O que eu aprendi vivendo na Alemanha

Meu primeiro dia de aula.

Eu ainda tenho muita viva na memória aquela noite na rodoviária de Ijuí quando eu dei um abraço nos meus familiares e entrei num Ouro e Prata rumo a Porto Alegre. Naquele momento um nó se instalou na minha garganta — e que me acompanha até hoje. Eu sempre fui desligado. Não era daqueles que ligava todos os dias pros meus pais. Mas é que eu estava acostumado a viver a 60 km de Portela onde moramos a vida toda.

Outra memória foi quando eu desci pela primeira vez na Hauptbahnhof Neustadt (estação de trem) em Dresden. Foi uma coisa louca e o meu primeiro pensamento foi: puta que o pariu, ferrou.

Sim, não foi o melhor sentimento do mundo. Sou desses que não foi criado pra sair da zona de conforto. Até hoje eu me questiono quando foi que eu tive a brilhante ideia de sair do Brasil pra vir me enfiar nesse lugar.

Logo de cara eu tive que encontrar um indiano que alugou um quarto pelo Airbnb. E no dia seguinte já tive que procurar o meu quarto oficial. Foi muito difícil. Me perdi na cidade. Peguei o trem errado. E daí peguei o ônibus errado e fui parar muito longe do meu destino.

Dei meu jeito e resolvi tudo, mas na certeza que trilhei o caminho mais difícil. Caro leitor, nesse ponto eu me dei por conta que eu tava exatamente no lugar onde o filho chora e mãe não vê.

Só quando cheguei em casa me dei por conta que meu pé estava sangrando de tanto que eu caminhei. Deve ter sido muita adrenalina pra eu não ter percebido. A meia ficou manchada e o sapato ficou sujo de sangue por dentro. Tive que limpar, coisa que não faço com frequência.

E eu achava muito complicado o sistema alemão. Nada! Hoje eu acho a coisa mais fácil do mundo. Tempos depois, com um mapinha fuleiro e um relógio de pulso eu conheci os principais locais históricos de Munique na Baviera.

Não preciso nem comentar sobre o idioma. Falar Deutsch não é lá uma coisa simples. Olha essa palavra:

rindfleischetikettierungsüberwachungsaufgabenübertragungsgesetz”.

E não queira nem saber o que significa.

Logo comecei meus estudos na Universidade de Ciências Aplicadas de Dresden (Hochscule für Technik und Wirtschaft Dresden). Resolvi uma porção de coisas legais:

  • Registro no município (recentemente me deram 150,00 euros por eu vir morar aqui).
  • Abrir conta em Banco (Deutsche Bank ❤).
  • Plano de saúde (sim, é obrigatório).
  • Matrícula na universidade (normal).
  • Permissão de residência (sufoco).

Após todo esse processo e alguns perrengues, enfim me considerei tranquilo e confiante. Ledo engano. Parte de ser adulto é frequentemente resolver questões e perrengues. As atividades do mestrado são um prazer, afinal eu que escolhi. Mas perrengues são difíceis. E multiplica isso por barreiras linguísticas e culturais.

Dentre os perrengues que passei:

  • Meu celular pifou.
  • Tive uma infecção na garganta.
  • Perdi o cartão do banco.
  • Esqueci de ir em um Termin no Ausländerbehörder (pra pegar o meu visto/permissão de residência).
  • Me tranquei pra fora do apartamento (por 1h só, nem foi tão ruim assim).
  • Passei a noite no Aeroporto de Frankfurt porque não me deixaram entrar no ônibus pra Zurique (Culpa minha que esqueci que Suíça não era membro da União Européia e não levei o meu passaporte, só o Blue Card).
  • Esqueci de solicitar o meu Steueridentificationsnummer e o Sozialversicherungsnummer (ainda não sei o que é isso, acho que deve ser que nem o CPF, só que dois números).
  • Outros.

Claro que tiveram momentos bons. Com certeza essa lista é muito maior. Não vou citar porque vou acabar sendo muito gavola.

Acho que nesse ponto o leitor pode estar ciente das minhas conclusões, ou seja, o que eu aprendi com isso tudo. Vou ser objetivo. Acho que todo o adulto a certo ponto percebe isso. Que por mais que você se prepare pra alguma coisa sempre vai ter problemas e falhas. Acontece. As vezes não. Mas geralmente sim.

Mas é importante seguir uma linha. Não se deve escutar conselhos demais. Até porque, cada um tem sua visão e posição no mundo, o que o torna um ser único. E devido a isso, a conclusão de um terceiro por mais correta que seja pra ele, pode não ser a mais aplicável pra você. Isso nas coisas subjetivas e nas objetivas — como solicitar um documento.

Eu aprendi na Alemanha que ouvir a voz da intuição pode ser a melhor coisa que alguém pode fazer. As vezes ignorar algumas consequências pode ser muito bom, porque só assim você vai experiencia-las. Sejam elas boas ou ruins — normalmente as duas juntas, o que é ótimo.