Procurando uma direção

Marcos Auler
Aug 23, 2017 · 3 min read

Olhos vendados, mãos amarradas, corpo desidratado e um gosto de sangue na boca, bom foi assim que eu acordei no dia mais alucinante da minha vida. Seria esse o preço por eu me arriscar tanto. Vivo em São Paulo e trabalho como instrutor de armamento e tiro. Estava de férias e deveria voltar nessa manhã para o serviço. Cinco horas em ponto sou acordado com a campainha do meu apartamento. Ainda meio sonolento eu abro a porta sem conferir quem era e me deparo com um sujeito carrancudo, cheio de cicatrizes aparentes e um colete de couro bem velho. Ele nota que fiquei assustado e me acalma com um delicado soco nas fuças. Apago instantaneamente. Desperto em outro local e fico me perguntando o que gerou esse acontecimento no meu dia, e só uma coisa vem na cabeça. O interesse em descobrir o paradeiro do meu pai. Algumas semanas atrás estive no interior procurando informações que me levassem até ele, era só pronunciar o nome Tenório Lopez que dava para ver a expressão de terror das pessoas. Minha avó dizia que ele era um sujeito calado de semblante triste e um ar misterioso. Muitos acreditavam que ele era um assassino de aluguel. Lopez conheceu minha mãe por acaso, ela morava em um sítio com minha avó e costumava dirigir sua pampa cinza modelo 82 e coletar as verduras dos vizinhos para vender nos mercados da cidade. Um dia desses de muito trabalho ela socorreu Lopez que estava com o pneu de sua moto danificado na estrada. Ali começou uma amizade e duas semanas depois um namoro. Na noite que comunicaram o relacionamento para minha avó foi a mesma que um vizinho nosso foi assassinado e também a última vez que elas tiveram notícias de Lopez. Minha mãe teve uma gravidez de risco e morreu no meu parto. Fui criado pela minha avó e sempre fui curioso para conhecer as histórias obscuras do meu pai. Sinto que de alguma forma estamos ligados ainda. Escuto uma voz arrastada falar o meu nome e me dizer para levantar, ele retira minha venda e diz, “Tiago eu sou Tenório Lopez e infelizmente não sou seu pai. Sei que você me procurou e agora que estou velho eu posso te contar toda a verdade, de fato sou esse assassino que todos temem porém nunca mandei pro outro lado alguém que não merecesse tal destino, seu verdadeiro pai era aquele vizinho que matei na mesma noite que fui embora, sua mãe me confidenciou que uma vez ela foi lá buscar as verduras e ele a surpreendeu e foi pega a força. Sua mãe foi a pessoa mais amorosa que conheci nessa jornada carregada de coisas ruins, sinto até hoje a presença dela na garupa da minha moto. Tiago, sei que eu e você não temos o mesmo sangue mas gostaria de propor algo que vai mudar muito a direção da sua vida, quero que tome o meu posto e se torne o novo Tenório Lopez.” Aceito de prontidão tal missão e ele me presenteia com seu velho colete de couro e uma foto de minha mãe com um sorriso que nunca tive a chance de ver pessoalmente.

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Marcos Auler

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