‘Consciência pesada’, nº 1
Dr. Artur é um advogado criminalista que pega todo tipo de causa. Escrevo suas histórias no ônibus, no metrô, na fila do banco, sem pensar muito; Dr. Artur é a personificação dos meus brainstorms. Sei como começa e sei como termina a sua história. E o fim é feio.
(1)
— Meus honorários são de 80 mil reais — o cliente franziu a testa, como todos os outros — Você me paga 30 mil agora, ou em até três dias, e o resto quando sair a sentença. Se precisarmos recorrer, serão mais 100 mil reais. OK?
— Tudo bem, doutor.
— Ótimo. Minha secretária vai elaborar o contrato. Agora, preciso te fazer uma pergunta delicada, mas é a minha praxe. Para eu saber qual a linha de defesa que preciso seguir. OK?
— Tudo bem.
— Você estuprou ou não estuprou a menina?
O cliente sequer precisa responder à pergunta, porque eu já sei a resposta. Desenvolvi uma capacidade de leitura corporal com índice de acertos próximo dos 90%. Os inocentes geralmente respondem de imediato, respostas temperadas com raiva e lágrimas. Os inocentes quase sempre choravam, nem que fosse uma pequena lágrima no canto do olho, ou apenas a voz embargada. Choravam por causa do preço dos honorários, choravam por causa da injustiça. Choravam de medo de virarem boneca na cadeia.
Os culpados, entretanto, demoravam um pouco a responder. Remexiam-se na cadeira, coçavam a barba, respiravam fundo. Às vezes mentiam, mas, a longo prazo, sempre revelavam a verdade. Uma coisa interessante dos culpados: eles nunca choravam.
— Depende do que o senhor entende por estupro — foi a resposta.
Eu tenho 33 anos, uma filha de 8 e uma ex-esposa que resolveu ir embora sob o argumento de que eu “trabalhava demais”. Eu amava a Laura, mas o que me deixou mais puto foi ela levar a Beatriz embora. Parece clichê, mas junto ela levou toda a alegria da minha vida, as únicas gotas de inocência e pureza do meu copo.
Meu copo vive cheio de crime e sangue. Na faculdade de Direito eu sempre gostei da parte criminal. Quando me formei, não queria ser empregado de ninguém, mas trabalhei dois anos no Braga & Amorim Advogados, um escritório de advocacia criminal no Centro. Tradicional, mas falido. Não sei como aguentei dois anos por lá, mas foi o suficiente para fazer um pé-de-meia e abrir meu escritório. Logo depois disso a Laura despirocou, disse que eu estava maluco de sair de lá e ir trabalhar sozinho, que íamos falir. Disse que eu passava mais tempo no Fórum do que em casa, juntou as coisas e levou a Bia embora.
A Laura não aceitava muito bem minha profissão, falava que eu ficava defendendo bandido, assassino, estuprador. Eu nunca tive a consciência pesada com isso. Acho que todos esses caras precisam de alguém para os defender, e eu percebi que na advocacia criminal os mais fodidos sempre dão um jeito de pagar os honorários, por mais altos que sejam. Os inocentes costumam chorar um desconto.
Os inocentes sempre choram.
Meu escritório fica no Centro, algumas ruas atrás do Braga & Amorim, mas não é tão grande quanto o deles. Tenho uma recepção, onde fica a Rita, minha secretária, uma sala para chamar de minha, um banheiro e uma outra sala que eu convencionei chamar de “sala de reunião”, para dar um ar mais bem-sucedido. Falando nisso, felizmente eu sou bom no que faço; posso não ter um escritório do tamanho do Braga, mas resolvo minhas causas, pago minhas contas e não passo fome.
Mas é foda. Queria mais do que isso: queria ter um escritório do tamanho do escritório do Braga, ter quinze advogados trabalhando por mim, ter uma vista foda da Praia do Flamengo. Os clientes se amarram. Queria ter um carro melhor.
Se eu tivesse quinze advogados trabalhando para mim eu teria tempo de visitar mais a Bia. Quem sabe até resolver as coisas com a Laura.
Engraçado como eu consigo convencer um júri de que um policial que foi filmado matando um moleque por puro lazer é inocente, mas não consigo convencer a Laura a voltar pra mim.
O cliente aparenta ter uns 30 anos, disse que trabalha como açougueiro em um mercado da Zona Norte. Foi acusado de estuprar a vizinha, uma jovem provocante de 16 anos. Ele não aparenta ter 80 mil reais, muito menos 30 mil para pagar em três dias, muito menos meios de conseguir 30 mil reais em três dias, mas isso já é problema dele. Os prazos do processo estão correndo, e eu só vou começar a trabalhar quando ele me pagar.
Engraçado como eu não conseguiria prever como esse filho da puta ia conseguir o dinheiro.