Intervenção na EMEF Pe. José de Anchieta

  1. IDENTIFICAÇÃO:

Alunos Estagiários: Janice Fonseca, Junior Centenaro, Marcos Ribeiro, Mariana Guisso e Rosimar Souza.

Escola: E.M.E.F. Padre José de Anchieta

Disciplina: Filosofia

Área: Ciências Humanas

Ano: 2014

Série: 9° ano

Professor titular da disciplina: Vera Dalbosco

Dia em que ocorre a disciplina: Quinta Feira

Horário da disciplina: 08:30 às 10:00 hrs

Professor Supervisor: Marcelo José Doro

  1. TEMA: A dúvida

(Qual a importância da dúvida no dia a dia?)

2. OBJETIVOS:

a) Trabalhar com os alunos a importância da dúvida como um questionamento que possibilite uma visão crítica sobre o mundo, de forma a não aceitarmos tudo que nos dizem como sendo verdadeiro;

b) Possibilitar nos alunos uma visão crítica sobre acontecimentos do cotidiano;

c) Apresentar traços gerais do pensamento de Descartes, de modo a revelar sua atualidade.

  1. PROBLEMATIZAÇÃO:

Partindo do ponto em que a dúvida é questão central do desenvolvimento do tema, se quer que os alunos cheguem à compreensão do mesmo sem que seja necessária a colocação direta do que é. Ou seja, por meio da sensibilização usada tenta-se estabelecer uma relação entre o que está sendo colocado com o objetivo que queremos de destacar a importância da dúvida no cotidiano.

A filosofia grega surge da “dúvida”. Começou-se a questionar os mitos. Os primeiros filósofos buscaram explicações racionais sobre o cosmo, sobre a realidade. Segundo estes a mitologia não tinha como dar explicações racionais por esperar das divindades a solução e as respostas. A partir dessa dúvida levantada sobre a veracidade dos mitos, um novo caminho se abriu para pensar a natureza e os problemas sociais e humanos de forma racional. Nesse sentido o ato de duvidar abriu para novas formas de compreender o mundo. Passou-se de uma cosmogonia a uma cosmologia.

Sócrates, um dos grandes filósofos da Grécia clássica, teve uma postura muito importante ao afirmar “Só sei, que nada sei”. Primeiro uma atitude de extrema humildade em reconhecer que nunca vai ter uma verdade absoluta inquestionável e nem ser dono dela, segundo que, nessa postura, sempre existe a desconfiança que também pode ser dúvida, pois questiona constantemente aquilo que achamos que é uma verdade. Não existe, portanto, um ponto final no conhecimento, ele vai sendo construído, resignificado.

A dúvida também pode ser encontrada no pensamento dos céticos, para quem não existe nenhuma verdade absoluta ou, sequer, universal. Essa posição, contudo, tem sido criticada por conter uma auto contradição, na medida em que se presume que a não existência de verdade é uma verdade.

No início da modernidade, Rene Descartes expos no discurso do método a fragilidade e a insuficiência do pensamento e da educação de sua época. Segundo ele, a física, a astronomia, a medicina e as ciências que estudam as coisas compostas, são dúbias e incertas. As ciências matemáticas, por sua vez, garantiriam um conhecimento seguro acerca da realidade. Ele estabelece, assim, quatro passos para um método seguro de produção do conhecimento:

  1. O primeiro passo consiste em jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. Com isso, Descartes pretendia afastar tudo o que não se apresentasse tão clara e tão distintamente à seu espírito que não pudesse ser posto em dúvida (DESCARTES, 1973, p. 37). Esse primeiro passo é o passo da dúvida, que tem o caráter de suspeita, não se trata de qualquer dúvida. O filósofo afirma que não toma nada como verdade antes de conhecer a coisa com evidência, ou seja, com clareza. A desconfiança, nesse sentido, leva a uma investigação e um aprofundamento do sujeito sobre alguma coisa que lhe é dúbia e incerta. É claro que Descartes duvida também das ciências que se ocupam com a natureza, pois, segundo ele, são dotadas de incerteza.
  2. O segundo passo consiste em dividir cada uma as dificuldades que precisam ser examinadas em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las (DESCARTES, 1973 p. 38). A partir desta nova orientação, já se obtém a noção de um caminho metódico para se chegar a verdade. O filósofo coloca tudo em dúvida e em exame até que alcance o nível da certeza absoluta sobre algo. Não se pretende trabalhar propriamente a questão da verdade, mas sim a contribuição da “dúvida” ao longo da tradição filosófica no que tange na busca e construção do conhecimento e das informações.
  3. O terceiro passo consiste em conduzir a investigação do mais simples para o mais complexo, é regra de ouro, pois deve-se examinar tudo.
  4. No quarto passo o investigador deve realizar enumerações exaustivas e revisões gerais, para chegar à conclusão que nada omitiu.

Se olharmos para nossa realidade nos impressionamos com a quantidade de informações que nos chegam todos os dias, através do mais diversos meios. Mas será que tudo aquilo recebemos de informação pode ser considerado seguro? Se partirmos de Descartes o primeiro passo é duvidar do que está posto, examinar para concluir mais tarde se uma informação é verdadeira ou falsa, ou melhor, se tem credibilidade.

Existe uma onda muito forte, principalmente nas redes sociais, de criação de notícias falsas, sobre aspectos polêmicos na sociedade, especialmente no que se refere a esfera política. Existe o lado humorístico, mas por outro existe um jogo enorme de manipulação de informações. Com que interesses operam os meios de comunicação? Por que motivos manipular o que chega até a sociedade?

O fator é complexo, pois pode levar o ser humano a acreditar e apostar em coisas que sequer existem. Por exemplo, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), usou a tribuna para protestar contra uma campanha que foi criada para vender a Amazônia. A notícia era uma brincadeira e repercutiu o Brasil todo e por várias semanas levantou uma série de discussões favoráveis e contrarias a venda. Ao ser informado sobre a “brincadeira” reagiu com bom humor. Com esse exemplo podemos ver o quanto pode repercutir e se espalhar algo que foi criado, que realmente não aconteceu.

De certa forma existem tipos diferentes de dúvida. Em primeiro lugar a dúvida é uma possibilidade, e além disso ela gera possibilidades, pois na medida em que se duvida de algo, se está buscando outras possibilidades. Acaba-se confiando quase no acaso porque não se sabe dentre as várias possibilidades qual será a mais coerente, convincente, correta, etc. A dúvida é possibilidade de refinar o conhecimento, os fatos, as notícias e evitar, por exemplo, cair em armadilhas como a do bilhete premiado e da venda da Amazônia.

A dúvida como incredulidade pode ser entendida como uma qualidade da pessoa que não acredita facilmente naquilo que ouve, assiste, enxerga. A incredulidade também move a qualidade de questionar os fatos, o conhecimento, as verdades que são estabelecidas. Isso favorece também o desenvolvimento do senso crítico diante de situação absurdas. Novamente pode-se citar o golpe de bilhete premiado, pois o mínimo de incredulidade possibilitaria a desconfiança e não levaria as pessoas a caírem nele. O mercado pretende nos apresentar tudo o que está nos faltando, nos mostra a felicidade nas coisas que se compra, nos negócios bem feitos, mesmo que seja de forma desleal, passando por cima dos outros, superando-os. Será que se pode ficar tão crédulos diante dessa proposta de felicidade? Porque geralmente nos deixamos iludir e seguimos o que o mercado impõe como se fosse uma verdade absoluta? Não estamos precisando de mais incredulidade perante isso?

A dúvida também produz hipóteses. O termo hipótese é antimônio de verdade, isso quer dizer que não existe uma única forma ou que ela vai ser a correta. A dúvida como produtora de hipóteses ou pressuposições está na esfera do provável. Por exemplo é bem provável que em dias muito quentes e com umidade relativa do ar alta, ocorra precipitação de chuva, porém não é uma verdade absoluta, pois pode não chover nessas condições, existe probabilidade de chover nessas condições. Os resultados de uma pesquisa eleitoral para saber as intenções de voto numa eleição apresentam probabilidades. A pesquisa nunca vai afirmar com 100% de certeza que o resultado na eleição será de fato como o da pesquisa. É provável que o candidato x ganhe e candidato y perca, mas não se pode afirmar com clareza isso. Por não haver essa certeza permanece a dúvida.

Uma das características mais importante da dúvida é a suspeita. E como já observamos Rene Descartes foi mestre diante disso. Apesar de usar a dúvida para chegar a verdades absolutas e inquestionáveis, nos interessa nesse conjunto o método de busca realizado por ele. Este método consistia da filtragem de todas as suas ideias, eliminando aquelas que não se afigurassem como verdadeiras e fossem dúbias. Descartes afirmava que, para conhecer a verdade, é preciso, de início, colocar todos os nossos conhecimentos em dúvida. É necessário questionar tudo e analisar criteriosamente se existe algo na realidade de que possamos ter plena certeza. A suspeita da característica ao ser humano como sujeito pensante, que sempre está duvidando daquilo que é posto. Para Descartes é preciso suspeitar de tudo.

  1. PROCEDIMENTOS E MATERIAIS:

1º Sensibilização A sensibilização será conduzida da seguinte forma: primeiramente, os alunos assistirão a um vídeo falso sobre a venda da Amazônia, que tem circulado a anos pela internet. Após isso se colocará alguns comentários que reforçam a ideia da crença das pessoas na notícia, a ideia é instigar os alunos sobre o tema, dizendo que é verdadeira a notícia. Poderão ser feitas algumas perguntas como: é certo vender a Amazônia? E se a perdermos como ficamos nós brasileiros? O que vocês acham disso, concordam? Após essas perguntas será citado o exemplo do senador que foi à tribuna para falar do risco que o Brasil estava correndo de perder a Amazônia. Após a turma estar informada e acreditando na possibilidade de venda da Amazônia será dada a informação de que é uma notícia falsa.

Feito isso viria um segundo vídeo, que mostra uma mulher sendo enganada pelo conto do bilhete premiado. Possibilitar a participação dos alunos que com certeza já vivenciaram ou já sabem algo sobre coisas semelhantes a esta. Essa parte deve durar no máximo 20 minutos.

2ºDesenvolvimento: Depois de introduzido o tema por meio da sensibilização cabe agora o desenvolvimento, ou seja, problematizar o assunto por meio de levantamento de questões e problemas chave que os próprios alunos trarão de sua compreensão, através dos quais sempre serão indagados sobre como a dúvida agiria, qual seria seu papel nestas situações e qual poderia ser o desfecho se ela fosse usada com maior frequência.

Será apresentado um pequeno texto a partir da problematização feita no plano. Neste momento deve-se introduzir aos alunos as ideias de Descartes, não as ideais mais refinadas como a crítica em relação à confiabilidade de nossos sentidos, mas a simples colocação de que a dúvida é defendida por ele como algo imprescindível para a nossa relação com o mundo. Talvez esta parte caiba até como uma validação do tema, como uma fundamentação das ideias já expostas. E até mesmo a compreensão de que sem a dúvida haveria uma estagnação do pensamento podendo apenas se aceitar o que está dado, sem que haja progresso em quaisquer áreas de conhecimentos e todas as coisas por mais simples que sejam.

E interessante perceber a relação direta com que a dúvida é tratada no cotidiano das pessoas. Ela é necessária a ciência, a sociedade, a uma ida ao mercado e a sentença de um médico, coloca-la realmente como sendo alicerce fundamental das relações do homem com o mundo.

4º Fechamento: neste momento ocorre o fechamento da aula, ou seja, a síntese do que foi falado e exposto na aula, fazer as relações entre o tema e as experiências dos alunos com ele, que se manifestaram durante a aula. Ao final se pedirá aos educando uma síntese de cinco a seis linhas sobre a discussão realizada, isso auxilia na habilidade de síntese deles e dá ao professor a oportunidade de reforçar alguns pontos que não ficaram claros. Além disso, os alunos serão desafiados a conhecer alguns sites de produção de notícias falsas e montar uma notícia que eles acham que poderá ser aceita pelas pessoas; podendo, se quiserem, compartilhar tais notícias pelo facebook, entre eles mesmos, para analisar a reação das pessoas desavisadas.

  1. BIBLIOGRAFIA:

DESCARTES, R. Discurso do Método. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Coleção Os Pensadores.

Videos:

http://www.youtube.com/watch?v=kiW8PyYuUeY>

https://www.youtube.com/watch?v=uUlBnI7_i3U

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