Conto sem título

Bom, as narinas dele já estavam dormentes e seus dedos haviam dado um nó. Sentado sobre aquela cadeira de praia ao lado do isopor onde o vendedor guarda suas bebidas. Usando aquele terno por motivo algum, já que não é executivo nem nada do tipo. É um bom terno, porém. Ele gosta do preto-e-branco. Ele está em seu próprio mundo em tons de cinza: O cinza do asfalto é mais escuro, próximo do preto; o dos prédios é aquele cinza-concreto, mas as fissuras nos prédios são pretas; as pessoas, os carros, as lanchonetes fast food, um mar de cores em preto-e-branco. É tudo mais bonito assim. Por isso escrevo em preto-e-branco.
É sem dúvida um bom lugar, esse centro. Essa Presidente Vargas é uma boa avenida mesmo. Quatro longas pistas, muitos carros. Muitas pessoas e muita pressa nas calçadas. Fazem obras num trecho da calçada da direita. Seis homens e uma escavadeira. Capacetes e óculos escuros. Uniformes de obra. Mexem com uma mulher loira que passa por eles. Você pode dizer que ela é loira porque seu cabelo é cinza-claro. Você pode supor que sua camisa é vermelha pelo seu cinza-escuro. Sua saia justa é preta, mas sua pele é branca, muito branca, branquíssima. Passa por uma banca de jornal. O jornaleiro acompanha o balanço dos quadris dela passando em frente à sua banca. Então volta a enxotar um mendigo chato que entrou em seu apertado estabelecimento. O mendigo pega um maço de cigarros e sai andando, e o jornaleiro vai atrás dele, gritando, xingando. Uma BMW passa. Algum ricaço vindo da Zona Sul. Talvez alguém da Globo. Não é a Paola Oliveira no banco de trás? O ônibus para. O cadeirante vai subir. O motorista teve que descer para ajudar o cadeirante a subir. Aciona o elevador que vai fazer o cadeirante subir. O elevador quebra, o cadeirante cai em cima do motorista. Tudo isso em preto-e-branco.
Em preto-e-branco ele vê sua tela à sua frente. Em preto-e-branco, seu cavalete. Em preto-e-branco, o branco na tela onde devia repousar algo, algo abstrato, qualquer coisa que tentasse ser concreta sem sê-lo; qualquer representação do mundo real, qualquer cena trazida dum sonho, qualquer coisa, algo. Nada. Por quê? É difícil ser artista. As pessoas não entendem. Nem você entende. O artista é complicado. É difícil fazer arte. Ele sabe bem disso.
Em preto-e-branco, ele levanta a cabeça e vê, em preto-e-branco, a janela do vigésimo-segundo andar — ele contou várias vezes, sem ter um porquê. Ela usa uma gravata-borboleta e um chapéu panamá. Ninguém se veste assim. Ela fuma à janela do vigésimo-segundo andar, fuma feito alguém que não tem nada a perder, nenhum câncer a temer, fuma enquanto olha pra tudo e pra lugar nenhum, fuma acima de todos, e as cinzas minúsculas do seu cigarro caem feito flocos de neve que ninguém pode enxergar.
Então ele a pinta. Sim, ele a pinta. Pois é uma necessidade pintá-la; pois ele não conseguiria viver se não a pintasse — provavelmente adoeceria e morreria de vaziez. E o pincel dança sobre a tela, e magicamente ela aparece aos poucos onde antes nada havia.
E foi assim que a semana passou, ela inalcançável, como uma princesa na torre, sempre fumando na janela do vigésimo-segundo andar das 13h15 às 13h25, às vezes 13h30; sua ninfa, sua musa fumante, de um charme decadente irresistível — assim como esta cidade -, de uma falsa esperteza maltrapilha de alguém que ficou velha antes do esperado, uma jovem entre jovens, furiosa em seu tédio e total falta de perspectiva aos 23 anos; uma hipster. Uma musa.
Ela olha para baixo — não me perguntem por quê. Ela vê ele, e ela vê que ele a vê, e ele a pinta; e isso a aquece. De algum modo, isso faz com que ela não se sinta mais tão só. E ela não se sente tão banal. E ela gosta da atenção que recebe; gosta da devoção que enxerga — no alto de seu vigésimo-segundo andar — nos olhos do rapaz, escondidos atrás das lentes negras de seu óculos escuros, apoiado despreocupadamente sobre seu nariz fino e caucasiano. Ela gosta de posar. E ela está sozinha. As poucas pessoas no escritório às 13h17 estão aproveitando o horário de pouco movimento para acessar seus próprios universos particulares de pornografia virtual. Esta tarde ela usa uma regata preta, seus braços finos e brancos à mostra. Você pode se perder seguindo a linha de seus braços, a suave curva que fazem na divisão entre antebraço e braço; a sua axila lisa; sua pele, uma pele tão suave, tão perfeita em suas linhas que deságuam numa mão e em cinco dedos esguios, com unhas grandes. Nunca falei de seu rosto. Não sou bom com descrições. Mas seu rosto é lindo. Ela tem olhos azuis e cabelos castanhos, nariz delicado e pequeno, cílios longos, lábios rosados, um rosa tão suave e ainda assim tão marcante. Ela parece ter saído de um comercial de sabonete. Essa é a melhor descrição que posso fazer dela.
Ela olha diretamente para o seu pintor — sim, seu, e apenas seu. Tira a regata preta de uma vez só. Sua barriga lisa à mostra, a calça abaixo da linha da cintura, seus quadris pontudos. Abre o fecho do seu sutiã preto rendado e o tira. Seios não muito grandes, seios que se sustentam, seios que apontam para a frente, mamilos rosados. Ela pousa o braço sobre o parapeito, e descansa a cabeça sobre a mão enquanto olha pra lugar nenhum, numa pose calculada.
E ele a pinta. A ninfa. A musa. A ideia. A perfeição.
É uma boa avenida, essa Presidente Vargas. Quatro longas pistas que se estendem feito tiras reluzentes de piche. Bom, ele está olhando para baixo, sentado na sua cadeira de praia, ao lado do isopor cheio de bebidas do vendedor, coluna torta inclinada para a frente, pose de derrotado. Nenhuma ninfa na janela do mítico vigésimo-segundo andar. Faz um tempo. Um artista sem musa não é capaz de artistar. Então essa pequena criatura brilhante, branca de olhos azuis, com seus cabelos castanhos quase negros contrastando com sua pele, em frente a ele. Um sorriso, um olhar sincero de quem espera aprovação, de quem espera que suas expectativas sejam cumpridas e este momento angustiante de entrega e insegurança passe logo. Levanta a cabeça. Rápido olhar que ele lança para ela. Desinteresse, voltemos ao chão. Um rosto talvez familiar, talvez uma conhecida, não importa. Não vale a pena tentar reconhecer esse rosto. Volte quando tiver um vigésimo-segundo andar, por favor. Mas eis que algo o chama. Só um rosto no banco de trás de um táxi, táxi sem foco. Única coisa com foco é o rosto dela, loira (você pode dizer que ela é loira pelo cinza-claro de seu cabelo), se escondendo atrás dos grandes óculos escuros. Ele se levanta, empurra a dama branca para o lado. Seu corpo se inclina em direção à musa ideal, ao táxi inalcançável.

Inalcançável.