Não faltam projetos

Muitas vezes a desculpa é que faltam projetos. No caso do Ponto Vitória, eu discordo. E acho que o professor Mauro Pinheiro da Ufes, em post do facebook que copio aqui na íntegra, explicou muito melhor do que eu.

Antes de mais nada, deixo meu projeto de graduação, citado pelo Mauro ao final do comentário, que também relata uma parte da questão relativa ao PontoVitória.

Segue a mensagem do Mauro:

Não sei se você sabe, mas em 2012 iniciei um projeto de pesquisa, junto com alunos do curso, que objetivava ao final desenvolver um sistema de informação a partir dos dados do Ponto Vitória. Inicialmente a intenção era criar algo a ser instalado nos pontos.
Naquela época o sistema estava “aberto”, era relativamente fácil buscar as informações sobre os ônibus. Daí surgiram várias alternativas de acesso ao Ponto Vitória, focando no acesso por telefone celular, já que o Ponto Vitória não se adaptava bem em celulares. Além do Rômulo Vitoi que você mencionou, havia o “Meu Busão”, o “No Ponto”, o “Buzzão Vitória”. O Marquito (ou melhor, Marcos Accioly), à época aluno do curso de Design da Ufes, desenvolveu o VixBus, uma solução interessante pelo Twitter — https://twitter.com/vixbus — que dispensava instalação de apps, e tirava partido do fato das operadoras de telefonia não cobrarem pelo tráfego de dados dessa rede social.
Quando começamos nosso projeto, nós queríamos uma parceria institucional, não queríamos apenas “pegar os dados” que estavam abertos naquele momento mas não eram de fato públicos. Conversei com o Secretário de Transportes da época, Domingos Sávio Gava. Saímos da conversa com a promessa de uma parceria, que nunca aconteceu a despeito de termos enviado a documentação necessária para iniciar o processo.
Mudou o Prefeito, mudou o Secretário. Nova conversa, dessa vez com o Max da Matta. Novas promessas. Na prática, nada foi pra frente.
Resolvemos ir direto à empresa que desenvolveu o serviço, a Geocontrol, responsável por todo o sistema — desde o GPS nos ônibus até o sistema web que acessávamos pelo Ponto Vitória. Conversamos com o dono da empresa, saímos com nova promessa de parceria. E, novamente, nada foi pra frente apesar de inúmeros emails solicitando o básico: o fornecimento dos dados que eles já dispunham, que naquele momento não estavam mais “abertos”.
Convém destacar que o Ponto Vitória era um subproduto, que na verdade nem havia sido pensado inicialmente. O serviço que a Geocontrol prestava para a Prefeitura era muito mais para possibilitar a gestão da rede do que para informar a população. Era sobretudo um sistema de monitoramento dos ônibus para a própria Secretaria de Transportes poder ter um diagnóstico preciso do que acontecia nas ruas, ao longo do dia. O Ponto Vitória foi algo que surgiu ao longo do processo, mas o foco da Prefeitura nunca foi prestar informações para o público.
Já naquela época a Prefeitura estava renegociando o contrato com a Geocontrol. Percebi naquele momento quão frágil era o serviço. A Prefeitura estava a mercê da empresa, que detinha toda a tecnologia do serviço. Nessa época de mudança de Secretário e renegociação de contrato o serviço ficou fora do ar.
Pela resposta “automática” (e pouco informativa) que você destacou em inúmeros contatos da população com a Prefeitura de Vitória, já dá pra ver que transparência não é o forte do poder público. E isso não é exclusividade de Vitória. Parte do trabalho de pesquisa que fizemos em 2012 foi buscar informações sobre sistemas de informação em uso nas capitais brasileiras. Depois de um ano de trabalho, não conseguimos resposta de nenhuma prefeitura contactada. Os canais oficiais de comunicação não se prestam a dar informação relevante. Afinal, quem detém a informação, tem poder.
Entre 2011 e 2012 orientei quatro projetos sobre sistemas de informação para o transporte público em Vitória. Os (ex)alunos Caíque Figueiredo Arêas, Saulo Pratti, Murilo Gouvêa e o do Marcos Vinícius Forecchi Accioly.
No final das contas, nosso projeto evoluiu por outros caminhos. Marquito o seu projeto de conclusão de curso, com uma proposta que já não se detinha no ponto de ônibus, optando por desenhar uma solução para ser usada em ambientes internos. A documentação sobre esse projeto está disponível na Amazon: http://www.amazon.com.br/VisualizaBus…/dp/B00OA7LPU8
Não falta projeto. Falta sinergia entre a universidade e o poder público.