Como eu escrevo?

*Entrevista publicada em Como eu escrevo?, de José Nunes, em 07/05/2018.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Encaro a rotina como uma necessidade fastidiosa, não como um luxo ou uma tendência natural. Pode parecer contraditório: não gosto de rotina, por isso me esforço em ter uma. É que não tem outro jeito, considero crucial manter uma vida regrada, organizada, com hora para dormir, acordar, almoçar etc. Só assim eu consigo mergulhar no meu trabalho. A rotina serve mais para garantir esse “mergulho”, que é imprescindível no que eu faço. Quando eu escrevo, pinto ou leciono, preciso estar totalmente imerso naquela situação, e detesto quando ela termina porque às vezes é difícil sair desse estado. Então, na verdade eu acabo transitando entre duas rotinas, ou ainda entre dois tempos distintos. Porque o trabalho criativo requer, de modo geral, o seu próprio tempo. Funciona como uma obsessão repetitiva e demanda certo esforço físico, por mais que eu trabalhe apenas com pincéis e com a ponta dos dedos. Meus ombros ficam tensos e minhas pálpebras tremem, porque eu forço muito a vista. Não dá para fazer isso o tempo todo, é preciso saber voltar ao fluxo ordinário do dia a dia. Por outro lado, essa distinção não é tão clara quanto pode parecer. Muitas vezes eu tenho que parar o que estou fazendo para anotar alguma ideia repentina, o que ocorre amiúde em almoços ou reuniões. Acho que quem gosta de escrever está o tempo todo escrevendo, nem que seja “mentalmente”. Talvez a rotina cotidiana seja o meio pelo qual o nosso impulso criativo consegue respirar. Sem rotina, a criatividade nos sufoca; mas sem esta, é a rotina que nos mata. Ou, como dizia Machado de Assis, “matamos o tempo, o tempo nos enterra”.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Infelizmente eu trabalho melhor à noite. Como minhas aulas são matutinas, é apenas no período de férias que eu consigo obter um desempenho criativo satisfatório. Mas estou aprendendo a ser menos exigente comigo mesmo, sobretudo porque, mesmo nas melhores circunstâncias, não há como evitar resultados ruins. Com efeito, a ideia de um “ritual” de escrita tem soado cada vez mais como um luxo fora do meu alcance. Mas vou tentar descrever o que me parece ser uma situação ideal. Antes de iniciar o trabalho, eu junto algumas anotações dispersas e as reescrevo em folhas sulfite, as quais são fixadas na parede. Isso porque eu não consigo começar nada “do zero”, sem ideias prévias. Em seguida, eu ando feito um louco pela sala, colhendo um punhado de livros. Com os livros espalhados em torno do computador, minha bagunça está formada e eu posso começar a escrever. Desse modo, a tarefa central consiste basicamente em conseguir tirar alguma ordem dessa desordem toda. O caos é importante para minha concentração. Minha mente está mergulhada naquela conjuntura, esparramada por cima da mesa, de modo que não dá para arrumar a sala até que eu finalize o trabalho. Perder qualquer coisa ali no meio seria como perder minha cabeça. Só não é pior que interromper o fluxo criativo, o que, no entanto, acontece com frequência. Nas raras vezes em que eu sigo do início ao fim, sem interrupções, eu acabo totalmente esgotado. Essa é a melhor sensação.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Não escrevo todos os dias (a não ser e-mails e coisas do tipo), mas basta uma semana para eu sentir “abstinência”. Logo, não penso em termos de “metas”, mas de “vício” mesmo, ao menos no sentido de que sua falta gera ansiedade, o que, por sua vez, só atrapalha a escrita. Quando estou ansioso (geralmente após passar muito tempo sem escrever), as palavras vêm todas emboladas, eu apresso os argumentos e produzo uma justaposição forçada de ideias. Quase o mesmo ocorre, diga-se de passagem, com a pintura e a docência. Então eu acabo lembrando que minha escrita é necessariamente lenta e minuciosa. Devo cultivar um mínimo de serenidade para fazer fluir as frases, principalmente em textos econômicos (os mais difíceis). Pois cada sentença deve ser esmiuçada e matizada até se integrar ao fio condutor, o qual só ganha corpo ao ser percorrido com muita clareza. Enfim, comigo funciona assim: mais importante que escrever todo dia é reservar periodicamente algum dia (ou noite) só para escrever.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Não acho difícil começar um texto, e sim finalizá-lo. Porque embora seja importante planejar a estrutura geral, para mim isso não garante muita coisa. O texto só se resolve no fluxo da escrita. Como eu disse, o meu processo depende de anotações prévias, o que pressupõe um exercício constante de leitura e pesquisa. Mas as anotações são sempre dispersas e fora de contexto, então o ponto de partida reside no seguinte conflito: minha vontade ou não de escrever sobre determinado tema versus a necessidade ou prazo que eu tenho para isso. Como equacionar essa questão? Primeiro eu “limpo a área” com um ataque ao próprio assunto, como se não valesse a pena ou fosse impossível escrever sobre ele. Isso me ajuda a levantar perguntas a serem respondidas. Em seguida, procuro resgatar tudo (tem que ser tudo mesmo) o que eu tenho lido e anotado ultimamente, organizando essas coisas em níveis de pertinência. Passo a traçar, a partir disso, pelo menos dois caminhos possíveis de argumentação, os quais muitas vezes se cruzam. Só assim eu tenho a segurança necessária para iniciar o texto. Mas a escrita em si não se resolve apenas com uma palavra depois da outra. Trata-se de um jogo de arranjar, rearranjar, costurar e “pincelar” o que se encontra disperso ao meu redor. Eu vou pincelando os argumentos até que eles se “armem”, no sentido de conseguirem se manter de pé. Nesse processo, não dá para deixar a revisão para o final. A cada parágrafo eu acabo mexendo no texto todo. A pior parte, que também é a melhor, reside nos últimos ajustes: toda minha atenção é redobrada para finalizar tudo. De um jeito ou de outro, terminar é preciso.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Escrever nunca foi fácil para mim, mas não por causa de travamento ou procrastinação. Veja, não há como fingir que a escrita não envolve repetição, desperdício, chatice e aquela sensação toda de estar perdendo tempo. Ontem eu passei três ou quatro horas numa biblioteca e comecei a ler outras coisas que não tinham nada a ver com o que eu estava procurando. Estou com um prazo apertado e perdi a manhã de ontem. Mas isso me ajuda a escrever, é como fazer alongamento antes de correr uma maratona. O fato é que, por mais óbvio ou clichê que isso pareça, não há uma forma ideal de escrever. O ideal é conhecer bem o seu processo particular. Eu posso passar uma manhã inteira vasculhando algo inútil na biblioteca, mas isso faz parte do modo como o meu pensamento se transforma em palavras. O mais difícil para mim, como eu dizia há pouco, é terminar o trabalho. Um professor meu falava: “não gosto de escrever, eu gosto de já ter escrito”. Eu digo o contrário: gosto só de escrever, e não de já ter escrito. Evito, por exemplo, reler textos que eu já publiquei, pois sobre eles eu já não tenho qualquer controle. E para conseguir desapegar de um texto recém terminado, minha estratégia imediata é começar outro. A ideia é seguir em frente sem remorso. Quanto aos projetos longos, no momento estou com dois livros inacabados, mas nenhum deles me tira o sono justamente porque ainda estou longe de terminá-los. Não obstante, retomar a escrita após uma pausa mais longa é uma boa maneira de “arejar” o texto: é como se eu nunca o tivesse escrito, algumas ideias vão se desmanchando enquanto outras ganham novas cores.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Honestamente eu nunca sinto que meus textos estão prontos. Não é falsa modéstia, é uma falha. Para atenuá-la, às vezes eu gosto de pensar que o texto possui vida própria e que eu apenas lhe indico um caminho possível. E que, no fim das contas, o que importa é que eu saia do seu caminho. Afinal, o que está em jogo não é o que eu escrevo, e sim o que vai ser lido. Quero dizer que uma revisão extenuante pode ser imprescindível, mas também pode estragar tudo. A revisão é importante para desatar construções emaranhadas e resolver pontas soltas, conferindo maior lucidez e precisão ao texto. Mas por vezes a clareza do que eu quero dizer se perde na medida em que o reescrevo. Por isso tenho o hábito de salvar várias versões de um mesmo texto: para recuperar uma frase ou outra que estava mais clara antes. Também por isso eu costumo solicitar, sempre que possível, a leitura de alguns amigos generosos. Nesse sentido, gosto daquele conselho de Neil Gaiman: “quando as pessoas dizem que algo está errado ou que não funciona para elas, estão quase sempre certas. Quando dizem exatamente o que você está fazendo de errado e como corrigir, estão quase sempre erradas”. Quem escreve o meu texto só sou eu, ao passo que são somente os outros que podem opinar sobre ele. É assim que funciona.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Acho que as duas coisas, mas na verdade eu não consigo definir o que seria exatamente um “rascunho”. Eu faço anotações nos livros, no celular, no verso de boletos bancários, no bloco de notas do computador etc. Coleciono um monte de coisas aparentemente inúteis, porque tudo pode ser matéria-prima um dia. E por incrível que pareça eu consigo manter essas coisas mais ou menos organizadas. Mas o esboço de um texto já precisa ser feito no Word, com Times New Roman tamanho 12 e entrelinha 1,5. Essa formatação mínima confere o distanciamento necessário para tornar a coisa mais “séria”, tanto quanto para despersonalizá-la: quando eu tenho que interromper a escrita, no dia seguinte eu imprimo o que escrevi, do jeito que estiver, e o releio como se fosse de outra pessoa. Com esse procedimento, geralmente eu desisto de um esboço para começar outro. Saber desistir é importante também. Mas note que nada é perdido, bem como nenhum esboço se inicia do ponto zero. O que eu escrevo está sendo reescrito o tempo todo.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Primeiramente, não faço cerimônia quanto ao termo “criativo”. Um trabalho criativo é apenas aquele que foi criado por alguém, e nada mais que isso. Para se manter criativo, portanto, basta cultivar o hábito de criar — o que, como se sabe, tende a ser um privilégio de poucos (não a criatividade, mas o tempo disponível para criar). Em segundo lugar, como designer eu aprendi que as ideias importam menos que o modo como as dispomos e expressamos. Por exemplo, quando Lourenço Mutarelli diz “Aquele que dança em sua própria casa atrai incêndios” (O Grifo de Abdera), a ideia em si nem faz muito sentido, só que o estilo é contundente. O texto precisa ter uma espécie de dicção que rege as ideias ao percorrê-las. Embora isso só venha com um bom hábito de leitura, o estilo que assim se constrói nunca é deliberado. Não penso: “vejamos, qual será minha voz para este artigo?” Na escrita acadêmica, pelo menos, não sei como adotar outra voz que não a minha, porque se trata apenas de explicar o que estou querendo dizer. E para mim é muito difícil ser claro, eu sempre acho que as coisas devem ser viradas de ponta-cabeça para que eu possa explicá-las — eis o meu modo de pensar, essa é minha voz.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de sua tese?

Em termos práticos, não mudou muita coisa: continuo com minhas dificuldades, meus vícios e virtudes. Escrever é difícil porque não se trata simplesmente de sentar, escrever e salvar o arquivo. O ato da escrita é só um alívio, digamos assim, de uma incessante obsessão por leitura, que por sua vez é a obsessão de entender como os outros escrevem — e assim por diante: pintar é a obsessão de perceber como os outros enxergam, ensinar é a obsessão de aprender como os outros pensam etc. Parece que, ao longo do tempo, isso só se agrava. Mas o tempo serviu para eu ter maior consciência de meu próprio processo de trabalho. Minha tese de doutorado foi importante para isso: com ela eu estabeleci uma base de pensamento. Eu não saí do doutorado pensando: “ufa, agora eu posso finalmente encerrar este assunto”. De certo modo, nunca o encerrei. Então não consigo pensar o que eu diria a mim mesmo se eu pudesse voltar àquele momento. Talvez seria: “não pense que você vai conseguir terminar isso um dia. Felizmente, isso não termina”.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Como tenho certa inaptidão em terminar as coisas, sou igualmente incapaz de pensar naquilo que eu ainda nem comecei. E é incrível como, ainda assim, essa coisa de começar de novo não acaba nunca também. No fundo eu sinto que estou sempre trabalhando com a mesma coisa, e isso me tranquiliza. Assim, não me interessa muito imaginar livros que não existem (eu mal conheço os que já existem). Já li em algum lugar algo do tipo: “a escrita é o desejo por um texto inexistente”. Acho curioso que até isso já foi escrito. Enfim, não sei pensar no que não existe, no que eu poderia fazer um dia, no que ainda pode haver de inédito e original. As palavras existem, os textos e as vozes estão aí, os leitores e escritores são incontáveis. É divertido porque somos muitos e muitas.