O Crescimento Populacional é o Maior Problema Ambiental?

Fonte: Avaliação de aula. Disponível em https://www.slideshare.net/eloysouza9/geo-9-nicinho

Texto publicado originalmente no meu Blog.

Diversos autores e ambientalistas afirmam que um dos maiores (ou o maior) problema ambiental é o crescimento populacional (KELLER, 1985). Essa tese, denominada “neomalthusiana”, foi reforçada no Clube de Roma, que propunha, como “solução” para os problemas ambientais o crescimento zero, tanto populacional quanto econômico. Além de desconsiderar as diferenças econômicas e sociais da população essa afirmação supervaloriza um fator em detrimento de outros, como o modo de produção e o sistema econômico, e não consegue responder adequadamente a algumas questões, como a do consumo de recursos naturais, produção de resíduos e emissão de gases estufa, todos esses maiores nos países ricos.

O elevado crescimento populacional, que teve seu “pico” após a II Grande Guerra, portanto, há mais de 50 anos é, inegavelmente, um problema ambiental. Esse crescimento aumenta a pressão sobre os recursos naturais e ocorre, em grande parte, devido à desinformação (FERRAZ, 2004). Atualmente, apesar dos neomalthusianos insistirem no contrário, a taxa de crescimento populacional vem caindo (FERRAZ, 2004), mostrando que esse problema tem origem antiga, portanto.

Os problemas ambientais atuais não podem ser resumidos somente às intervenções humanas recentes, porque esses problemas não são apenas aqueles causados pela ação antrópica (TEIXEIRA, 2001) e porque muitos dos problemas recentes vêm de ações que remontam à tempos antigos.

Em todo o planeta, pode-se dizer que a vilipendiação dos recursos naturais vem desde o começo das civilizações, quando os seres humanos começaram a se juntar nas cidades (FERRAZ, 2004). Houve um crescimento grande (principalmente no hemisfério sul) por ocasião das colonizações e da ascensão do mercantilismo como sistema econômico predominante, onde as colônias forneciam os recursos naturais para as metrópoles e se agravou após a Revolução Industrial.

Com o capitalismo neoliberal, atualmente hegemônico, a natureza (denominada, agora, de “recursos naturais”, como se fosse uma mercadoria) serve ao sistema como provedora de matéria-prima e depósito de resíduos de modo a maximizar o lucro. Sabemos que, pela 3ª Lei da Termodinâmica, a entropia, ou desordem no sistema, tende a aumentar, ou seja, uma vez degradado, é praticamente impossível recuperar o ambiente (PORTO-GONÇALVES, 2004). Portanto, o sistema capitalista vigente tende a agravar a crise ambiental e elevá-la a enormes proporções, o que não tem relação com o crescimento populacional. Mas, novamente, pode-se afirmar que não pode ser considerada “atual” essa degradação causada pelo sistema econômico.

O capitalismo também gerou uma má distribuição de renda e, com ela, uma má distribuição dos recursos naturais. Essa má distribuição de renda acaba aumentando ainda mais a pressão sobre esses recursos, causando ainda mais problemas ambientais.

Como exemplo, alguns dados expostos por GASI (2003) são colocados abaixo:

- Metade dos rios do mundo estão seriamente degradados ou contaminados

- 60 % dos 227 maiores rios do mundo já foram usados para construção de reservatórios e outras obras de engenharia

- 1,1 Bilhão de pessoas não tem acesso à água potável

- 2,4 Bilhões de pessoas não têm saneamento básico adequado

- As concentrações de CO2 estão em 370 Ppm (30% Mais Que Em 1750)

- Concentrações de Metano, e outros gases-estufa também cresceram

- Cerca de 2.000 Milhões de hectares de solo estão degradados devido à Atividade Humana

- 1,3 Bilhões de pessoas vivem com 1 menos de 1 dólar por dia

- 240 Milhões na América Latina estão abaixo da linha da pobreza

- 840 Milhões de pessoas são mal nutridas

- 880 Milhões não têm acesso a serviços de saúde

- 17 Milhões morrem por ano de doenças evitáveis (Diarréia, Malária, Sarampo, Tuberculose)

- 1/5 da população mundial que reside no Hemisfério Norte consome: 86 % dos gastos mundiais com consumo, 46 % de toda a carne, 65 % de toda a eletricidade, 84 % de todo o papel, 85 % de todos os metais e produtos químicos

Custos:

- Ensino Básico — US$ 6 Bilhões/ Ano ( US$ 2 Bi gastos com cosméticos nos EUA)

- Água e Saneamento Básico — US$ 9 Bi/Ano (US$ 2 Bi/Ano gastos com sorvete na Europa)

- Saúde e Nutrição Básica — US$ 13 Bi/Ano (US$ 17 Bi/Ano gastos no mundo para alimentar animais domésticos)

Esses dados comprovam que a desigualdade e a péssima distribuição de renda e recursos, decorrentes, fundamentalmente, do modelo econômico vigente, é um problema ambiental muito maior que o crescimento populacional.

Certamente, no século XX a ação humana causou problemas maiores e em maior número, por uma série de fatores (éticos, sociais, econômicos), mas, para o século XXI, deve-se estudar as origens históricas (naturais e antrópicas) da crise ambiental a fim de enfrentá-la com ferramentas adequadas para que essa geração e as próximas possam viver em um mundo melhor e mais justo.

Concluindo, pode-se dizer que a tese dos neomaltusianos, muito aceita hoje em dia, inclusive em livros muito respeitados de Ciências Ambientais (Environmental Geology, por exemplo, uma das “bíblias” da Geologia ambiental no mundo), carece de substância, pois, embora exerça pressão sobre os recursos naturais, como água, produtos agrícolas, minérios e necessite de recursos financeiros e estruturais (moradia, alimentação, transporte, educação, saúde, saneamento básico, lazer), os países pobres (responsáveis pela maior parte da população mundial e pelos maiores índices de crescimento populacional), na verdade, pela sua condição econômica, têm menor responsabilidade pela degradação ambiental, e inclusive, são as maiores vítimas dessa degradação, tanto pela má distribuição dos recursos naturais quanto pelo próprio processo de exclusão socioeconômica.

Não, o crescimento populacional não é o maior vilão da crise ambiental. O maior vilão é o consumo estimulado pelo capitalismo, de onde as maiores vítimas são, como sempre, os pobres.

Referência Bibliogáficas:

DIEGUES, Antônio Carlos. Populações tradicionais e biodiversidade. O mito da natureza intocada. São Paulo : Hucitec, 1996. p. 149–159.

FERRAZ, Celso — Apostila de Geologia Ambiental para o curso de Engenharia Ambiental da FEP. Piracicaba, 2004

GASI, Tania Maria Tavares. Apresentação sobre Educação Ambiental. Disponível em www.cetesb.sp.gov.br — Acessado dia 01/03/2005

KELLER, E.A. Environmental Geology — New York; Merril, 1985

PÁDUA, José Augusto (Org.). — Natureza e projeto nacional : origens da ecologia política no Brasil. In: Ecologia e política no Brasil . Rio de Janeiro: Espaço e Tempo/IUPERJ, 1987. Cap. 4, p. 13–62.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. O Desafio Ambiental. São Paulo: Record, 2004.

TEIXEIRA, Wilson; TAIOLI, Fabio; FAIRCHILD, Thomas. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos, 2001.

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Pai do Vinícius, marido da Lillian. Ambientalista, inventor de personagens e contador de histórias absurdas para o filho e afilhado. Ah, Professor e Engenheiro!

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