O santo padroeiro dos necromantes e o embuste como ferramenta apologética: Santo Alberto Magno e o Speculum Astronomiae.

Há alguns dias, fui marcado, pela segunda vez, numa postagem do professor Carlos Nougué sobre Santo Alberto e o Speculum Astronomiae. Estive em dúvida se deveria escrever algo sobre isso; afinal, não nos conhecemos e o alvo da postagem com certeza não era eu (sou astrólogo e católico, mas é muito raro eu mencionar o santo ou a obra em público). No entanto, é preciso que vejamos Santo Alberto como ele era, não como gostaríamos que fosse, e o caso exemplifica o que gosto de chamar de “apologética do embuste”.

Esse procedimento é comum, infelizmente, tanto em católicos que, por algum motivo que me escapa, têm como interesse combater a astrologia, quanto em astrólogos (também por motivos que não compreendo) que gostariam de elencar santos entre seus colegas de profissão. Ele consiste em distorcer a obra da pessoa em questão e usar como maquiagem os preconceitos da platéia. Exemplos mais comuns são São Tomás como caçador de astrólogos (no primeiro caso) e Santa Hildegarda como astróloga /curandeira new age (no segundo). Nougué nos apresenta Santo Alberto higienizado.

Na primeira postagem em que fui marcado, o professor havia dito que o Speculum (que ele considerava, então, como de autoria de Sto. Alberto) era uma obra que fazia distinções bastante prudentes sobre o assunto, sem nada afirmar de forma categórica.

Na segunda, ele afirmou que, após ter passado um ano procurando, havia descoberto que o texto não era do santo “a título algum” e que ele , na verdade, “ainda que disfarçadamente, defende a astrologia judiciária e as ciências divinatórias”. Não se deve estranhar que Nougué tenha mudado de opinião sobre o texto conforme a autoria, não o conteúdo, porque a opinião não é dele; é uma tradução literal do texto no qual ele diz ter descoberto a verdade sobre o livro.

Ele cita como fonte Pierre Mandonnet (Siger de Brabante et l’averroïsme latin au XIIIe siecle, 1re partie; Étude critique. Louvain, 1908) e promete traduzi-lo em breve. Como o texto está em francês e sua segunda edição (de 1911) é facilmente encontrável online, não precisamos esperar que ele termine a tradução das mais de 500 páginas. O que queremos está em menos de duas.

O autor menciona o Speculum pela primeira vez na página 245 (capítulo IX, “Condenação do peripatetismo”; o trecho começa na página 244):

“A afeição de Bacon pela astrologia judiciária e as ciências divinatórias é bem conhecida. Ele as louva em excesso nos seus diversos escritos; e, mesmo que talvez não estivesse na mente dos juízes [da Condenação] de 1277, foi, sem dúvidas, afetado do mesmo modo. Impaciente e rápido, Bacon se dedica a compor um tratado em defesa de uma parte dos livros condenados. Este escrito é justamente o Speculum Astronomiae, atribuído universalmente a Alberto o Grande e publicado entre suas obras, mas a quem não pertence de modo algum [ou, como escreve Nougué, ‘não lhe pertence a título algum’].”

O autor não dá nenhuma outra explicação, nem retoma a questão da autoria, no livro. Ou seja, aqui não há o que descobrir, no original ou na futura tradução.

Os leitores que estranharem essa atribuição sem justificativa a Roger Bacon são remetidos por Mandonnet, em uma nota, a outro trabalho (“Ver, sobre a justificativa desta atribuição e os dados que resumimos aqui: Mandonnet, Roger Bacon et le Speculum Astronomiae, dans Revue Néo-Scolastique, 1910”).

É interessante notar que o artigo que explica a atribuição é posterior à primeira edição do texto; não a tendo em mãos, não sei se havia uma justificativa no texto e o autor resolveu separá-la, ou não havia e ele resolveu redigi-la.

Em resumo (o artigo também é facilmente encontrável pela internet e vale a lida), Mandonnet tenta, na primeira parte, determinar a data do texto e situá-lo como uma resposta à condenação de 1277. Na segunda parte, ele afasta a autoria de S. Alberto e levanta a de Bacon por motivos estilísticos (o texto emprega expressões comuns a Bacon) e temáticos, que se baseiam na semelhança de doutrinas entre o frei e o autor do Speculum, embora — e aí está, para mim, o ponto fraco do argumento — não demonstre a falta de semelhança entre o Speculum e o restante da obra de S. Alberto. A terceira e última parte do artigo dá as teses das partes anteriores como provadas e faz considerações que não são importantes para o que se discute aqui.

Eu não tenho como avaliar a força da tese de Mandonnet. Posso dizer duas coisas apenas.

A primeira é que os pesquisadores posteriores a julgaram fraca. Paola Zambelli, por exemplo, uma das mais importantes autoridades da área, atribui sem dúvidas o Speculum a Alberto, comentando e refutando Mandonnet e outros (The Speculum Astronomiae and its Enigma: Astrology, Theology and Science in Albertus Magnus and his Contemporaries. Boston, 1992).

A segunda é que encontrar semelhanças doutrinais entre o que Roger Bacon escreve sobre o assunto e exposto no texto é um tiro no pé, porque elas existem igualmente na obra do Doctor Universalis — falo sobre isso mais abaixo.

O engraçado é que Nougué não precisaria ter ido tão longe, nem pesquisado por tanto tempo, nem usado fonte tão controversa. Hoje em dia a autoria do Speculum voltou a ser questionada (embora não pelos argumentos de Mandonnet, e embora Bacon não seja o autor alternativo); é comum se referir a seu autor como Magister Speculi, evitando nomeá-lo. Jeremiah Hackett (Albert the Great and the Speculum astronomiae: The State of the Research at the Beginning of the 21st Century, in Brill’s Companions to the Christian Tradition — A Companion to Albert the Great: Theology, Philosophy, and the Sciences. Boston, 2013, págs. 437–451) diz que o fato mesmo de ser um texto anônimo depõe contra a atribuição a Alberto, porque ele costumava defender as próprias posições; não era do seu estilo publicar coisa anônimas. Outros autores são de opinião contrária (ele cita alguns; o texto seguinte do mesmo livro, que menciono abaixo, cita outros).

Ou seja: não há como atribuir com certeza (nem negar com certeza) a autoria do Speculum Astronomiae a Santo Alberto. Mas isso não é o importante.

O mais importante é que o professor Carlos Nougué parece sugerir que basta afastar este texto da obra de Alberto Magno para cortar a ligação dele com a astrologia, o que depõe contra o conhecimento do tomista acerca dos escritos do mestre de São Tomás.

Há diversas outras menções à astrologia e a outras práticas que a princípio soam escandalosas na obra do Doctor Expertus. Aqui vão alguns poucos exemplos (tirados do artigo seguinte ao de Hackett no Companion to Albert the Great, Astrology and Magic, 451–507, por H. Darrel Rutkin), ressaltando em itálico os trechos mais obviamente “pró-astrologia”.

“Deve-se afirmar que há duas partes da astronomia, como Ptolomeu diz: uma está relacionada aos locais dos corpos celestiais superiores, e suas quantidades e paixões apropriadas; e a isso se chega pela demonstração. A outra está relacionada aos efeitos das estrelas nas coisas inferiores, que são recebidas de forma mutável nas coisas mutáveis; e, portanto, a isto só se chega por conjectura, e é adequado que o astrólogo, nesta parte, seja, em certa medida, um filósofo natural e que faça conjecturas a partir de sinais físicos” (De Fato, obra original e incontroversa de S. Alberto).

“E porque a geração e a corrupção das coisas inferiores são causadas, desta forma, por um movimento superior ao longo do círculo oblíquo, portanto, todos os tempos que estejam em uma coisa temporal e todas as vidas de cada coisa viva têm um número do círculo celestial e estão determinadas pelo próprio círculo celestial, porque deste círculo se considera em que medida o poder da entidade geradora se estende, de acordo com o que ela produz a existência da coisa antes de produzir a corrupção completa da coisa, como revelada a partir da ciência das estrelas. Pois a ordem das causas de todas as coisas inferiores é dependente da ordem superior, e cada tempo que seja de uma coisa surgida na duração do tempo, e cada vida, é medida por um período” (Comentários ao De Generatione et Corruptione, de Aristóteles. O texto é de Aristóteles, mas os acréscimos “astrológicos”, na verdade, são de Alberto Magno).

“No entanto, nem tudo é medido pelo mesmo período, mas alguns têm um maior, e outros, um menor. O período de alguns é um ano, mas de outros é menos, e o de outros é maior, na medida em que eles sejam mais susceptíveis e retentivos da virtude que flui para eles do círculo celestial” (mesma obra — o trecho em itálico é todo um acréscimo de S. Alberto).

“Além disso, deve-se observar que o Sol não é a única causa geradora, embora o seja de forma preeminente, a menos que se diga que a geração se dá somente pela luz do Sol, porque, como dizem os melhores filósofos — Aristóteles e Avicena, Ptolomeu e Messellach [Masha-’Allah, astrólogo medieval], somente o Sol ilumina por sua própria luz e todos os outros planetas e estrelas são iluminados pelo Sol, como a Lua. Mas a luz é recebida por eles nas suas profundidades e os imbui com uma natureza diferente do que tem no Sol. E, portanto, na Lua a luz é fria e úmida de forma intemperada; em Saturno, fria e seca, de modo intemperado; em Júpiter, quente e úmida, de forma temperada, e em Marte, quente e seca de forma intemperada; e em Vênus, fria e úmida, de forma temperada. Mas em Mercúrio é misturada, porque ele aumenta a propriedade de cada estrela que observa. E no Sol, que os move a todos, ela é quente e seca de forma temperada”. (idem)

“Mas o que constitui um período é a relação do signo ascendente no horizonte com todos os outros signos do círculo, com suas estrelas e planetas na hora da concepção ou nascimento da coisa inferior, que é causada pelo, ou causada junto com o, círculo celestial” (idem).

“E, portanto, seres humanos morrem de modo diferente, mais rápido e mais lento, do que morreriam por sua natureza, e assim o fazem os animais. Além disso, as idades de todas as coisas são deste modo porque os planetas localizados no círculo periódico, quando são mais fortes, dão mais anos de vida; e quando são mais fracos, dão menos. E deste modo podem ser conhecidos, pois aquele que conhece as forças dos signos e das estrelas posicionadas nelas no círculo periódico quando alguma coisa nasce pode prognosticar sobre a vida inteira da coisa gerada, na medida da influência dos céus. No entanto, disto não postula necessidade, porque ele poderia ser prejudicado per accidens, como foi dito”.

Além disso, sobre os diferentes efeitos das estrelas, duas questões se fazem na filosofia natural, ou seja, (1), o que e (2), quando e onde, o efeito de qualquer estrela se dá. Esta investigação é o trabalho do praticante de eleições e do adivinho por meio das estrelas, cuja tarefa é eleger e saber as horas de acordo com as quais o que vem a ser no mundo inferior se refere às configurações das estrelas (Comentários a De Caelo et Mundo de Aristóteles).

Aqueles que são sábios com relação às estrelas em primeiro lugar consideram o círculo de cada local, e em seguida consideram as virtudes dos locais como um segundo conjunto de estrelas, e destes dois juntos prognosticam sobre a natureza da coisa gerada; pois as estrelas emitem suas virtudes por meio de alguma outra coisa, não sem um intermediário” (De natura loci).

Estes são apenas algumas poucas passagens evidenciando que nosso Santo e Doutor Alberto, o Grande, tinha muito mais intimidade com a astrologia do que sugere o esforço em afastá-lo do Speculum Astronomiae. Ele não nega que exista o “fato astrológico” (a relação entre o céu visível e eventos terrestres), demonstra conhecimento das técnicas astrológicas, parece reconhecer a legitimidade da existência de estudiosos e praticantes e os trata de forma elogiosa.

Na verdade, esta nem é a parte mais supostamente problemática de sua obra. Por exemplo: dono de uma curiosidade quase inacreditável, S. Alberto se aventurou por vários campos do saber, incluindo a ciência dos minerais e um estudo da distinção entre o que é permitido e o que é proibido na… confecção de talismãs (como fica evidente no Liber de Mineralibus, obra cuja autoria não se disputa).

S. Alberto já foi (injustamente) chamado de Albertus Magus e de necromante, e já teve as mais alucinadas obras atribuídas a ele (o que aconteceu também com seu aluno S. Tomás). Cometer o erro oposto — mutilar-lhe a produção intelectual para melhor lhe adequar a padrões de carolice e de subserviência ao relativismo mecanicista moderno que ele jamais subscreveria — não é apologética, é embuste.

A Verdade liberta, desde que não se tenha medo dela.