Sobre viver (e desistir)
Das coisas que eu sou bom nessa vida — Acredite, não são muitas — a habilidade de saber exatamente a hora de desistir é uma das que mais se sobressaem. Eu sempre fico imaginando como um lutador sabe a hora exata de bater na lona, admitindo que não existe mais chance de vitória. Todo o processo de preparação, treinamento e esforço indo embora em questão de segundos, quando já não existe mais nenhuma chance de reverter a situação. Ter noção de que o seu tempo ali acabou e nada mais pode ser feito já faz parte da minha personalidade. Sou profissional em desistir.
Durante a caminhada que eu chamo de vida, foram vários os momentos em que eu precisei desapegar de um objetivo. Na infância, quando decidi me aventurar como um potencial jogador de futebol, não demorou muito para perceber que eu não havia nascido com o dom tão característico dos jovens brasileiros. Pensando melhor agora, isso nunca me deixou desapontado de verdade. O processo de aceitação de que você não nasceu para ser aquilo tudo que deseja te ajuda a amadurecer e prepara para situações mais complicadas no futuro. Talvez eu não soubesse lidar tão bem com as derrotas hoje em dia se não fosse por esses pequenos momentos do passado.
A verdade é que eu me sinto confortável desistindo. Inclusive, eu já começo a fazer algo imaginando quando será o momento em que eu irei desistir; pode ser uma série, uma conversa, um projeto profissional ou um relacionamento. Não tem erro: eu vou desistir e isso é uma certeza. Só de imaginar quanto tempo eu precisaria gastar me empenhando em um objetivo sem futuro já me deixa agoniado. O desgaste me deixa ansioso e ficar ansioso não me deixa controlar o meu próprio destino. E disso, meus amigos, eu realmente não estou em condições de abrir mão.
De qualquer forma, eu não espero que esse texto funcione como uma apologia à ideia de desistir. Muito pelo contrário. Quase todas as frustrações da minha vida foram causadas pela total falta de capacidade de lutar pelo que eu acreditava. Não me considero um covarde por desistir, mas certamente por não ter me esforçado mais. Ter como uma das principais qualidades a sabedoria de parar nos momentos certos não me transforma em uma pessoa melhor, apenas evita possíveis descontentamentos ao longo dessa caminhada. É só uma vitória insignificante para um ser humano insignificante como eu, daquelas que a gente nem tem vontade de comemorar.
Ás vezes eu penso como a minha vida poderia ser diferente se eu mudasse de atitude. Logo depois, eu desisto de pensar.
