Abecedário

*Entrevista para trabalho acadêmico de Gabriela Slovak (10/11/2018).

A. Autenticidade

Conceitualmente, a noção de autenticidade é demasiado ilusória, em especial sob o viés romântico que institui a lógica pela qual o gesto do gênio produz obras originais, enquanto as cópias carecem de autenticidade. Ora, tudo o que existe e o que se cria são diferenças: uma coisa é uma coisa, e nunca outra. Onde tudo é original, nada há de original.

Nesse sentido, autenticidade é um gesto interpretativo, próprio de um olhar dotador de sentidos, produtor de repetições e definidor de diferenças. O ser “autêntico” nunca o é por si mesmo, mas expressa um modo de olhar que lhe é alheio. Aquém desse olhar, todavia, há um processo real: algo de singular está sempre acontecendo. Trata-se de gestos que só expressam a si mesmos. Uma dança, por exemplo, só expõe o próprio dançar, um movimento que se mostra enquanto tal. É desse modo que certa autenticidade imanente se torna visível: como gestualidade espontânea, impensada, que se deixou fluir pelo livre escoamento do próprio gesto.

B. Banalidade

Ao datilografar, em meados dos anos 1980, O elogio da superficialidade (título original de O universo das imagens técnicas), Vilém Flusser buscava conciliar dois sentimentos que o acometiam na época: a vertigem e a banalidade. Isso não equivale ao par profundo-superficial — pensar nesses termos implica anular a fluidez que assinala o pensamento flusseriano, o qual opera acionando sentidos e metáforas na contramão de toda fixidez intelectual.

A banalidade vigora lá onde a superfície coincide com o profundo, tal como uma dança errante que, além de cega, é também vertiginosa. A banalidade não pede para ser decifrada, pede apenas para não ser ignorada. Trata-se de uma força em curso de atualizar-se, é o presente que se torna presente. Flusser sabia que não há nada mais profundo e vertiginoso que essa expressão do banal. Não como exceção da normalidade, mas, ao contrário, como singularidade que se repete a cada momento e em todo lugar.

C. Consumo

O consumo aparece na passagem, ao longo do século XIX, da esfera privada dos salões aristocráticos para o espaço público do comércio. Ao despontarem as lojas de departamento e as vitrines, os produtos começaram a ser expostos para o deleite visual dos transeuntes, com objetivo explícito de sedução, sendo também nessa época que se consolidaram a publicidade e o design como os conhecemos hoje. O discurso dessa prática (consumismo) foi tão disseminado que, com o chamado “estado de bem-estar social”, após a Guerra Fria, já nos soa como natural: a competitividade do mercado faz proliferar a segmentação do consumo, que por sua vez diversifica os modos de vida e garante a prosperidade socioeconômica.

Mas essa mentira depende de uma crença prévia: a do Mercado enquanto ordem divina ou natural, que nos dá dias de sol e de chuva. Para que questioná-lo? Por que propor mudanças contra o que é fatal? Se não se consegue um bom emprego, se não se consome o que se deseja, a culpa não é da sociedade, mas apenas do indivíduo que “fracassa”, já que o mercado seleciona os melhores e os destaca de acordo com seus méritos. Essa lógica totalitária, enraizada ao longo do século XX, é tida como verdade irremediável que regula a complexidade da vida política, social e globalizada. O consumo é, sob esse prisma, a recompensa prometida aos vencedores: status social por meio da autorrealização profissional.

Nada nos impede, todavia, de blefar com essa lógica, jogando com suas representações para sobrevivermos, mas sem a menor necessidade de apostarmos nossa vida, nossos desejos e valores nesse jogo.

D. Durabilidade

Há uma bela cena do filme Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975) em que os dois protagonistas, o russo Arseniev e o nômade Dersu, estão abrigados numa cabana, esperando a chuva passar. Quando a chuva cessa, Dersu solicita ao amigo fósforo, palha e sal. Arseviev lhe indaga sobre o que ele faria com isso. Dersu responde que não é para ele, mas para deixar ali na cabana, para a próxima pessoa que precisar se abrigar nela: com o fósforo, essa pessoa poderia acender a palha, para proteger-se do frio, e o sal serviria para cozinhar o que conseguisse caçar. Sem maiores explicações, Dersu só queria ajudar, não importa a quem seja.

Essa mentalidade nômade, embora extinta nos centros urbanos, reaparece entre refugiados, imigrantes e exilados que se auto organizam em situações precárias. Para essas pessoas, a ideia de durabilidade cede lugar a certa sabedoria ancestral: a necessidade de deixar as coisas para trás, de observar o entorno, de aprender que a vida sempre se renova. Nisso não há nenhum tipo de “projeto” possível, apenas adaptações e recomeços, pois o que prevalece é a precariedade. Desse ponto de vista, todo discurso sobre sustentabilidade chega a soar ingênuo. Ainda temos, a meu ver, muito o que aprender com essas pessoas que permanecem invisíveis.

E. Elitismo

A queda do Muro de Berlim marcou o triunfo do liberalismo. As elites, cuja voz parecia varrida pelas vanguardas, assumiam pouco a pouco uma roupagem nova, a de um antídoto tecnocrático aos excessos totalitários da Europa. Depois da era bipolar, afinal, as pessoas se declaravam partidárias da democracia e da economia de mercado. Num mundo então “livre” de ideologias, todos poderiam finalmente aspirar ao bem-estar, ao progresso intelectual, civilizacional, tecnológico etc. Ora, hoje é difícil de acreditar que alguém de fato chegou a pensar que isso tudo poderia dar certo. Mas as coisas pareciam ir muito bem (computadores, direitos humanos, globalização etc.), enquanto os jovens alemães já se questionavam: a que tipo de ordem sobrenatural os nossos pais estavam obedecendo? Por que eles ainda nos dizem que não sabiam?

É interessante notar, em retrospecto, que quando as coisas já parecem estar todas resolvidas é porque nada foi resolvido de fato. Se não somos capazes de (ou, melhor, se não queremos) reconhecer o stablishment das elites é pelo simples fato de que dele participamos. E tal participação não significa necessariamente pertencer às elites, mas sobremaneira endossar a falácia elitista segundo a qual “todos somos iguais”, apagando as diferenças sob a insígnia do fracasso, da doença, do anormal. Quanto mais a sociedade é apaziguada em seus dissensos constitutivos, tanto mais as elites conservam seu monopólio. A consequência óbvia desse processo é o recrudescimento de uma violência velada e banal, aquela que se propaga diariamente por todos aqueles que ainda dizem que não sabiam.

F. Ferramenta

Gosto de pensar que alguém que hoje atua como designer poderia ter sido um alquimista na Idade Média. Mas quem na Idade Média compreendia o que os alquimistas faziam? Somente os próprios alquimistas, enquanto seus perseguidores provavelmente se contentassem em saber vagamente que aquilo não passava de heresia. Com isso quero dizer que o design é muito parecido com cozinhar: você nunca sabe exatamente como será o gosto. O processo é um movimento de reviravolta contínua, onde tudo pode ser retomado, abandonado ou transformado em outra coisa. É um jogo confuso, mas é assim que funciona.

E a questão não é apenas “como funciona”, mas como funciona o próprio “como funciona”. Em outras palavras, a tarefa do design nunca foi a de resolver ou desenvolver coisas, e sim a de problematizar, tencionar e desconstruir. Em vez de partir de uma intenção prévia, trata-se de examinar, articular e correlacionar os inúmeros “problemas” através do afrontamento das intenções que previamente lhes imputam um caráter problemático. Em resumo, o design não é uma ferramenta que possa servir para algo. É um modo de subverter ferramentas, percepções, perspectivas e modos de operar. Sua ferramenta é todo o resto.

G. Gatilho

O nazi-fascismo pode voltar em qualquer lugar do mundo, com exceção da Alemanha. Os crimes nazistas estão expostos em memoriais, museus, nas cátedras universitárias, no cinema, nas artes visuais etc. E ainda assim há o consenso de que a memória do Holocausto está longe de ser uma questão resolvida. Já no Brasil… bem, aqui ninguém gosta de lembrar da ditadura. Por que remexer no passado? Vamos pensar no futuro. E agora já tem gente dizendo que a ditadura nem foi tão ruim assim, ou que nem existiu. Porque, é claro, a gente escolheu esquecer. É assim que o gatilho dispara: quando não cabe mais muita coisa debaixo do tapete.

H. Hábitos

O hábito faz o monge? Talvez sim, no sentido de nos fazer acreditar nas coisas em que acreditamos. Funciona como placebo, pois mesmo que sejamos capazes de reconhecê-lo enquanto tal (o que não deixa de ser outro hábito), não há como evitar os hábitos alheios. Significa que nós todos somos afetados pelas convenções, leis, medos e esperanças que habitam o cotidiano. Mas nada impede de sabermos que o capitalismo talvez um dia chegue ao fim, que Deus talvez nunca tenha existido, que nosso valores, o amor e a ciência talvez venham a falhar, e assim por diante, e quando isso acontece o que nos resta é apenas o hábito de pensar.

I. Informação

O que me parece vagamente inédito na chamada “pós-verdade” não é tanto a prática sistemática da desinformação, nem a falta de senso crítico de um público tão tendencioso quanto as informações que consome. Nada disso é novidade. Desde sempre dizer a verdade significa, em primeiro lugar, convencer. A questão é que convencer tornou-se desnecessário. De um lado, temos a impressão de que toda informação está “viciada”, no sentido de confirmar uma convicção prévia. De outro, no lugar de versões parciais, as pessoas acreditam já compreender um lado, o seu contrário e tudo o que estiver entre os dois opostos.

Assim, aquilo que chamamos de “verdade” já não precisa ser um discurso dotado de coerência interna. É apenas uma imagem totalizante sem qualquer significado em particular, que se adequa rapidamente às oscilações da opinião pública. Os opostos mesclam-se e confundem-se, do mesmo modo que ajudas humanitárias podem ser enviadas por um mesmo governo que envia tropas ofensivas. Isso porque ainda insistimos no engodo iluminista do consenso (a ideia de que, no fundo, todos concordamos), negando a divergência, os contrastes, os dissensos inerentes a qualquer sociedade.

J. Jazida

Nos últimos cem anos, o petróleo foi a fonte de energia mais consumida em todo o curso da existência humana. E até a metade do século passado, para extrair petróleo bastava furar o chão e engatar uma mangueira (claro que não era tão simples assim, mas o investimento necessário equivalia basicamente a isso). Por conseguinte, nos habituamos a essa aparente fonte de prosperidade, de modo que coisas inconcebíveis do ponto de vista econômico se tornaram incrivelmente banais: andar de carro em vez de trem, usar plástico na produção de praticamente tudo, naturalizar a expansão desenfreada do capital especulativo etc.

Atualmente, no entanto, as petroleiras precisam investir cada vez mais alto em pesquisas de ponta (em geologia, química, engenharia etc.) para tentar alcançar a profundidade de raras agulhas que ainda restam num imenso palheiro. Por mais que já tenhamos avançado em algumas energias renováveis, parece-me óbvio e evidente que nosso modo de vida cosmopolita está prestes a ruir. Não tenho em mente um cenário do tipo Mad Max, mas algo próximo do que já vivemos: tudo se passa de maneira estranha, com líderes políticos cada vez mais bizarros, enquanto todos continuam fazendo o que sempre fizeram. Em suma, se os romanos não perceberam que Roma já estava falida, não seremos nós que vamos perceber.

L. Letargia

Alguns (pseudo) filósofos como Bauman, Lipovetsky e Byung-Chul Han têm denunciado uma espécie de complacência anestésica da vida contemporânea, algo próximo à letargia do “soma” na distopia de Huxley. Penso que é justamente o contrário que se destaca no cenário atual: o ressentimento e a sensibilização. De um lado, condutas reativas, excessivas e controversas são replicadas de modo a incrustar o acirramento das convivências. De outro, as obras artísticas e de entretenimento não escapam da influência de uma sensibilidade generalizada em relação aos conflitos, às minorias, às diferenças. Em vez de letargia, o que se sobressai é a intensificação.

O pessimismo intelectual, é claro, persiste como nostalgia ou remorso de uma suposta pureza perdida que já não encontra respaldo no mundo. Em contrapartida e de maneira bem mais visível, surgem iniciativas descentralizadas e descompromissadas com os rigores da tradição (ex. os coletivos de arte, a mídia independente, os ativismos diversos). É uma experiência ativa de sensibilização e engajamento, e não um lenitivo, lamento ou resignação.

M. Makers

Os alunos só conhecem o que fazem na medida em que o fazem. E o que fazem os professores? Na pior das hipóteses, fazem toda a diferença. Pois permanece significativa a raiz etimológica de “educação”: ex ducere, que em latim significa dar vazão a algo, à potencialidade que se inscreve no fazer cotidiano das pessoas. Seja qual for a orientação pedagógica e seus nortes demasiado teóricos, o desenlace educacional restará sempre em aberto: criação incógnita para quem ensina, expressão múltipla de quem aprende. Nesse intervalo ruidoso, prenhe de possibilidades de adesão, recusa e diferenciação, abre-se um território propício à aventura intelectiva, mas também ao desconcerto, ao inusitado e à inspiração. A educação não é, portanto, um meio para atingir um fim, mas é ela própria a finalidade última de suas práticas — trazer para fora a potência criadora que já reside em cada indivíduo, em sua lida com o mundo.

Penso que a chamada “cultura maker” é apenas outro nome para o fazer experimental que talvez já não tenha espaço nas salas de aula. A experimentação é o fazer que não procede de uma intenção, tampouco prevê resultados a serem alcançados, não podendo ser julgada em termos de sucesso ou fracasso, belo ou feio, normal ou anormal. Em vez disso, é preciso experimentar e recomeçar tantas vezes quantas forem necessárias, num processo sem pontos de chegada, mas apenas de partida, posto que sempre em movimento.

N. Novo

Quando eu era estudante, uma professora me aconselhou a ser sempre o mais objetivo possível, sem rodeios, com uma linguagem clara e sucinta. Isso me forçou, desde então, a seguir na direção oposta. Eu acreditava que eu e meus colegas precisávamos de algum antídoto contra os rigorosos métodos que os professores nos ensinavam. Mas, em outro momento, quando eu estava no mestrado, aquela mesma professora apresentou-me alguns textos acerca da influência, na década de 1970, do pós-estruturalismo no design gráfico. Foi então que eu descobri que aqueles antídotos que eu procurava eram, na verdade, não apenas antigos, como também já obtiveram relativo sucesso e hoje soam como velhos clichês.

Percebi então a importância de saber onde estou pisando. E hoje eu observo que estudantes, professores e profissionais continuam preocupados em propor novas questões e soluções, mas é como se todos estivessem virados de costas para a fortuna crítica do design (e isso vale, inclusive, para o design thinking). Buscamos levantar novas perguntas, mas desconhecemos as velhas respostas. Queremos fugir dos clichês, como se tal atitude já não fosse um clichê. Não sabemos (e não queremos) sequer criticar a nós mesmos, deixando sempre aos outros a tarefa de explicar por que somos relevantes ou irrelevantes. De resto, a corrida econômica avança desenfreada em busca de lucro, produtividade e “inovação”.

O. Ocidente

Globalização é uma noção tipicamente ocidental, pois significa o contrário daquilo que literalmente quer dizer. Seria absurdo acreditar que um mundo globalizado é aquele onde as pessoas vivem onde e como quiserem, num reconhecimento mútuo de todos por todos como concidadãos de uma comunidade sem fronteiras culturais e sociais, em que todos possuem os mesmos direitos e assim por diante. Em vez disso, globalização designa precisamente hegemonia política e cultural por meio da concentração de poder econômico. A história é longa, e a questão tipicamente ocidental é que as coisas nunca são aquilo que parecem ser.

O grosso da história se passa ao longo da década de 1990, naquele entusiasmo do bem-estar social, quando algumas organizações internacionais (FMI e Banco Mundial) tomaram uma série de medidas para a liberalização do livre-comércio internacional. A desculpa era que, com a redução da presença estatal, as empresas transnacionais teriam a bondade de promover o desenvolvimento econômico e a distribuição de renda nos países mais pobres. Mas o que aconteceu, é claro, foi o contrário: o fluxo de capital saía mais dos países pobres, tornando os países ricos mais ricos. Quanto a isso, a lógica neoliberal insiste em dizer simplesmente que “nem tudo saiu conforme o planejado” (isto é: nem tudo foi privatizado). Ao mesmo tempo, conspirações do tipo “nova ordem mundial” ressuscitam nacionalismos obscuros.

O que isso tudo implica em termos culturais é uma insidiosa neutralidade discursiva. As culturas dominantes, para não abrir mão do receituário neoliberal que as beneficia, tentam estabelecer valores, percepções e estilos de vida que sejam neutros em relação às diferenças culturais. Significa dizer que nós, ocidentais (europeus e norte-americanos), somos os únicos esclarecidos e emancipados o bastante para “tolerar” as culturas subalternas, ensinando-as a ser como nós. É uma tolerância, portanto, que deixa intacta a homogeneidade de uma cultura dominante, colonialista e paternalista. Assim, conforme argumenta Anne Phillips no livro Multiculturalism without culture, o exercício da hegemonia cultural passa cada vez mais pelo viés multiculturalista.

P. Personalização

A despeito do capitalismo globalizado, designers e publicitários gostam de dizer que estão projetando meios para que o público possa construir a sua própria identidade, de formas criativas e diversificadas. A retórica da personalização, com efeito, expressa paradoxalmente uma lógica global, a de um mundo no qual o consumo tornou-se o meio universal de estabelecer a identidade particular de alguém. No balcão das lojas e supermercados, somos todos iguais; é a ostentação das mercadorias, ao sair das lojas, que faz com que sejamos diferentes.

Na maior parte das vezes, com efeito, o que chamamos de identidade é empurrado sobre nós. A identidade de um negro, por exemplo, lhe é previamente imputada pelo banqueiro que lhe negará crédito, ou pelo policial que o prenderá por estar no lugar errado e na hora errada. Portanto, nem todos têm esse privilégio de acreditar que são livres para se autodefinirem como quiserem. Eu gosto de lembrar, nesse sentido, como o movimento zapatista foi retratado pela mídia internacional e pelas organizações humanitárias na década de 1990: em vez de revolucionários de vanguarda, eles foram apresentados como um bando de índios reivindicando por autonomia indígena. Alguém estava escutando o que eles realmente tinham a dizer? Não, porque ninguém foi capaz de aceitar que um indígena poderia dizer ao mundo algo que não fosse apenas sobre sua identidade exótica. Eis a insídia da personalização.

Q. Quantidade x Qualidade

A obsolescência programada é um fato demasiado óbvio. Uma lâmpada incandescente acesa em 1901 permanece acesa ainda hoje, na Califórnia, ao passo que nossos atuais smartphones são trocados em média uma vez por ano. O que não é tão óbvio é a falsa impressão de ascensão, igualmente programada, das classes populares. Isso se reflete na crescente adesão a agendas políticas contraditórias: um discurso, por exemplo, que promete mais empregos e, ao mesmo tempo, a retirada de direitos dos trabalhadores.

Não basta uma tomada de consciência ou uma “mudança nos corações” — isso sempre esteve potencialmente programado e virtualmente obsoleto. A meu ver, o curso político do mundo desde os anos 1990 confirma a tese geral de Axl Honneth (apesar de seu hegelianismo abstrato) segundo a qual a compreensão das lutas por reconhecimento tornou-se mais precisa e contundente que as velhas teorias sobre estruturas de dominação. Trata-se de um olhar mais atento aos contrastes sociais, aos disparates culturais, aos “dois pesos e duas medidas” que se instauram por trás de toda sorte de relação de poder (que, como nos ensina Foucault, é o que nos constitui social e subjetivamente). Resta-nos compreender, em suma, que quaisquer dados, cálculos e quantidades sempre expressam divergências morais, sociais e de modos de vida.

R. Ritual

Em seu livro Pensando o Ritual, Mario Perniola remonta as várias acepções desse termo na antiguidade romana. Uma delas consiste na noção de evocatio (evocação), uma assimilação rigorosamente apurada de rituais alheios cujo significado originário é calado, esquecido, ignorado. É por esse caminho que o termo religio se associa ao verbo relegere (reler), invertendo a religação sagrada em uma releitura profana, mundana e esvaziada de sentido.

Penso que o design contemporâneo faz alusão direta a esse modo de assimilação que dissolve os modelos, como um sincretismo de rituais, discursos e visualidades. A potencialidade do design não consiste em mera leitura, no sentido de extrair/atribuir significados às coisas, mas numa espécie de releitura profana, articulando e colocando em perspectiva os diversos discursos que perfazem as leituras tradicionais. Nesse movimento, o design atesta que nenhum tipo de ritual se mantém puro e invulnerável ao passar do tempo.

S. Sensibilidade

A importância da sensibilidade social não reside na nobre intenção cristã de “colocar-se no lugar do outro”, mas sim em saber, antes de tudo, qual é o lugar de onde nós falamos — e, a partir desse lugar, como podemos nos posicionar em relação aos outros. Trata-se de compreender que há tantos modos de ver possíveis quanto realidades possíveis de serem vistas. E que, ao mesmo tempo, estamos sempre ocupando uma posição previamente situada, com maior ou menor visibilidade social, com mais ou menos privilégios.

É preciso pensar naquilo que nos é estranho, ou seja, nas condições que fazem do outro propriamente um outro — e, a partir disso, permitir que ele/ela tenha acesso a novos lugares, em vez de situá-lo previamente (como nos ensina o imperativo cristão). Na prática, isso se traduz em algumas perguntas-chave. Quem costuma falar e quem costuma ser silenciado? Quem costuma ser visto e quem costuma ser ausentado? Como algo que nós dizemos poderia ser interpretado se fosse dito, com as mesmas palavras, por outra pessoa? Quais são as perspectivas possíveis a partir das quais nós somos vistos, e quais tendemos a adotar para ver os outros? O quanto daquilo que sabemos sobre os outros foi efetivamente dito pelos outros? E o que o eventual silêncio dos outros, ou o nosso próprio, tem a nos dizer?

T. Tempo

O tempo só existe enquanto mediação ficcional, podendo assim ser aferido, narrado, gerenciado etc. Ao mesmo tempo, o tempo nos constitui na medida em que nos escapa. O tempo é, assim como nós mesmos, sempre diferente do que era antes. O tal “tempo perdido” redescoberto por Proust nada mais é do que o reconhecimento de um presente inescapável que não se deixa fixar.

Enquanto mediação ficcional, o tempo está sempre “atrasado” em relação ao que ele pretende reter. As coisas se repetem e se renovam, mas tudo já está perdido para sempre antes de ter sido sequer pensado. A memória, com efeito, revela por vezes um traço inesperado não exatamente do passado, mas do irreparável atraso pelo qual nos situamos no presente.

U. Universalidade

O que pode haver de universal talvez seja apenas a dispersão. No início de A Arqueologia do Saber, Foucault discorre sobre a aparente unidade formal de todo livro: embora pareça ser um objeto completo e autônomo, cada livro encontra-se sempre disperso ao longo de uma rede de outros textos. Do mesmo modo, um conhecimento não pode ser verdadeiro por si só, mas somente em relação a outro, como fator de validação.

Funciona assim: será este conceito verdadeiro em relação a este outro? Desse modo, a “verdade” é como um aduaneiro, funcionário que exerce a função de fiscalizar as fronteiras, definindo quem, o que e quais elementos partilham de um mesmo território. Mas, para além de todas as coordenadas abstratas, resta um jogo em aberto que se reconfigura a cada lance. O pensamento é feito de fios que ligam nada com nada, teias de relações puras que, no entanto, designam precisamente o que há de mais concreto: dispersões dadas ao acaso.

V. Vontade / Voz

A vontade é inevitável, e a voz é a passagem desnecessária do silêncio à fala. Isso significa que não há necessidade que justifique nossas vontades: podemos desejar qualquer coisa, assim como podemos falar de qualquer coisa. Podemos falar, inclusive, de uma vontade transformadora. Mas se não há, ontologicamente, nada a ser transformado, posto que tudo já está em transformação, tal vontade é, como todas os outras, excesso e abundância.

O reconhecimento dessa abundância é o que a voz pode expressar com maior contundência. Pois se nada há para ser transformado é porque a transformação é o que há de mais abundante, de modo que a vontade é necessariamente transformadora, ou não há vontade alguma. O que resta a ser dito, portanto, é a fortuna do mundo em suas múltiplas faces, que o expressam sem esgotá-lo, em detrimento da operação ilusória que recorta uma realidade como sendo a única possível.

A vontade humana é capaz de forjar lógicas transformadoras, de prever coisas, de sonhar, projetar e materializar mundos possíveis e impossíveis. No entanto, nem a vontade nem a ação humana são capazes de alterar as condições de uma existência abundante que se transforma ao acaso, isto é, sem a menor lógica ou necessidade.