Uma canoa para a Cru Campus
Imagine que você está em algum lugar no meio do Amazonas. Não necessariamente no meio do estado, mas precisamente “em meio” a Floresta Amazônica.
Deixa eu te contar como foi que você chegou lá. Você precisou viajar por meia hora de ônibus até chegar num porto no Rio Amazonas. O Rio é enorme, e a outra margem fica muito distante da margem em que está. Nesse porto você esperou uma balsa que demorou cerca de 1h30 para sair. Todos os passageiros desceram do seu ônibus e subiram na Balsa, assim como seu ônibus e dezenas de carros, caminhões e etc. Muita gente. A balsa anda por aproximadamente 1h e meia até chegar ao “outro lado”, que na verdade é outro porto em outra cidade. Você desembarca em um lugar diferente de tudo que já viu. Pessoas com carrinhos de mão trazem peixes gigantes e enormes para vender. Alguns olham pro seu grupo (umas 50 pessoas com cara de gringos) com olhares curiosos ou mal intencionados. Em meio a confusão seu ônibus desce da balsa e subimos de volta nele. Agora a viagem é por uma estrada: a famosa transamazônica. Cerca de 3h em meio a floresta passando por dezenas de rios, riachos, casas de palafitas, barcos, arvores gigantescas… 3h depois você sai da estrada e pega um “ramal”, uma estradinha de barro mais curta que leva as aldeias, povoados, vilas.
Seu ônibus é grande e a estrada está lamacenta por causa das chuvas estrondosas que caíram nos dias anteriores. Na mesma semana havia chovido mais de 100 mm numa única manhã, e você nem sabia que isso era possível. Como era de se esperar, seu ônibus atolou no ramal lamacento. Tentou sair 1 vez. Tentou 2, 3… Na terceira ele sai da lama e avança. Ufa. Quase. Anda mais meio quilometro e atola de novo. Tenta várias vezes, mas ele não sai.
Agora você precisa descer todo mundo do ônibus na lama e ouvir as reclamações do motorista que diz que não deveria ter colocado o precioso ‘busão’ ali. Os homens da expedição começam a empurrar o ônibus na lama enquanto as meninas avançam pela estradinha de terra. Dizem que estamos perto. O ônibus desatola, mas o motorista se recusa a prosseguir. Teremos que continuar a pé. Depois de andar por mais 20 minutos numa estradinha com floresta de um lado e de outro, seus pés estão cheios de barro. Uma crosta de argila vai secando em sua sola, você nem sente mais as pedrinhas machucando os pés. Sim, você está descalço. Abandonou seu tênis nos primeiros metros quando enfiou o pé na lama e ele não voltou, quase fica por lá mesmo. Está irreconhecível em suas mãos agora.
Depois de mais meia hora de caminhada você chega ao seu destino. Ele fica na beira de um lago. Imenso. Lindo. Simplesmente maravilhoso! Lá há uma igreja flutuante. Aqui existem 2 estações: a da seca e a da chuva. Na primeira o nível de água do rio baixa, já na segunda ele sobe, as vezes mais do que se gostaria alagando todas as casas.
Seu destino é uma igreja, mais precisamente uma igreja flutuante que está ancorada as margens do lago do Limão no município de Manaquiri, Amazonas. Aí é só alegria. É hora do almoço. Faminto, você come seu lanche de pão, carne, salada e suco que foi cuidadosamente preparado na noite anterior. Tá quase na hora de começarmos o culto.
Uma canoa aparece e você, que nunca entrou em nada menor que a barca Rio-Niterói, entra nela morrendo de medo. Sim, o rio tá cheio de piranhas. E a canoa balança mais do que qualquer outra coisa, ela parece que voa na superfície do Rio. Quase vira algumas vezes, mas o “passeio” transcorre bem. Você precisa ir nas comunidades ribeirinhas em volta do enorme lago para convidar os moradores pro culto. Eles se arrumam e vem em suas canoas, alguns vem de carona na canoa que você alugou.
Se tem uma coisa que é superimportante aqui é essa tal de canoa, ela é um item obrigatório pra quem mora as margens do rio. Canoa motorizada é um luxo, para maioria o jeito é remar mesmo. E muito.
Chegou a hora do culto na igreja flutuante. Simplesmente maravilhoso. Todo mundo louvando com aquele visual fantástico de rio e floresta lá fora. O missionário compartilha um desafio para o local: eles precisam justamente comprar uma canoa para conseguir visitar todas as comunidades ao longo do Lago do Limão e outros rios. Ele aluga uma canoa quando vai pra lá, mas as vezes as 2 canoas motorizadas do local não estão disponíveis e ele faz a viagem pro lago e fica ilhado sem conseguir realizar seu trabalho. Você sente que pode fazer alguma coisa em relação a isso.
Aliás, da primeira vez que encontrou esse missionário, cerca de 1 mês antes do projeto começar, ele citou a necessidade e a importância dessa (inexistente) canoa pra missão. Agora ele lança o desafio mais uma vez. Eles devem precisar muito dessa canoa mesmo. Tem mais de 50 pessoas junto com você, dá pra tentar fazer alguma coisa.
Depois do culto conversamos um pouco com os moradores locais e já é hora de voltar. Conseguimos uma carona de carro até a estrada onde esperamos que o motorista esteja nos esperando com o ônibus. Ufa, não terei que andar de volta pelo lamaçal até a estrada.
Horas depois chegamos ao porto e novamente temos de esperar a balsa por mais de 1h. Um lindíssimo pôr do sol dá o ar de sua graça, o que torna a espera menos extenuante. Anoitece e numa espécie de “terraço” da balsa viajamos mais 1h e meia contemplando o breu e o silencio rompido pelas conversas e pelo ronco do motor. A balsa é muita alta, o tal terraço fica numa altura de uns 10 metros o que dá uma visão privilegiada das margens escuras e das poucas luzes de ‘casas de caboclos’ que vemos pelo caminho. Ao fim da viagem extenuado pela aventura fica na sua mente aquele desejo intenso: “Tenho que achar um jeito de dar uma canoa pra essa missão. Mas como? A canoa é cara, uma usada custa cerca de R$3600 sem o motor. A gente não tem de onde tirar esse valor, mas acho que dá.”
A primeira coisa que você faz é reunir a galera que tá contigo no projeto e tornar mais claro o desafio feito pelo missionário. Cita as dificuldades enfrentadas pra chegar ao local e as oportunidades que a missão teria se tivesse uma canoa. A galera se empolga. Você não conseguiu dinheiro nenhum, mas seu coração já bate mais forte. Vai que dá… Algum entendido de plantão começa a fazer contas. “Somos 50, se cada um conseguir R$73 a gente chega ao valor da canoa. Se não conseguirmos tudo podemos dar o dinheiro e eles inteiram o resto depois.” A galera se empolga, começam a mandar mensagens pra seus investidores, pastores, igreja, parentes, amigos e etc. Postam sobre o desafio nas redes sociais e as ofertas começam a aparecer. Ofertas de R$5, R$10, R$15, R$50, R$100, R$200… Pelos próximos 8 ou 10 dias elas vão chegando.
No último domingo de projeto você leva seu grupo para visitar a sede da missão na cidade de Manaus e participar do culto com eles. Já se passaram 8 dias e você ainda não tem o dinheiro completo, mas pela fé anuncia que o grupo visitante irá doar a canoa para a missão. E continuam as buscas por ofertas. Muita gente doa e participa. Você nem sabe o nome delas nem o estado onde moram (visto que tem participantes de 9 estados em seu projeto) e exatos 11 dias após o desafio lançado o valor é completado. Até ultrapassa: você doa para a missão um envelope bege com R$3750. Ou uma canoa. A canoa da Cru Campus.
Seu coração explode de felicidade, quase não cabe dentro de si. Quase 2 meses depois de ter ouvido sobre a tal canoa em uma conversa despretensiosa dentro de um carro, seu grupo está doando aquela ferramenta que só quem já enfrentou os rios da Amazônia faz ideia da importância.
Você volta pra casa e as notícias e fotos vão chegando. “Estão fazendo a canoa na oficina”. “Estão terminando”. “Agora estão pintando”. “Colocaram ela em cima do carro e estão levando pra missão”. “Estão ungindo e consagrando ela na igreja”. “Estão levando ela pro Lago do Limão no Manaquiri”. “Estão colocando o assento”. “Estão adaptando uma ‘rabetinha’ (motorzinho de baixo custo e resistente a água) nela”. “Já está no rio”.
Pronto, olha lá ela. Os missionários vão sair pra evangelizar os ribeirinhos rio acima. Olha, ela vai ser usada para socorrer as pessoas que precisarão dela. Olha lá, ela carregando todo tipo de recursos necessários para se viver na beira do rio na Amazônia… Olha lá ela. É a canoa da Missão Confins da Terra. É a canoa doada pelo pessoal que passou um mês evangelizando universitários em Manaus. É a canoa da Cru Campus.