"Norwegian Wood" não é um bom presente…

Marcos Milner
Nov 6 · 3 min read
MURAKAMI, H. Norwegian Wood. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

Durante a minha última estadia em São Paulo, estive naquela grande Livraria Cultura perto da Avenida Paulista. Eu estava acompanhado por uma pessoa muito querida e pensei em registrar momento e afeto presenteando-a com um livro. Não qualquer livro retirado ao acaso de uma prateleira ou pensado no calor do momento, mas um romance específico que imediatamente me veio à cabeça quando ela me recebeu em sua casa alguns dias antes. Eu queria oferecê-la um exemplar de Norwegian Wood.

Norwegian Wood (1987) se mantém até hoje, estatisticamente, como maior best seller japonês. Vendeu quase quatro milhões de cópias e transformou o seu autor, Haruki Murakami, em um estrondoso sucesso mundial. Foi só então que se tornou um clichê comum na imprensa especializada indicar que, "mais do que leitores, Murakami acumula seguidores" — entre eles, este que vos escreve. Sobre o enredo em si, grosso modo, nada de novo: um romance de formação acompanhando a trajetória de Toru, um universitário que se apaixona pela ex-namorada psicologicamente afetada de um amigo que, anos antes, cometera suicídio. Um adendo particular: considero Norwegian Wood um dos livros menos pretensiosos que eu já li.

E então eu estava lá, parado entre as estantes, com o exemplar nas mãos. Um livro que eu pretendia dividir com uma pessoa querida, uma história que precisava se tornar também um pouco dela. Foi quando eu percebi que simplesmente não conseguiria compartilhá-lo. Por quê? Em primeiro lugar, Norwegian Wood não é, evidentemente, um romance leve. É delicado e bonito, mas dolorido e triste. É triste porque durante a leitura percebemos, no que diz respeito ao amor, que a manutenção de um vínculo não é uma escolha unilateral. E é dolorido porque o esgarçamento desse vínculo não é necessariamente um processo mútuo, ele afeta diferentemente as humanidades envolvidas, quase sempre em prejuízo maior de uma das partes.

O que sobra, afinal, de Kizuki, o namorado suicida, em Naoko? O que permanece de Naoko em Toru? Lembranças esfumaçadas, pequenos refúgios de memória. Corroídos pelo passar do tempo, sim. Mas sempre doloridas. Permanentemente doloridas. O fato é que eu não consegui oferecer o livro porque Norwegian Wood é um romance muito pessoal. E alguns dias antes, como disse, reconheci em nós o mesmo relacionamento efêmero que se transforma, para um dos envolvidos, em uma tristeza tão duradoura que sobrevive às lembranças.

Percebo agora que tê-lo deixado na loja foi uma questão de sobrevivência. Era uma tentativa de recusá-lo, de não associá-lo a uma outra história que, no fundo, eu sabia condenada. Deixá-lo parado na prateleira foi tentativa débil de resistir ao previsível fluxo de acontecimentos que muito em breve eu encararia. Não se deixar contaminar pelo romance é uma estratégia de sobrevivência.

Norwegian Wood bate forte na boca do estômago. Leia-o quieto e prevenido. Não recomende-o. Não ofereça-o de presente.

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