a mulher gauche não é um clichê literário. ela existe, contra todas as expectativas, contra a vontade poética. maltratada, subjugada, não tem o direito de sofrer, precisa sorrir, deve parir. jamais será poeta, ela é louca drogada e puta. não tem fetiche que a conceba no mundo, pertence ao subsolo. será para sempre engrenagem da grande máquina, hospedeira de parasita. engolirá o choro. triturada e invisível, essa mulher contempla suas leituras. não é capaz de escrever, nunca teve as mãos firmes para segurar a caneta e nem voz para gritar por socorro. suas tentativas inseguras de se mover causaram terremotos na dignidade alheia. ninguém a olha nos olhos, a desprezam por pena e a afastam com medo. ela resiste soterrada, como as que vieram antes e as que virão depois, solitária e definida.