O mar de lama com cheiro de golpe que se chama Brasil

A nossa democracia é jovem, uma criança, me arrisco a dizer que é um bebê. Em 128 anos de República, o Brasil teve 36 governantes e apenas 12 foram eleitos diretamente e terminaram o mandato. De 1926 pra cá, a proporção é ainda mais absurda: dentre 25 presidentes, apenas 5 foram eleitos pelo voto popular e permaneceram no posto até o fim: Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Lula, FHC e o primeiro mandato da Dilma.

Com certeza o golpe mais conhecido é o civil-militar de 1964, que depôs o nosso ilustre João Goulart.

Isso por si só já mostra o quanto nossa democracia é frágil, e não poderia ser diferente. Ora, como poderemos ter uma democracia sólida se a nossa república nasceu de um golpe? Aliás, golpe é algo até comum no nosso país, ditadura de Vargas, ditadura civil-militar e para alguns (incluindo a mim), este ano.

Voltamos ao ano de 2010, o Brasil se surpreende com a candidatura de Tiririca, em sua campanha ele fala: “O que faz um deputado? Na realidade, eu não sei, mas vote em mim que eu te conto”, hoje ele sabe: “é alguém que trabalha muito e produz muito pouco”.

É estranho eu falar do Tiririca, mas é pra mostrar que ele virou o ícone da descrença da população na política. Isso é tão evidente que nas eleições de 2014, o “ninguém” (soma de votos brancos, nulos ou ausentes) tiveram mais voto que o Aécio no primeiro turno. Em que eleição o “ninguém” é segundo colocado? Isso mostra a descrença do povo na política brasileira. Mas o problema está no sistema de votação? A forma como os poderes são organizados é tão ruim assim?

Comparado aos outros países emergentes, até que não. Nossas eleições são livres. Nosso sistema de votação eletrônica é referência mundial. A imprensa é independente (às vezes até demais) e temos três poderes bem divididos e equilibrados. Ok, um presidente tem poder de administrar um orçamento gigantesco e criar medidas provisórias com valor de lei, mas não consegue frear 513 deputados e 81 senadores, sem a maioria deles não se consegue fazer nada. No papel é tudo lindo, porém a gente sabe que não é bem assim que funciona. Então qual é o problema de tudo?

Uns podem dizer que é a máquina pública como um todo, outros vão dizer que são os políticos corruptos e obviamente, vocês estão certos. Mas tudo isso pode se resumir em apenas um recurso: Pessoas. Sim, as pessoas são o problema de tudo, como diria o Leandro Karnal:

“Não existe governo corrupto e população honesta.”

Antes que pensem que esse é apenas mais um discurso do tipo “você não pode falar de corrupção porque você fura fila”, o buraco é bem mais embaixo. A corrupção nada mais é do que “O bom negócio para o qual não me convidaram”, não é necessário dar exemplos porque com certeza vocês já pensaram em alguns. Basicamente depois das eleições damos carta branca pros parlamentares, eles passam a fazer o que quiserem sem que ninguém os cobre, até porque boa parte deles veio arrastada pelo pela legenda, portanto não tem ninguém que os cobre.

Hoje em dia se você tem um amigo talentoso, por mais que ele saiba tudo sobre direito constitucional e economia, dificilmente ele vai querer ser político. Porque a política brasileira é frustrante, pra chegar ao poder você precisa passar pelo mar de lama das campanhas eleitorais e depois dele você ainda precisa enfrentar uma série de parlamentares que tem todos os motivos do mundo pra estarem lá, menos a preocupação com o bem comum. E qual o maior símbolo da negociata na política brasileira? O novo Centrão.

A tua piscina está cheia de ratos…

O Centrão surgiu nos debates para a constituinte de 1988 em que as lideranças dos partidos conservadores apoiaram o então presidente José Sarney em troca de apoios e cargos, portanto, toda vez que isso acontece na política brasileira, o termo ressurge. Hoje o novo Centrão é composto por 13 partidos de centro-direita que conta atualmente com cerca de 270 deputados, o suficiente para aprovar projetos simples e perto dos três quintos (308) para aprovar os projetos mais polêmicos. Podemos dizer que todas as letras que sem o Centrão você não consegue aprovar nada no congresso, e sabe em cima de quem tal grupo foi construído?

A serenidade no olhar de quem tem conta na Suíça.

Apesar do Centrão obviamente não ter sido criação dele, nos últimos anos ele foi crucial para que os projetos de lei fossem votados, principalmente depois que ele virou presidente da câmara. Ele é parte da tríade que blindava a Dilma antes de todo esse processo (Cunha, Temer e Renan Calheiros), porém os atritos dele com a presidente afastada fizeram com que o Centrão se virasse contra a Dilma, e o resultado disso nós estamos vendo hoje. Se lembram do que falei lá em cima sobre ter que se misturar no mar de lama? É exatamente isso que acontece com qualquer partido que chegue ao poder e boa parte disso se deve a esse grupo. Qual o objetivo deles? Encher o próprio bolso, sustentados pelas mesmas pessoas que eles dizem representar.

“Não vai deixar seu pivete ao léu na mão de um cara pálida de topete e gel.”

E a pior parte ainda está por vir, com esse impeachment concretizado, vai abrir brechas para que outros processos parecidos possam vir no futuro. A senadora Ana Amélia adora falar que ninguém está acima da lei, mas ela está do lado de senadores como Ronaldo Caiado, José Agripino e Zezé Perrella. Então, será que realmente ninguém está acima? Eu melhoraria a frase dizendo: Ninguém que não siga as nossas vontades está acima da lei.

Apesar da grande quantidade de corruptos, apesar de todas as negociatas e golpes, apesar de toda a crise de representatividade, peço a vocês que não desistam da política, porque isso é tudo que eles querem.

“Quem não gosta de política está condenado a ser governado por aqueles que gostam.”
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