Sobre afundar, sair do poço e tropeçar outra vez

Eu acabei de escrever sobre isso na newsletter que mandei essa manhã. Contei com satisfação sobre o momento ruim que passei na semana e como, pouco a pouco, me arrastei pra fora do poço em que tinha me metido e me sentia bem. Fui juvenil. Como se isso nunca tivesse acontecido antes, me sentir bem, enfrentar os problemas, lidar com meu medo de falar em público como se não existisse, me achar bonito o suficiente pra tirar uma selfie porque cortei o cabelo.

Me sentia tão bem que pude até parar e pensar “cacete, tem muita gente passando por isso, né?” e ficar assustado, querer abraçar todos os amigos sofrendo com a ansiedade que faz querer rasgar as roupas pra fugir do sufoco e a depressão que te cola na cama sem motivo aparente. É uma época bem escrota, de verdade, onde nos pautamos por idealizações, metas, destinos e nunca o aprendizado, porque aprender demora e não podemos perder tempo. Só buscar pela tag ansiedade aqui no Medium é mergulhar nela, se deixar dominar. É a definição de pavor, o insumo da bad.

Mesmo safo, acostumado às garras da ansiedade, sempre sou pego de surpresa por ela e sua companheira inseparável, a depressão. Foi o que aconteceu quando acordei essa manhã. Toda a animação do dia anterior tinha se escondido em algum lugar que eu não sei onde fica, mas me largou sozinho, tendo que contar com minha própria sorte de ter energia pra sair da cama. Eu não tive, precisei me arrastar, fazer trocas, escolher entre me levantar e seguir com o dia ou comer, acabei não comendo. Porque é assim que elas trabalham, me obrigando a fazer escolhas, a ficar ansioso porque preciso decidir entre fazer duas tarefas básicas que eu completaria por instinto em qualquer outra ocasião. Então pra fugir eu abro o Twitter, ele me deixa ainda mais ansioso, então fujo para o Facebook que me faz ainda mais deprimido. Isso me obriga a deixar pessoas que amo preocupadas, a não encontrar salvação, a olhar pra trás e ficar encarando todos os erros que cometi e me trouxeram até aqui.

Eu só tô conseguindo escrever isso agora porque precisei de um dia inteiro tentando me remover da neblina pesada, cheia de possibilidades, repleta de fracassos. Os vários “e se…” que minha cabeça cria em regime industrial, tudo aquilo que nunca tive, não tenho e aposto que não terei, assim como tudo aquilo que perdi — seja por culpa minha ou por acaso. Como reajo a essas coisas vai depender muito de que tipo de ansiedade que me atacou. São algumas, mas as principais se apegam aos meus erros ou às coisas que não dependem de mim para acontecer. São duas assombrosas forças que controlam tudo o que eu penso e ceifam de mim qualquer capacidade de pensar em um futuro melhor ou de me olhar no presente e encontrar alguma coisa boa.

“Vai dar tudo errado” acaba virando um mantra muito mais poderoso que “não vai durar para sempre” porque em um você quer acreditar, no outro você não tem outra opção além de acreditar. Eu queria ser capaz de escrever mais sobre isso, mas a sensação sempre é de que me faltam palavras, de só conseguir pensar em xingar, às vezes até em machucar os outros pra tentar fazê-los se sentir como me sinto, o que me deixa ainda pior. E isso parece não ter fim, me faz achar que o mantra “não vai durar pra sempre” é bobo, sem sentido, mentiroso. O que pode acontecer durante algumas horas ou dias, não dá pra explicar, costuma ser algo abstrato demais pra caber em palavras. Li alguns escritores dizendo que é difícil encontrar formas de se falar sobre a velhice, descobri a mesma ausência na hora de falar da ansiedade, porque pra ela só existe um tempo verbal: o agora. Nem mesmo o presente importa, ele é muito amplo, envolve muita coisa, e por isso assusta; enquanto o passado decepciona e o futuro preocupa. Ao mesmo tempo tudo habita o agora de alguma forma, todas as preocupações que eles trazem consigo estão presas naquele pequeno instante em que falta ar, o coração palpita e o mundo apavora. Eu nem consigo falar sobre tudo o que me incomoda porque parece errado por me sentir mal a respeito dessas coisas.

Em meu diário, escrevi na quarta que não conseguia arrumar a cama porque a bagunça dela era familiar. Eu me sentia próximo dos lençóis amarrotados e do edredom no chão porque eles pareciam com alguma parte de mim que eu não gostava de olhar. Foi o dia mais difícil, passou de tudo pela cabeça, até o que não deveria. Mas só chego nessa conclusão agora porque consegui controlar o ataque de hoje e já que, no instante dele, nada parecia pior. Talvez a ansiedade até ficasse com ciúmes da crise de quarta se eu pensasse dessa maneira. Os dias têm sido de luta constante, quando o medo de alguma coisa engatilhar a crise é o próprio gatilho. Quando os bolsos vazios pesam, a falta de contato com as pessoas é inevitável e a decepção pela própria vida fica ainda mais dolorosa.

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