da homeopatia. Sempre ficarão com uma visão um pouco mais completa da questão.

A vaga ideia que a homeopatia pode curar o cancro pode revelar-se uma tentação demasiado sedutora para doentes num estado emocional difícil. Assim, a ideia de que a homeopatia é uma opção válida para curar o cancro deve ser combatida com energia, porque é uma ideia errada—e potencialmente mortal.

Todos os anos, a medicina salva milhares e milhares de pessoas com cancros considerados até há alguns anos como incuráveis.


Thanks to Diogo Neves

    Marco Neves

    Written by

    Author. Translator. Teacher. Father. There's something else I can't remember. www.certaspalavras.net/marconeves

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade
    </>