Ex-cortes

Era tarde e eu havia passado um dia tenso no trabalho. Tudo conspirou contra: chuva, comida na roupa, broncas, e-mail mandado errado… Nem o Salompas tamanho grande resolvia mais a dor de tensão que eu sentia e, pra piorar, a chuva engrossou e toda a cidade parou: trem, metrô, ruas — tudo parado. Mais de três horas pra chegar em casa, e eu só precisava dormir.

Um Dorflex, um Naldecon (noite) pra fazer passar a gripe, um leite quente e um banho mais quente ainda, e direto pra cama.

Acordo às 6. Estranho. Tenho sono pesado e fui dormir mais de 1 da manhã. Melhor assim. Mais cedo eu chegar no trabalho, mais cedo volto. Cadê minha caneca? Foda-se, preciso tomar menos café. Que tempo limpo lá fora. Ontem fez uma chuvona.

Gripe aliviada, banho tomado, coisas no bolso, belas mensagens de bom-dia enviadas aos meus bons e úteis grupos de Whatsapp, óculos limpo e uma maçã na bolsa. Hora de uma grande parte do dia, que envolve tempo, paciência, coragem e bastante emocional:

Andar de elevador.

Pra quem mora no 11º andar de um prédio com 40 anos de idade, descer o prédio é uma etapa a ser considerada ao sair de casa.

A pressa não era tanta, já que era cedo, mas fiz questão de apertar o botão luminoso com seta indicando para o solo antes de terminar de trancar a porta. Ele estava no 9º quando chamei. Descendo, parou no 6º. Alguém segurava a porta. Respiro fundo, espero, é cedo! Ele para primeiro no térreo, e segue para o terceiro subsolo.

Torna a subir.

Parou no térreo de novo, e minha paciência começava a dar sinais de acabar. Subiu, parou no terceiro, logo após voltou ao sexto andar, onde parou mais uns minutos. Já era o tempo de uns dois e-mails!

Eis que ele chega, e está vazio! Ao menos isso.

Tento olhar o mural de recados do condomínio, em busca de notas de falecimento ou de novas regras que o bom síndico pensou tendo em vista a minha nobre segurança, mas tudo está diferente!

O elevador não está com as teclas envoltas em azul bem forte, nem possui o revestimento metálico que lembra as esteiras de academia.

O elevador nem mais possuía a tela de LCD com um belo papel de parede com a foto do hall de entrada do meu bloco.

Ele desce devagar e barulhento em direção ao primeiro subsolo, pronto pra me deixar no andar em que meu próximo meio de transporte está ancorado.

Mas tudo está diferente.

Em uma primeira vista, pensei que os vizinhos haviam trocado o belo SUV, igual ao do mocinho da novela, por um Chevrolet Monza 1989, mas depois coloquei a mão no bolso.

Que chave de carro é essa? Não parece a minha. A minha tinha uns botões de abrir e fechar, tinha também um chaveiro com os telefones do meu distribuidor concessionário favorito da capital (era o que dizia a frase), e não um chaveiro do distribuidor de gás, desses de fivelinha de plástico. Aliás, meu carro nem é da Ford.

Que prazer: em minha vaga de garagem estava estacionado um belíssimo Ford Escort do ano de 1989! Que lataria impecável, que silhueta esportiva. Que cheiro de novo, que lindo esse volante de dois raios! Ainda tinha um Toca-fitas pronto pro uso, e um espaço interno de dar inveja a qualquer Fusca.

Eu não havia mais dúvidas: meu elevador, ao contrário do que pensava, nunca foi lento. Na verdade ele sempre viajou mais rápido que a luz e que o som, e havia feito uma anomalia no espaço-tempo. Eu estava em 1989. No mesmo dia 12 de abril, uma terça-feira cedo, com um Escort cheirando a novo e com tanque cheio, pronto para me levar ao emprego, que com muita certeza ainda não era meu.

Tudo está diferente.

Eu estava me sentindo bem! Queria ver meu bairro, há 28 anos atrás, queria ver as casas da época, as pessoas na rua. Mais uns anos e eu veria até meu próprio nascimento.

Ligo meu mais novo possante, movido a álcool, o que me exige umas bombadas no acelerador e uma puxada no afogador. Vou em direção à rua. O portão do meu prédio já era lento desde aquela época.

Saio na rua, e junto a uma série de Fuscas, Gols, gente com calça boca-de-sino e panfletos do Lula e do Collor, até consigo reconhecer meu vizinho Aluísio, 3 décadas mais novo, sem barriga, sem careca e sem cabelos grisalhos. Seu filho Marcelo, hoje casado, anda em seu colo.

Ligo o rádio, tento sintonizar alguma rádio, deixo na primeira estação que me livra dos chiados. Toca música. Era “Topázio”, aquela do Djavan, mas a versão cantada por Gal Costa. Pronto, eu definitivamente estava nos anos 1980.

Kremlin, Berlim
Só pra te ver
E poder rir

Esse jeito meio bobo de gostar das histórias das coisas, minha dissertação de mestrado, essa mania de achar que tem vocação pra arqueólogo, tudo isso estava me fazendo estar muito feliz. Se já existisse o Facebook, ia ser um post e tanto! “Old School :D — Sentindo-se voltando no tempo”

Olha lá o prédio atual da minha faculdade em construção! Prédio feio. Hoje é bonito, mas na época, pode acreditar em mim que estava lá, parecia Centro de Detenção Provisória. Talvez Foucault estivesse certo!

Em uma Vila Mariana e em uma São Paulo com trânsito indiano, vou gastando o tanque do Escort.

“Aqui vai virar isso.”

“Caramba, antes era isso?”

A Vila Mariana era um bairro legal lá em 1989. Era meio calmo, até calmo demais. Deu até pra ver o Sr. Chiquinho, o barbeiro, com setenta anos. Eu vi! No mais, dava pra reconhecer tudo. Uma sena madureira com terrenos baldios, o Empório da Empada mais barato, a Vergueiro com a caixa d’água.

Outra música toca na rádio. Era “Cavalgada”, versão do Roberto Carlos. Eu estava na Avenida Paulista, na frente do prédio da Gazeta.

Vou cavalgar por toda a noite
Por uma estrada colorida

Caramba, que música horrível.

Vou me agarrar nos teus cabelos / Pra não cair no seu galope.

Parei na primeira banca pra comprar um K7 do Titãs. Cabeça Dinossauro. Me custou alguns cruzados.

Bichos escrotos, saem dos esgotos.

O som meio abafado, meio “de latinha” do toca-fitas do meu Escort deixava a desejar, mas eu estava gostando. Andei por quase toda São Paulo que conhecia. Tinha coisa igual, coisa semelhante, coisa diferente, coisa inexistente…

Dirigi o Escort 89 (em 89) pela Av. Paulista, pela Faria Lima, Marginal Pinheiros, Radial Leste. Cogitei até completar o tanque e seguir pela estrada até Itapira, para fazer uma visita aos meus pais, que ainda não me conheciam. Mas me deu medo. Sabe como é, eles não iam acreditar na minha história e eu ia acabar ficando preso em algum hospital psiquiátrico por lá.

Melhor não.

Nessa altura já me dava saudades do meu prédio e do elevador-cápsula-do-tempo. Era hora de voltar pra casa e pra 2017, mas não antes sem parar no Aldeia, o bar em que eu almoçava quando trabalhava ali na Brigadeiro (pode acreditar, era mais ou menos do jeito que é hoje, lá em 89), pra tomar um 7up e assistir Patrícia Marx no Perdidos na Noite, apresentado pelo Faustão sem bariátrica!