A casa dos meus pais

E quando não houver mais ninguém para morar lá?

Casa da família em Lins-SP

Cheguei em casa ontem de madrugada, a casa onde moram os meus pais e que não sei até que ponto realmente ainda posso chamar de minha, e acendi as luzes do atual quarto de visitas que recebeu uma pequena reforma no dia e eu ainda não tinha conferido. O quarto quase vazio de móveis, com uma velha máquina de costura e um armário, era sem vida. As paredes limpas evidenciavam que ninguém, de fato, morava ali. Esse espaço, agora ocupado principalmente nas festas de final de ano, um dia teve minha irmã, que colava recortes de revista do cantor Daniel na parede e atrás da porta e ficava o dia inteiro ouvindo música isolada do resto da família. Eu, o irmão caçula, necessitava de permissão para entrar ali, até porque meu histórico já não era muito bom — quando ela era pequena e eu só um bebê, destruí várias de suas bonecas.

Fui para o meu quarto, ao lado, e percebi que ele só carregava o status de “meu” pela frequência pela qual visito minha cidade natal. Se eu fosse como minha irmã, muito mais desligada emocionalmente dessa cidade, ele se tornaria mais um quarto de visitas que potencialmente seria meu no Natal. Lembrei também que um dia nessa família houve uma vó, mãe de minha mãe, que ocupou esse meu quarto, colocando nele longas cortinas floridas e uma penteadeira cheia de perfumes e cremes. Até ela morrer eu não tinha um lugar só meu na casa, meu tio por alguns anos ocupou o quartinho dos fundos, eu não dividia em hipótese nenhuma o de minha irmã, e me restou até certa idade o berço no quarto de meus pais.

Hoje não há mais vó, ela faleceu quando eu tinha sete anos. Hoje não tem mais tio, ele foi embora há muitos anos pra seguir sua vida. Hoje não tem mais minha irmã, que tem uma vida, na medida do possível, feita. Hoje não tem nem mesmo eu, que vou embora novamente pra minha atual cidade dentro de uma semana pra estudar e trabalhar. Têm ainda meus pais, no seu poderoso quarto, dormindo despreocupadamente. Pensei que um dia também nem mesmo eles existirão, e a casa que tanto lutaram pra construir não haverá moradores. Não há filhos que tenham a perspectiva de morar aqui um dia. Essa construção, esse bocado de tijolos e cimento está fadada a ter mais um quarto vazio um dia, como esses outros que já enfrentam a solidão.

É difícil pensar na morte como um fato, pra mim, pra vocês e nossos pais. Mas ela existe. Tratei de tirar esses pensamentos da cabeça, eles terão ainda décadas lindas de vida, com muitas idas e vindas minhas pra cá.

Um dia essa casa será saudade, será tristeza, mas será lembrança também, de uma época que os quartos eram cheios de vida e gritos e conversas podiam ser ouvidos na cozinha.

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