Setenta anos de uma péssima ideia

O atentado de Hiroshima, 2051 bombas nucleares depois


Nos 70 anos da brutalidade de Hiroshima, podemos fazer um exercício bem simples de contextualização com a ajuda do artista japonês Isao Hashimoto, que criou o vídeo abaixo ilustrando todas as detonações de bombas nucleares feitas desde 1945.

A primeira aconteceu em 16 de julho de 1945, o teste recebeu o codinome Trinity. Hiroshima foi o segundo experimento, e com ele descobrimos os efeitos em humanos. Mesmo naquela época, em um contexto moral e ético bem diferente do nosso, testes em pessoas não eram tratados com a falta de humanidade que tiveram os habitantes da cidade japonesa. Mas como quem vence conta a história, os EUA e a maior parte do mundo aliado apagaram o evento tratando-o como consequência da guerra e não como uma atitude arbitrária e covarde que mudou o panorama do conflito em um grau que não foi visto nem quando os alemães começaram a usar gás cloro em janeiro de 1915. No período pós-guerra, a aprovação da ação entre os habitantes dos Estados Unidos era de 85% (a aprovação dos japoneses também impressiona). O povo tratava o bombardeio como justificado, em parte por causa do preconceito que a guerra havia aflorado na população do país, mas principalmente por causa da falta de contato que tiveram com as consequências da bomba que matou quase 140 mil pessoas. Talvez por isso nada do que tenha acontecido no Japão durante aquele mês de agosto que durou décadas foi suficiente para nos impedir de continuar experimentando a melhor ferramenta de extermínio que a humanidade já inventou.

Soubemos publicamente de todos os testes depois da Segunda Guerra, principalmente durante a Guerra Fria, mas até certo ponto o consenso geral era de que todos testemunharam o horror que aquela arma era capaz de causar e se resignaram a experimentos e demonstrações de poder ocasionais, talvez por isso nunca paramos pra olhar o contexto geral deles. Nós deixamos de notar que até o ano de 1998 (sim, bem recentemente, a Índia e o Paquistão estavam brincando de ‘quem manda mais’), bombas nucleares de diferentes potencias foram detonadas 2053 vezes, contando as de Hiroshima, Nagazaki e a antecessora Trinity.

São 70 anos desde o primeiro teste em larga escala dos efeitos das bombas em humanos e, mesmo sabendo o que elas fazem, ao invés de parar pra perguntar “quem foi o idiota que teve essa ideia?” continuamos achando que valia o risco. Mesmo hoje nossa relação com as bombas atômicas é extremamente complicada. Oficialmente China, ìndia, Paquistão, França, Rússia, Reino Unido e EUA mantém armas nucleares em seu arsenal, enquanto há suspeitas de que Irã, Coreia do Norte e Israel também tenham ogivas. E curiosamente são esses os países que decidem quais outros têm direito ou não de abastecerem os próprios arsenais com armamento nuclear. A falta de mobilização em torno do desarmamento nuclear ainda pode ser notado nos números da pesquisa feita recentemente pela Pew, mostrando que expressivos 56% dos habitantes dos Estados Unidos ainda acham que o bombardeio foi justificado. No Japão a opinião é outra, apenas 14% dos japoneses vêem justificativa no ataque; e a discrepância se deve principalmente ao fato de que entre os dois povos, só um sentiu as consequências da bomba atômica.

De certa forma, a relação da humanidade com a bomba nuclear tem muito a ver com a nossa curiosidade empregada da pior forma possível. A maior parte d0s testes aconteceram só para termos uma noção dos efeitos que essas armas causariam, por isso sempre que conseguiam encontrar uma maneira de tornar a bomba ainda mais destrutiva — vide os absurdos 50 megatons da Tsar Bomba — , a pessoa no comando achava uma boa ideia explodir ela pra saber o resultado. Antes do primeiro teste com uma arma nuclear, a humanidade mal tinha certeza se uma só delas não seria capaz de dizimar toda a vida no planeta e, ainda assim, fomos em frente e testamos a sorte de bilhões de pessoas sem perguntar a elas antes.

As bombas nucleares tornaram-se uma extrapolação do sentimento humano de “antes eles do que eu”. Nós acabamos com todas as escalas e criamos um novo panorama político no qual os países começaram a ter medo de que um inimigo em potencial se importasse tão pouco com as vidas naquele território a ponto de usar uma arma capaz de dizimar todas de uma vez, Resultando em nações convivendo umas com as outras numa política do medo esquizofrênica. O atentado a Hiroshima foi uma amostra do rumo que as guerras globais poderiam tomar no futuro e, em algum grau, ajudou a evitá-las. A devastação deixou em todos nós o medo de que a próxima Grande Guerra seja a última.