Hemingway à deriva

Há dois ou três anos recebi um texto jornalístico colocando em cheque a sexualidade de Ernest Hemingway; de um Hemingway que se tornou uma espécie de protótipo heteronormativo para o americano médio imediatamente anterior aos flexíveis anos sessenta. Acompanhando os primeiros rumores, foi publicada pela Knopf uma biografia afirmando que Hemingway era claramente queer — para todos os efeitos, sexualmente excêntrico, ambíguo. Indo além, a biógrafa indica que um dos motivos que levaram Hemingway ao suicídio foi exatamente a indefinição sexual. Não pretendo criticar argumentos apresentados por um livro que eu não examinei. O que estará em jogo, aqui, aflorado subjetivamente pela desconfiança suscitada, é a relação entre virilidade e sensibilidade que parece envolver a obra do autor.
Vale ressaltar o aparato mobilizado na interseção histórico-simbólica: correspondente de guerra, motorista voluntário de ambulâncias na Guerra Civil Espanhola, ferido em combate; escreve romances magistrais sobre suas experiências militares e denuncia — em uma linguagem direta, seca e eventualmente agressiva — todo o seu desengano relativo às reproduções, estratificações e convenções sociais, levadas a cabo, sobretudo no início do século XX, a partir de conflitos armados. Na escrita, Hemingway parece estar à vontade apenas entre touradas e caçadas; mesmo os affairs narrados em títulos como Adeus às armas são desconfortáveis e talvez um pouco reticentes; vale lembrar que, em O Sol também se levanta, Hemingway descarta o protagonista para o sexo afirmando-o impotente.
Via de regra, o que está quase sempre bem marcado é a solidão psicológica do personagem, que chega ao ápice em O velho e o Mar. O pescador Santiago, um dos melhores personagens da literatura mundial, panemado, sai em sua canoa e, após dias lutando com um peixe em alto mar, captura o marlim. No retorno, o peixe é atacado por tubarões. Santiago retorna para casa apenas com um esqueleto gigantesco fortemente amarrado à canoa. O velho pescador oscila constantemente entre dois rivais: primeiro, está em luta contra a própria queda, contra a fraqueza, contra a solidão que lhe consome a alma; depois, contra o peixe, que representa um tipo de redenção aparentemente possível apenas via sacrifício. Antropologicamente falando, Santiago vive, no mar, um período liminar. É rejeitado pelos demais pescadores, sai sozinho, morre estruturalmente para o grupo. Durante a separação, enfrenta um inimigo terrível e vence. Retorna assumindo um novo papel social e é novamente aceito pela comunidade.
Revenons à nos moutons, a tipificação de Hemingway como um ‘supermacho’, a frieza de sua escrita e a virilidade dos seus temas deixam à deriva toda a sensibilidade de seus personagens que, arrisco, é essencialmente a mesma sensibilidade de um Hemingway que se escondia sob o estereótipo. Imagino Hemingway como leio Santiago: um indivíduo liminar, consumido e desencaixado, que apostou em um modelo, em uma tipificação, que construiu uma reputação não necessariamente fiel ao íntimo. No fundo, Hemingway representava, ele próprio, um desconfortável papel social que inibia uma personalidade extremamente sensível. Novamente, não me refiro à sexualidade do autor; penso, neste momento, sobretudo em sua morte. Há, afinal, hombridade maior e mais sensível do que estourar os próprios miolos?
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Reitero: o pescador Santiago é um dos melhores personagens da literatura mundial. Está no mesmo patamar de um Alonso Quijano, de um Raskolnikóv. Leia se possível O velho e o Mar no original. Ou então, na antiga tradução para o português de Jorge de Sena. Mas tenha em mente que o original e a tradução são livros consideravelmente distintos…
