Onde investir o tempo de trabalho

Nossa existência humana não é infinita. Vamos viver até certo momento e…e depois? Para o depois não tem resposta certa. Cada um acredita naquilo que preferir, sendo todas as possibilidades exercícios de fé, nas quais as chances de se concretizarem ou não são exatamente as mesmas. Por isso, não me parece uma escolha sábia guiar a vida por fé naquilo que nos espera depois dela. O que está no alcance da percepção é que estou vivo e, estando vivo, tenho que preencher a minha existência com alguma coisa. O único recurso que tenho para investir é o tempo. Ou seja, onde aplicar o tempo de existência humana que tenho desde o momento que nasço até o momento que morro? Simplificando a pergunta: o que fazer da minha vida?

Quando me faço essa pergunta, duas opções surgem na minha cabeça:

Opção 1: Viver para satisfazer a mim

Experimentar tudo aquilo que é bom. Como não sei o que existe depois, é sábio viver de uma maneira que me proporcione o máximo de prazeres, ainda que isso cause problemas para outros ou para o ambiente no qual estou vivendo. Ou seja, escolher aquilo que me preencherá com felicidade.

Opção 2: Viver para satisfazer ao todo

Há pessoas vivendo com privilégios e pessoas vivendo sem privilégios. Sendo todas as pessoas iguais em essência, é sábio viver de uma forma que ajude a criar o máximo de possibilidades para que essas pessoas tenham uma vida digna. Ou seja, escolher aquilo que preencherá o todo com felicidade.

Podemos também definir essas opções como viver de forma egoísta ou viver de forma altruísta. No geral, colocando com essas palavras somos quase que automaticamente levados a escolher a segunda opção, pois desde cedo somos ensinados que ser egoísta não é uma coisa boa. Mas, pense na última viagem que você fez: em algum momento passou pela sua cabeça deixar de viajar e usar o seu tempo para melhorar o seu bairro de alguma forma? Pela minha, nunca.

Pensando dessa maneira, logo surge uma Opção 3, afinal, podemos não ser tão altruístas assim, mas também não somos tão egoístas. É fácil perceber que, nas pequenas escolhas, é possível balancear para viver para mim e viver para o todo. Contudo, estamos procurando uma resposta para tomar decisões importantes em relação ao tempo disponível que temos. Estamos falando de coisa grande.

Claude Monet, Impression: soleil levant

ONDE INVESTIR AS 8 HORAS DIÁRIAS DE TRABALHO?

Vamos estimar por baixo e considerar que trabalhamos mesmo só 8 horas por dia, que são o mesmo que 40 horas por semana, 160 horas por mês, 1920 horas por ano. Qual critério usar para decidir onde investir essa enorme quantidade de tempo todos os dias de nossa existência?

É comum acreditarmos na divisão do dia em 8 horas para o trabalho, 8 horas para o lazer e 8 horas para o descanso. Na prática, percebemos que na verdade temos muito menos do que isso para o lazer e para o descanso, pois essas horas são investidas em atividades indiretamente ligadas ao trabalho, como deslocamento, alimentação, atualização profissional, quando não investidas diretamente em mais horas de trabalho. Portanto, decidir onde investir o tempo dedicado a trabalhar será o que mais impactará o alocamento do recurso tempo — sendo escolher não trabalhar em nada também uma escolha.

Quando investimos nosso tempo de trabalho em algo sem nos perguntarmos onde deveríamos investir nosso tempo de trabalho, estamos investindo, sem pensar, na resposta de uma outra pessoa que se fez essa pergunta.

Vamos usar como exemplo Rafael e Pedro. Os dois estudaram juntos na mesma turma da faculdade de administração e se tornaram próximos por terem gosto pela área de recursos humanos. Hoje, ambos trabalham como Analista de Recursos Humanos, mas em empresas diferentes. Rafael trabalha em uma montadora de carros e Pedro trabalha em uma construtora. As tarefas diárias de cada um são bem parecidas e frequentemente eles conversam para trocar experiências. Portanto, os dois investiram o seu tempo de trabalho para desenvolver atividades de recursos humanos, certo? Mais ou menos.

O que cada um está entregando ao mundo, nesse caso, está intimamente ligado ao que as suas empresas estão entregando ao mundo. Suas atividades diárias de recursos humanos fazem parte da atividade final da empresa. Rafael investiu seu tempo de trabalho para dar ao mundo mais carros e Pedro investiu seu tempo de trabalho para dar ao mundo mais prédios.

Frida Kahlo, The Wounded Deer

Pensar na atividade fim da empresa ou do projeto em que aplicamos nosso tempo de trabalho se tornou mais comum na última década, mas ainda outros critérios prevalecem como mais importantes no momento da escolha, como salário, localização, possibilidade de crescimento e atividade que será desenvolvida no dia a dia. É justamente nesse momento de escolha que estamos optando entre Opção 1 e Opção 2, entre viver para satisfazer a mim ou viver para satisfazer ao todo.

Escolher onde investir o tempo de trabalho é uma escolha maior do que parece ser. Estamos, ao mesmo tempo, escolhendo por aquilo que faremos a cada dia de nossa existência e por aquilo que vamos construir para contribuir com o todo. Entre as diversas escolhas do dia a dia, é possível conciliar e optar pela Opção 1 em alguns casos e pela Opção 2 em outros. No entanto, quando se trata do tempo de trabalho, precisamos decidir se vamos viver para satisfazer a nós mesmos ou se vamos viver para satisfazer ao todo.