Porque renomear a sua marca com um nome de uma empresa que faliu pode fazer sentido

Hoje saiu a notícia que a Nordic Games, uma publicadora austríaca de games, mudou o seu nome de "Nordic" para "THQ Nordic". Isso não seria grande coisa, afinal rebrandings acontecem dia sim, dia não. A diferença nesse caso é que essa tal de THQ é o nome de uma empresa que declarou falência três anos atrás, o que tornou a situação toda muito mais interessante.
Para ter um pouco de contexto vou resumir rapidamente o que ocorreu com a THQ: considerada uma das grandes desenvolvedoras e publicadoras de videogames, a THQ ao longo de seus mais de vinte anos de vida fez jogos como Saints Row, Red Faction, Metro, Darksiders, Warhammer 40,000, WWE e outros. São franquias de jogos conhecidas, que venderam bem e que o público gosta.
Por causa disso ela sempre foi muito conhecida no mercado, mas também nunca foi gigantesca como uma EA, Ubisoft ou Activision. Se existem os jogos "AAA" o que a THQ publicava e desenvolvia se encontrava no meio termo, os jogos "AA", jogos às vezes com um valor de produção menor, mas muitos deles bons de qualquer maneira e que durante um bom tempo tinham seu espaço no mercado. Porém, a situação não estava boa a partir de 2009. Ela tinha muitos estúdios, gastava muito dinheiro produzindo jogos e fazendo marketing deles, só que os jogos (muitos deles já não com a qualidade de outrora) não estavam vendendo o quanto precisariam para segurar isso tudo.
Resumindo a história, aconteceu que a situação financeiro chegou ao limite e em janeiro de 2013 ela entrou com o pedido de recuperação judicial, o que foi algo enorme na época. A partir dai começou um leilão com suas propriedades, incluindo estúdios, franquias de jogos e a própria marca THQ.

E nesse ponto entra a Nordic Games. Até então uma completa desconhecida no mercado, mas que tinha feito alguns ports e semelhantes, essa empresa ganhou o leilão para comprar algumas franquias, entre elas Darksiders e Red Faction. A Nordic desde então está voltando com a franquia Darksiders para o PS4 e Xbox One, com planos de fazer um terceiro jogo, o que fez ela começar a ganhar alguma relevância e awareness de parte do público.
Ano passado ela anunciou que comprou também a marca THQ, podendo então fazer o que bem entender com ela, inclusive voltar a usar ela como publicadora de jogos.
Mas por que eles resolveram se renomear para THQ Nordic?
Hoje, quando essa notícia saiu, muitos jornalistas e pessoas da indústria reagiram com a sensação que esse foi um erro gigante e que a marca THQ não tem mais valor nenhum. Eu entendo o ponto deles, pois é um movimento arriscado, mas eu tenho um outro argumento: ninguém sabe o quem é a Nordic Games.
Tirando eu, jornalistas e pessoas que passam o dia visitando sites de games, o resto do mundo não tem ideia de quem é essa Nordic e porque ela tem alguma relevância.
Mas a marca THQ, por outro lado, não é assim. Ela é reconhecida. As pessoas lembram dela. O grande público que joga videogames pode até não saber exatamente quais são os jogos da THQ ou mesmo quem é aquela empresa, mas ele vai bater o olho na marca "THQ Nordic" e se lembrar que em algum momento na vida dele ele viu aquelas três primeiras letras na tela inicial de um jogo.

É tudo uma questão de brand equity e awareness. Ao usar o nome THQ a Nordic está de certa forma pulando e otimizando etapas no processo de construção de marca. Pode dar errado? Sim, há essa chance. Mas eu acho que são chances pequenas. O nome não é apenas "THQ" e sim "THQ Nordic", o que indica que algo de novo existe ali e que não é a mesma empresa que faliu três anos atrás. Os jogos que eles irão voltar a publicar são franquias que o público gosta e reconhece. A marca THQ evoca memórias positivas nas pessoas, não apenas o fato que ela faliu.
Por mais bizarro que possa parecer, é um cenário de branding que faz sentido lógico. Mas claro, eu definitivamente não recomendaria renomear a sua empresa de energia com o nome Enron.