O constrangimento de Arnaldo

(Cheeseburger da Consciência parte 12)

Anos depois se encontra com velhos colegas da infância. Roupa branca, banho tomado e anos de poesia concreta (depois). Um oi, sorriso envergonhado. Sem jeito com minha atual maneira, eu sinto muito. Não consigo mais me adaptar ao que concluíram que eu era. Mudei. Voz e violão, passagem pra Bahia comprada com parada em Minas. Pras filhas entenderem, apreciarem, e quem sabe, até mesmo cantarem junto na escola, como se fosse ciranda, na rodinha que os moleques empurram.

O constrangimento é gaiato

não tem razão em ser

desse jeito

No parque desligam a fonte para economizar energia.

A grama do vizinho é sempre mais verde.

“Todos temos nossas carências”

disse ele, o bonachão, com uma verve intensamente desconfiada em sua interpretação. duvido que realmente acredita nisso, absorve e reafirma em frases feitas. Terceiros acreditam, publicitários informados, engenheiros que datam a hora certa de firmarem compromissos religiosos. Contrair o matrimônio é o vírus dessa gente. Esses dias ainda foi com a irmã provar um vestido de noiva.

Aproveitei a farra e degustei pão com lagarto e batata frita. À nossa frente carros passavam e seus ocupantes conferiam a cafeteria descolada, tirando ares de alto-nível. Um local frequentado em sua maioria por homossexuais, muito requinte e bom-gosto elitista para narizes da finesse.

* Eu era “saia de mim” e agora fiquei assim, místico, higienizado, pronto pro consumo catecista de quem gostaria de se sentir consumidor oficial de “boa cultura”, daqueles que se postulam pelo menos um nível acima do cambalacho desregrado que o povo desfruta sem pudores.

comércio catecista de quem gosta de sentir-ser consumidor oficial da “boa cultura”, daqueles postulados pelo menos…

“Complô contra nós”

todos só me falam bem desse cara

confirmarem as suspeitas

pertence à ordem

- the elegant chains of altered chords

tirando a fuligem, tolerando a ferrugem. O tempo que me pertence. Se aconteceu é porque foi bom de alguma forma. A diabinha me perguntando com sua ternura casual, meiguice de falar sobre sentimentos com a luz do dia ainda lá fora, sem pudores: não gostava?

Gostava e ainda consigo curtir, me lembro de tudo, passamos um bocado, nos toleramos e rimos juntos. Isso é convivência, isso é vida, é assim que se frequenta fluxos…

(historietas inseridas acerca foxtrote/conjunto)

Apresentação do modelo de etiquetas justapostas

diatribe =

Acordou com uma abelha zumbindo logo acima de sua cama, próxima ao reator da lâmpada, planando a procura de algo ou perdida de alguém. As abelhas que saíram a passeio e uma delas se perdeu, foi conferir um cômodo diferenciado e acabou condenando seu dia a ser seu último de vida. Acendeu a luz e se postou num canto qualquer do quarto. Ficou observando por uns segundos o plano de voo errático do pequeno objeto identificado a percorrer o céu de brigadeiro concreto do seu quarto (teto).

Condenou a abelha a morte num instante despreocupado, tendo a certeza de que teria um belo dia pela frente, mais um de sua vida que não sofria qualquer ameaça que fosse há muito tempo. Tirando o potencial que os aviões no qual viajava corriam o risco de cair, nenhuma outra ameaça pairava em seu caminho.

A abelha descansou numa parede. Imóvel ela fazia ideia da enrascada, do começo de uns poucos segundos, ainda consciente, detentora de alguma consciência do que é ser/estar/planar por aí sossegada distante das neuras e bad trips e conchavos de seu grupinho na colmeia.

Pegou o tênis, calçou em sua mão e segurando firme deu um pulo na direção exata inequívoca que estava a abelha

aabelha / a — bêlha

mascando chiclete num prenúncio da morte. Abelha que nunca mais construirá favos de mel.

“a distorted reality is now a necessity to be free”

O café tem gosto de cola. Não faço [há muito tempo] a barba. Pareço estar me logrando de um mal muito maior, ainda não iniciado. A sensação persecutória de que todo dia pode ser o último, nosso último relance-momento de paz celestial e bandeirolas azuis japonesas flanam.

A França parece estar mais próxima. Uma França intelectualizada, evidentemente, porém compassiva, sentimental sem perder a finesse de barras suíças de chocolate. Teus alpes existem frondosos, na sua companhia, propiciando paz com o TODO ! De acordo com uma simetria invisível que perpassa nosso cotidiano, nossas referências visuais insistentes, lembrando as drogarias em cada esquina onde alimentamos nossa fissura coletiva, nosso desjejum laboratorial e farmacêutico.

O que precisaria acontecer para movimentar a trama? Não é suficiente o vazio imagístico de Asteta Valdéz e seu comparsa? O nada intelecto social de Lindsay? Alice, a diabinha que na real se chama … ?

Nosso reservatório de água foi recentemente infektado devido a obras na canalização individual de cada Kibutz retangular. Lá fora uma névoa seca e avermelhada permanece prostrada em seu abraço crepuscular — a cidade nem parece notar a diferença.

* diatribe: crítica acerba; escrito violento e injurioso

Queria me apresentar uma usurária do próprio prazer em troca do racha na compra de fumo. Sensação estranha de mundo moderno liberal, pernicioso e sem culpas. O lado reacionário se choca e levanta a voz numa hora dessas. Onde foi parar o amor? Tudo mito platônico que o século deleuziano um dia varrerá, ela me diz, a diabinha lógica da relativização.

O bonachão se açoita moralmente por ser incapaz de produzir arte de qualquer modo, técnica nem que seja diletante abstrata, ele me confidencia. Colocar no papel inseguranças e confissões alheias é o mau-caratismo número um da literatura. Certamente inventaram a borracha anti-semântica que apaga esses traços provincianos frutos do catolicismo (cristianismo) onipresente em nossa formação moral e cívica.

semântica: estudo das trasladações ou mudanças que, no espaço e no tempo, sofre a significação das palavras. Sinônimos: semasiologia, sematologia e semiologia.

- fetichista e original. Outros se impressionam e querem um pedaço, uma partícula que for, do que outros perjuram, conduzem suas motivações cinematográficas. O horizonte que engana infinito, adormece urbano na calmaria plúmbea, férrea, poluidora das manhãs e seus jornais pra enrolar peixe do dia que se abre, entrecortado a seguir.

* Tutti Fellini (indo comprar cocaína em El Paso, pensando em Tarantino, o lonely Agripino e a morte [foice: o grim reaper, baby] e Marilyn Marilyn Marilyn…