Não fale, mostre

Lolita (1997) | Divulgação

A capacidade de se ver, ouvir, sentir, cheirar e saborear com palavras é talvez a característica mais importante da literatura. Sabemos avaliar a qualidade de uma prosa ou uma poesia pela forma como o autor experimenta com nossos sentidos e brinca até com a forma como compreendemos o mundo ao nosso redor. Ainda assim as pessoas normalmente relacionam literatura com adjetivos, que por sua vez não dialogam muito bem com essa percepção sensorial que os livros costumam transmitir.

O estopim dessa questão me veio enquanto um certo vestido cobria todo o Twitter. A Luisa Geisler comentou sobre o assunto e me fez pensar a respeito. Não é preciso ir muito longe para encontrar casos de leitores e autores que tratam adjetivos e palavras complicadas como chaves para textos mais sofisticados, quando isso na verdade os deixa mais preguiçosos.

Muitos adjetivos não enriquecem o texto, eles na verdade têm o efeito contrário. Acabam eliminando figuras de linguagem e outros recursos narrativos que buscam estimular a sinestesia do leitor com cheiros, sabores, sons e até imagens se transmutando de um conjunto de palavras, como moléculas reorganizando-se para dar um sentido a toda existência conhecida.

“Não fale, mostre” é um daqueles conselhos simples para o qual não dá bola nas primeiras vezes que ouvir, mas que acaba levando para a vida toda quando perceber o quanto ele faz sentido. O papel do escritor é usar a visão do leitor como porta de entrada para os outros sentidos e até ressignificar o que enxerga, conectando memórias sensoriais usando palavras. Qualquer um pode pegar um dicionário de sinônimos e cavocar adjetivos para descrever o cheiro de algo, mas nenhum deles vai chegar perto da complexidade que o aroma pode ter. Todo mundo sabe que o cheiro do café é gostoso, mas não é assim que nosso corpo reage a ele — nos despertando quando o sentimos, invadindo as narinas, sempre bem-vindo, e afetando até o paladar, fazendo jus às expectativas para uns e revelando-se uma mentira para outros.

Chuck Palahniuk publicou um texto (que só encontrei em inglês) com um exercício muito bom para ajudar a enriquecer o trabalho dos escritores. A ideia é durante seis meses trocar todos os verbos de pensamento (coisas como acha, sabe, entende, realizou, acredita, quer, imagina, deseja, qualquer palavra que você usaria em uma conversa normal para se expressar) por ações que os representem. No texto ele diz que “Pensar é abstrato. O saber e o acreditar são intangíveis. Sua história sempre será mais forte se você mostrar as ações físicas e os detalhes de seus personagens, assim permitindo ao leitor pensar e saber. Amar e odiar.”

No primeiro parágrafo de Lolita, Vladimir Nabokov dá uma aula de como usar bem esse recurso:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Eu sempre vou sentir arrepio ao ler isso. Nesse primeiro parágrafo Nabokov transforma substantivos em adjetivos. Outros autores se limitariam a descrever os atributos físicos dela, talvez a maneira de se vestir e um ou outro comportamento que o narrador considera especialmente sensual, o que imediatamente nos faria classificar Humbert Humbert (que na minha cabeça terá para sempre o rosto do Jeremy Irons) como um doente. Lolita não seria metade do livro que é se ele acabasse sendo escrito assim. A diferença é a forma como entramos na cabeça de Humbert; a única descrição física direta de Lolita é sua altura que imediatamente acusa a idade, mas quando chegamos nesse ponto, nossa empatia já está muito perto de ser ganha.

Essa introdução é um deleite sensorial, transformando até uma coisa mundana como dizer o nome de alguém em um ato extremamente sensual. Dolores não é uma criança nos sentimentos de Humbert, e ele deixa isso claro já em suas primeiras palavras. Ela é Lolita, uma entidade que tornou-se dona dele e acontece de por acaso estar dentro do corpo de uma menina. Tanto que primeiro somos apresentados à entidade, então conhecemos a Lô e seu metro e quarenta e sete calçando uma única meia soquete, novamente deixando de ser uma criança quando é Lola vestindo seus jeans desbotados, mas nos lembrando da realidade ao ser Dolly na escola.

Você sabe o quanto Humbert Humbert está errado, lá no fundo tudo o que aprendeu durante toda a vida diz que ele é um homem doente, mas depois deste primeiro parágrafo, você se entrega e aceita o mundo como é aos olhos dele, sem nunca se ver livre da culpa. Tudo isso com um adjetivo em oitenta e seis palavras, nenhuma delas tão complicada que vá te obrigar a procurar um dicionário.

Durante o livro inteiro Nabokov torce e distorce nossa percepção sensorial. Humbert, o protagonista-narrador, faz o papel de guia emocional e abre a própria carne para que possamos entender por meio de palavras as coisas que ele sente e pensa, nos deixando confusos com relação ao que acontece na cabeça dele e como nos sentimos a respeito do que se passa lá dentro. Isso tudo acontece com poucos adjetivos e ainda menos palavras difíceis, porque mesmo em um livro tão complexo, a simplicidade na linguagem é fundamental. Sem ela, a imersão seria muito difícil e todo o esforço tentando transformar o(a) leitor(a) em cúmplice para o protagonista seria um fracasso.

Porém, o adjetivo não é um inimigo e nem deve ser eliminado. Ele é tanto uma ferramenta da linguagem quanto qualquer outra, a diferença fundamental é que os adjetivos podem deixar a pobreza de um texto mais evidente. É sempre preciso lembrar que a ficção não é um relatório, você não precisa ir sempre direto ao ponto na hora de apresentar uma situação, isso faz parte da estética literária para a qual muita gente — autores inclusos — torce o nariz. O tal do ritmo da narrativa que nos mantém entretidos e também colabora na imersão. As palavras por si só não têm poder; o que as torna tão capazes é a maneira como são usadas por quem as escreve.