18 anos e copos sempre meio cheios

Marcos Pacanaro
Aug 9, 2017 · 6 min read

Neste mundo, existem pessoas ingênuas. Simultaneamente, existem algumas pessoas que, por grandes traumas e longas vivências, deixaram de lado tudo aquilo que lhes fazia acreditar que ainda possa existir quem seja, simplesmente, de coração bondoso. Catharina Bellini Sinefontti passou por situações em que facilmente poderia ter perdido a fé de que alguém pudesse ajudá-la, mas, em todos os momentos, ela — e alguns amigos, provaram que as coisas podem não estar tão ruins quanto aparentam.

Com um passado que não causa inveja em ninguém, dono de vários conflitos familiares, a modelo paulistana é hoje um reflexo de todas as coisas que passou, sentiu, pensou, fez e presenciou. Por exemplo: a grande naturalidade e a aceitação que tem com o próprio corpo, hoje, podem ser frutos de algumas críticas que recebeu em momentos diferentes de sua carreira e de sua vida.

Deixando pra depois os ossos do ofício, durante os 12 meses em que passou na Ásia, mesmo com muitos passatempos, alguns dos mais desagradáveis e desesperadores, Catharina conseguiu encontrar seu jeito particular de lidar com cada um deles e manter o foco em algo que era um passo grande e importante para sua carreira.

De São Paulo a Joanesburgo, de Joanesburgo para Hong Kong e de Hong Kong para Taipé, ela diz: “Cheguei lá e já me fodi. Eu peguei o voo na sexta-feira, às seis da tarde. Cheguei ao aeroporto no Domingo, às nove da noite. E eles se esqueceram de me buscar”. Simples assim: sua jornada começou com essa falha na memória do seu booker, o profissional que contrata as modelos, que fez com que a jovem, de até então, 18 anos, rodasse todo o aeroporto procurando por alguém que deveria estar segurando uma placa com seu nome próximo à área de desembarque. Sem saber falar uma palavra em inglês, conseguiu retomar seu curso de viagem após conversas gesticuladas e mal explicadas com a companhia que a levaria até o destino e com a atendente do balcão de informações, tudo graças ao contrato que tinha em mãos.

Chegando em Taipé, ao norte da ilha de Taiwan, sustentada apenas com uma mesada de aproximadamente cem dólares por semana, Catharina buscava fazer o maior número de trabalhos possíveis, como castings e fotos para revistas de moda, que são muito populares em toda a Ásia devido à grande demanda de clientes.

Quando o ritmo e propostas de contratações diminuíram, a agência reduziu sua mesada pela metade, tornando a sobrevivência ainda mais difícil. Literalmente vendida para outra agência na China, onde poderia conseguir mais trabalhos, mudou-se sem tempo de se despedir dos modelos com quem exerceu a profissão e, então, passou dois meses em uma vida dupla: modelo e bartender. Uma alimentação à base de KFC, noites pouco dormidas e algumas camadas de maquiagens sobrepostas a outras foram episódios comuns durante essa época.

“Quantas vezes eu não chegava em casa meia hora antes de o carro vir me buscar para a sessão de fotos e dormia dez minutos, sem tirar o salto?”. Por passar por situações como essa frequentemente, Catharina encontrava-se em um momento que não se encaixava em nenhum dos perfis requisitados pelas agências na época, fazendo com que suas contratações diminuíssem ainda mais.

Quando foi para Seoul, na Coreia do Sul, mandada por sua agência, buscando ainda mais o que fazer, ela mostra o lado positivo e o negativo dizendo: “É incrível. Eu moraria lá! Não existe pobreza. Você não vê pobre”. Quando perguntado sobre como foi para sua carreira, afirma: “Fiquei três meses lá e peguei dois trabalhos, como catálogos e revistas, sempre ligado a roupas. Na Ásia, é sempre catálogo, catálogo, catálogo. Tinha modelo que passava um ano na China, voltava para o Brasil e comprava um apartamento, fazendo cinco trabalhos por dia”. Por causa dessa falta de oportunidades, sua agência decidiu que ela deveria voltar ao Brasil, deduzindo que ela estava perdendo o foco.

O voo para casa estava marcado em data e hora, mas ela quis seguir o coração, agora apaixonado por um brasileiro que também era modelo. Mostrando a atitude sempre desafiadora e rebelde, Catharina simplesmente “perdeu” a hora por causa do rapaz. Dando a desculpa de que não ouviu o despertador pela manhã, ela foi mandada para a China mais uma vez, onde, por causa do festival de skate e esportes radicais X-Games, ela não poderia tirar visto para três meses de estadia, como planejado, e sim para apenas para um mês. Como isso seria um empecilho, foi obrigada a ficar mais trinta dias em Seoul, sem mesada, dependendo da ajuda financeira dos amigos para absolutamente tudo.

Sem dinheiro e com o coração partido, já que nada havia tomado proporções concretas, Catharina agora partia para a China, mais especificamente para a mesma cidade em que havia começado sua vida dupla, Guangzhou, logo após seu aniversário de 19 anos, onde finalmente conseguiu manter o foco na carreira. Emagreceu, estava conseguindo mais contratos, deixando todas as festas para os finais de semana, assim como todos seus colegas. Tendo mantido essa vida durante cinco meses, era hora de voltar para casa.

Novamente, com voo agendado, Catharina deveria partir de Guangzhou às seis da tarde, de ônibus ou trem bala, com destino a Hong Kong. Por mais uma falha de seus agentes, ela chegou ao terminal no mesmo horário em que o último ônibus havia partido, ou seja, não conseguiu mais uma vez. As coisas simplesmente aconteciam rápido demais e, dessa vez, ela apelou à mãe, que mora no bairro da Vila Diva, próximo ao Tatuapé, no melhor estilo “venha me buscar”. Como não era possível, ela contatou a agência, explicou o que aconteceu e a resposta, pelo telefone, foi algo que ela não queria ouvir. Resumidamente, “você fez tanta merda que nós não vamos mais te ajudar”.

Voltando a contatar a mãe, havia desespero dos dois lados da ligação. Juntando dinheiro com a ajuda de uma das tias de Catharina, foi possível reagendar o voo para o Brasil após um mês de espera. “Por sorte, foi na época do ano novo chinês. Parecia que ninguém trabalhava. Dependi bastante dos meus amigos e mal parava em casa”, diz ela. No fim, no último mês, algumas coisas melhoraram em relação às contratações que conseguiu.

E, só então, voltou ao Brasil. Fim da jornada. Ou quase, se suas malas não tivessem sido extraviadas ao chegar ao aeroporto de Guarulhos.

Hoje, com 22 anos, mantém a vida dupla, na frente e atrás das câmeras. Trabalha como fotógrafa em um estúdio no bairro do Tatuapé e é modelo de projetos próprios, projetos alheios, catálogos e revistas. Alguns de seus ensaios ganharam visibilidade e popularidade por consistirem em nu artístico, o que hoje tem sido veiculado com mais frequência, especialmente graças à internet. Quando Catharina diz “pra mim, nu não é sexy. É tudo sobre o corpo, entendeu? É natural”, ela defende seu ponto de vista de que não deveria existir padrão de beleza e que todos podem (e devem) aceitar seus corpos como são.

Culpando a mídia, com foco nas revistas eróticas masculinas, como a Playboy, que cria uma mulher sem defeitos e imperfeições físicas com um processo de edição severo nas fotografias selecionadas, ela protesta criando seus próprios ensaios sem medo de mostrar cada detalhe de seu corpo. Para outra revista masculina, a Sexy, Catharina participou de um projeto que visa mudar a imagem vulgar do veículo, com menos nus frontais e fotos mais expressivas.

“Mostrar o corpo é uma questão de aceitação. Vai contra o que a sociedade vai pensar, o que os outros vão pensar, tudo isso. E, como hoje, esse tipo de trabalho se popularizou, as pessoas sentem um pouco mais de liberdade, sabe? Já que estão todos fazendo, elas não veem problema em fazer também. E isso é ótimo, as pessoas estão se livrando do pensamento que a mídia impõe”, diz Catharina.

Durante as duas horas que passamos juntos, num ambiente tradicional aos jovens paulistanos, como um conjunto de mesas e cadeiras de madeira postas à calçada de um bar, onde comemos batata frita e tomamos cerveja, foi possível perceber como Catharina consegue discernir entre todos os episódios e explicar quais foram os pontos positivos de ter se estado tão longe de casa por bastante tempo.

O que foi, inicialmente, desespero, transformou-se em boas experiências, como aprender inglês com uma modelo polonesa, tudo que sabe sobre modelar e que nem todos são amigos, além de morar sozinha e saber a tratar o mundo com menos ingenuidade. Tudo isso fez parte do que ela trouxe na bagagem e em si mesma. Tudo isso faz parte um amor único que sente por sua profissão. “O amor é único como uma pérola”, assim diz uma de suas sete tatuagens espalhadas por seu corpo, junto com uma pantera e uma sereia, que podem ser representações de sua personalidade que contrasta entre delicadeza e rebeldia, graça e agressividade, gentil e predadora. Como uma modelo.