(Cheeseburger da Consciência parte 6)

The Promenade — Marc Chagall (1918)

ter lembrança é se comover com badulaques. se empanturrar na fila do pão de açúcar e não ter vergonha na cara quanto ao admitir em público o deplorável estado calamitoso da humanidade. torrados seremos. fritos estamos. vamos nessa. o grito primal e não mudo caríssimo arthur rimbaud que dá o salto na besta. encorajar as ideias malucas de um alucinado desses disse dona Lurdinha. A síndica e minha vizinha parlavam. Travavam relações de contato perigoso. Uma delas era estática. As portas estáticas da percepção do supermercado vinte e quatro horas. Abobrinhas.

yage letter oficialmente começada.

be careful. (death in vegas — dirge)

a tarefa é socialmente estabelecer uma ideia de que existe o plano fictício. e tudo não passa da memória de um autor desalinhavado. tipo “stranger than fiction” mas sem ouvir voz alguma narrando, apenas o caminhar, na pintura enquanto está sendo pintada. parte da fotografia, no instante em que foi tirada.

criado o plano fictício é preciso ir às compras e aprender gramática (será mesmo tão necessário?). a questão deleuziana da noite da minha parte é: internet — um modelo futuro de sociedade de controle? xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

o dia das compras das palavras. ir catando uma por uma nas prateleiras. nas gôndolas elas reagem inauditas. presas ao precipício de torrenciais convulsões frenéticas. peripécias da malandra classe média de sempre. comprar e reagir, receber mais um bocado de sangue. sangue se perde aos borbotões quando se é atropelado por um carro-forte. desses italianos cujas marcas transferem a ideia prática de um designer quarentão e boa praça, boa pinta, inteligente, charme ítalo-cardiovascular.

veneza

(Deerhunter-Nothing Ever Happened)

super-adjetivado demais.

- não tenho ambições ou sucessos — diz essa pra professora então.

- não tenho mais uma laringe.

os termos foram então lavrados.

Culpa é modo de dizer.

Quando digo que a culpa é dela, na verdade, gostaria de dizer que todo encantamento só me foi apresentado pela moça que surgiu de repente numa festa de inverno — ou seria outono? — onde senhoras bruxas cujas famílias despendiam enormes quantias em ração para gatos, celebram a colheita de alguma coisa, revista pagã de religiões da moda.

Tudo me entediava. A maioria das pessoas me causa engulhos. Suas opiniões prosaicas, seus gestos turvilíneos, suas necessidades básicas de pão muzzarella e manteiga ou requeijão cremoso, gôndolas de Marcelo Mirisola, carrinhos de supermercado abarrotados com centenas de fatias de comida congelada e porções a milanesa ou guloseimas edificadas em corante para as crianças alérgicas do amanhã.

É sobretudo com tédio e desengano que me pego a pensar constantemente, numa imersão em compreensivas cartas à mim mesmo, nada de criativo: passatempo de neuróticos com requintes de ironia e crueldade nas modalidades nocivas do moderno sofrimento. A histeria coletiva que nos acomete amanhece em dívidas de jogos da mente que fazemos a todo momento, com intuito de perpetuarmos a espécie e livrar-nos da nossa culpa prazerosa em provocar constrangimento nos outros.

Tergiverso.

O assunto é sempre dela. Pertence a ela todo o momento descritivo que tento permutar com minha crença de que possuo algum talento. Gostaria de não omitir fatos, estar com ela é cenário de um mundo aprazível para aquele que gosta de conceitos, ideias, rumos da ancestralidade, bastiões da independência amoral, etc. Fascinação surge pelos cantos, acaricia os cancros, ácido em relevo desespero. Poderíamos criar nomes para uma nova linha de batom ou a venda de versículos satânicos para coroinhas embebidos em sangue, tudo na maior finesse esportiva, levando a tiracolo sorrisos de seu retrato multiplicado em centenas de expressões que dizem mais que uma Odisséia.

Selecionando o resultado apropriado na fisioterapia pediátrica: como metas de tratamento individual para crianças com paralisia cerebral são refletidas no GMFM-88 e Pedi.

Na foto ele estava doido de brown. O brown nas ruas centrais de Goiânia. A necessidade de escrever tudo especificando sensações momentâneas daquela época. Certas etapas da vida devem ser concluídas com necrose do canal sentimental. A raiz inatingível. Isso tudo poderia ser monográfico. Isso tudo poderia ser sua tese de mestrado. O professor de música mimetiza sons em espirais de tédio. A plateia ouve ávida e atenta aos melindrosos sons que ele provoca. O gestual e o bocal. A música respira e expira, flutua por palavras de professoras (acadêmicas) da USP. Cinema é sinônimo de quadros. Você assiste televisão por quadros e gargalha de maneira gostosa. Como se fosse a criança de domingo. A criança que antes de sair de casa se arruma, enquanto o Pingo vai a forra lá embaixo. Desce as escadarias sozinho e vai brincar com as crianças do prédio. Você escova os dentes pensando em ter um bom dia sem passar muita raiva. A raiva é a raiz do problema. Anotar tudo confiantemente. Está sendo escrito sim. O desenvolvimento das páginas vivas, rizomáticas, intermediárias entre o tudo e ao mesmo tempo fazendo sentido por si mesmas. As palavras de cantigas solitárias ao violão. Com beck e a voz rouca espectral na lembrança. Um dia o Pingo sumiu e nunca mais foi visto. Um complô: o silêncio de criancinhas comprado em troca de guloseimas. Nem é pra tanto. Isso é vida que se leve? Roubar cachorro dos outros. Deve ser uma tia muito triste. Muito necrosada em seu canal sentimental. Roubar cachorro da Alice pra agradar o filho doente. A doença misteriosa dos filhos de cada tia que carrega sua cruz no dia a dia. A cruz a doença o espectro. A vida é uma maratona de a vida é.. Frases, epígrafes, livros a serem escritos inteiramente a seu respeito, como eu tinha dito no caderno há um tempo atrás, longe da percepção que estaríamos assim tão próximos e distantes ao mesmo tempo.

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