Precisamos falar sobre American Crime Story

Quando a lista de indicados do Emmy 2016 saiu, foi a evidência de que 2016 foi um ano bom para as séries, que cada vez mais têm ganhado espaço na televisão e no mundo digital. Só esse ano já tivemos três lançamentos ótimos, entre séries e mini-séries: 11.22.63, mini-série protagonizada por James Franco e baseada em um livro do Stephen King, com uma adaptação de roteiro fantástica; Stranger Things, que foi uma das melhores surpresas desse ano; por último e não menos importante, American Crime Story.

Demorei muito tempo para ver American Horror Story, com uma relutância boba. Entretanto, foi só ver Asylum e a Jessica Lange com seu personagem decadentes e aquele clima misto de horror, mistério e com um tom de elegância ímpar que eu virei fã da série e aprendi a admirar o Ryan Murphy e seu trabalho.

Agora, a minha devoção vai totalmente para a sua série derivada, criada também por Ryan Murphy. American Crime Story começou a ser exibida em 02/02/2016, dotada de um elenco sensacional. Entre eles: Sarah Paulson, John Travolta, Cuba Gooding Jr., David Schwimmer, Sterling K. Brown, Courtney B. Vance, e outros.

As atuações do elenco são tão convincentes que você esquece completamente que o John Travolta fez Grease , que o David Schwimmer é o Ross de Friends, que a Sarah Paulson fez 5 temporadas de American Horror Story e o Cuba Gooding Jr. protagonizou Cruzeiro das Loucas. Sem contar que, os atores foram escolhidos a dedos e se parecem muito com as pessoas da vida real.

A série também conta com uma produção fantástica, muito bem ambientada nos anos 90 e roteiro escrito com maestria. Entretanto, a série não se mantêm na superfície, ela aborda temas mais importantes.

A primeira temporada se desenvolve nos bastidores do julgamento de O.J. Simpson, um famoso jogador de futebol americano negro que foi acusado de ter assassinado a ex-esposa e um rapaz com quem ela estava saindo. Inocente até que se prove o contrário, correto? Dadas as reviravoltas do julgamento, a série aborda delicadamente temas como as questões raciais dos EUA e as transgressões da polícia, estupro, e violência doméstica. Recheados de diálogos tocantes de uma precisão milimétrica que faz você se prender desde o primeiro ao décimo e último episódio da temporada.

O destaque sem dúvida está na Marcia Clark, personagem interpretado pela Sarah Paulson, que é uma mulher forte e independente e em momento algum deixa de ser mais que isso, mesmo com três milhões de problemas para lidar e filhos para criar, provando que uma mulher pode sim ser mãe solteira, independente, ter um cargo de poder e cumprir seu trabalho com excelência, sem se envolver em romances bobos ou baboseiras que em geral envolvem as mulheres da televisão.

Além de tomar totalmente a atenção do espectador, a série consegue colocar uma atmosfera de dúvida e receio, que leva você mesmo a duvidar do que você está vendo e considerar tudo o que está no julgamento, transformando o próprio espectador em um dos membros do júri. Não existe instinto, não existe intuição. Se o O.J. Simpson é culpado ou não, não temos como saber. Só aí nós temos a noção de tamanha a dificuldade de tomar uma decisão dessas, condenar uma pessoa inocente, ou deixar um assassino livre? Nós temos mais detalhes que todos os envolvidos, e mesmo assim o julgamento confunde e perturba. Bate um sentimento de inquietude, intercalado com momentos de extrema identificação com todos os personagens. Sim, hora ou outra desperta uma completa empatia com todos os personagens.

O sentimento de inquietude dura até a última cena da temporada. Não é um sentimento bom, mas é o sentimento que evidencia que a série atingiu você exatamente da forma como os roteiristas queriam que você fosse atingido. E também existe mistério, independente do veredito que foi dado pelo júri. Será que a decisão tomada foi a correta? Será que cabe a mim decidir o que é justiça?

O final da série é extremamente pontual e fecha completamente todas as questões abordadas na série, porém, deixando várias reflexões em aberto, dando um gosto completamente diferente de qualquer série criminal que você já tenha visto.

A segunda temporada se focará no Furacão Katrina, e está em fase de desenvolvimento. Com certeza, irei acompanhar sem falta. Espero que vocês também!