Um olá para Plutão


Mesmo na ficção científica, com toda a liberdade possível para imaginar, Plutão sempre esteve cercado de uma mística inalcançável. A distância entre nosso planetinha e ele é tão magnífica que extrapola qualquer métrica malandra envolvendo carros populares, Titanics, baleias azuis, voltas na Terra e torres Eiffel empilhadas.

As luas Estige e Cerbero ainda nem tinham sido descobertas quando em 2007 Mass Effect brincou com esse mistério e transformou Caronte em um estilingue galático congelado. O próprio planeta foi “descoberto” por H. P. Lovecraft e recebeu o nome Yuggoth em Um sussurro nas trevas, a existência de Plutão acabou sendo comprovada (até então ele era discutido como um conceito por astrônomos e entusiastas, o tal do Planeta X) enquanto Lovecraft escrevia o conto. Estar tão longe e ser tão cinza foram as condições perfeitas para o planeta anão tornar-se uma prisão em Cowboy Bebop. Até que finalmente chegamos lá e descobrimos que Plutão não é uma bola cinza congelada, mas sim que tem um tom castanho bem legal! Infelizmente a lua Caronte também não é um Mass Relay, mas não dá pra falar com muita certeza sobre a existência ou não dos nativos Mi-go imaginados por Lovecraft.

Ainda não alcançamos a internet quântica, por isso o streaming da aproximação não será ao vivo. Mas já somos capazes de fotografar um dos últimos pontos inalcançáveis em nosso aconchegante e assustador Sistema Solar; um globo de detritos pelo qual nos apegamos tanto que se cercou de comoção quando foi rebaixado de planeta para planeta anão, uma categoria criada com a intenção de abraçá-lo — assim como o verbo ‘plutar’, porque precisávamos de palavras para expressar nossa decepção.

Apesar de orçamentos tão limitados, temos sido capazes de fazer coisas maravilhosas como encontrar Plutão, envolvê-lo em mística e romper esse véu antes mesmo dele completar uma volta ao redor do Sol em sua jornada bicentenária de translação.

Amanhã começará uma enxurrada de informações que serão gradualmente esquecidas a medida em que o tempo passa. Após cruzar por Plutão, não há garantia nenhuma de que a sonda New Horizons continue viva para derrubar outros mitos dos limites de nosso Sistema Solar. Até 21h (horário de Brasília) de hoje não saberemos nem se ela passou intacta pelo planeta anão e será capaz de oferecer a tal enxurrada de novidades. Mas já fomos mais longe do que havíamos ido até bem pouco tempo atrás e temos imensas expectativas de continuar vendo esses limites sendo batidos.

Como humanos criamos esse objetivo autoimposto de chegar cada vez mais longe e lembrarmos com cada vez mais frequência que o espaço não é o “lá fora”, mas o “logo aqui” e que, mesmo nos fazendo parecer tão pequenos e insignificantes, ele ainda tem esse poder encantador de nos abraçar como parte de algo, agregados a isso e curiosos sobre como esse macro funciona e se relaciona com nosso micro. Muitas vezes isso parece tão distante que ganha uma aura sobrenatural sutil a ponto de só a percebemos quando é descortinada. Foi o que aconteceu com Plutão, que está a mais de 6 bilhões de quilômetros e agora parece tão próximo, como se graças a uma foto estivesse dançando valsa com nossa lua e abrindo para nós seu coração.