Não é vitimismo

Já passou da hora de sairmos um pouco da bolha e ter um pouco de empatia

O ano mal começou e já nos deparamos com tantos casos de racismo que nem dá para acreditar que estamos vivendo em 2016. O pior ainda é encontrar comentários de pessoas que não tem nenhuma relação com assunto dizendo que é vitimismo ou mi mi mi. MAS NÃO É!

Vimos situações complicadas no mundo inteiro. Por exemplo, este é segundo ano consecutivo no qual NENHUM ator negro é ao menos indicado ao Oscar e no ano passado Viola Davis foi a PRIMEIRA NEGRA a ganhar um prêmio como melhor atriz dramática.

Voltando para o Brasil vimos aquele famoso reality show, que fatura milhões com publicidade, usar um boneco negro para substituir uma esponja de lavar louça. E não parou por aí, vimos também a cantora Ludmilla receber comentários maldosos de Val Marchiori dizendo que seu cabelo se parecia com um Bom Bril. Ainda bem que ela, com sua consciência e empoderamento, deu uma resposta à altura.

Eu poderia parar de citar exemplos por aqui, mas houve dois que chocaram e geraram muito mais comentários. O primeiro é o caso de uma família que fantasiou seu filho negro de macaco no carnaval e o segundo é o clipe e a letra da nova música da Beyonce.

No primeiro caso, preciso deixar claro que não acredito que os pais tinham má intenção ao vestir a criança com aquela fantasia, porém eles deveriam ter a consciência da condição do filho e ensiná-lo sobre suas origens para que assim ele cresça um adulto empoderado da sua raça e com ciência da sua origem.

Todos nós vimos vários comentários de pessoas dizendo que isso era mi mi mi e vitimismo, que se uma criança branca usasse a mesma fantasia não teria problema.

Mas é claro que não, afinal a criança branca não é descendente de escravos; não sofre com falta de representatividade na TV; os amigos da escola não a ofendem com apelidos racistas; quando ela crescer não será taxada como marginal, ignorante ou favelada; ou será parada ou, até mesmo, morta pela polícia por simplesmente estar na rua.

Complicado falar que isso é vitimismo, né?

Agora sobre a música de Beyonce é simples: a letra e o clipe criticam claramente a violência policial que os negros sofrem nos EUA. O problema é o que isso causou: diversos pessoas querendo boicotar alegando que a mensagem era contra a polícia. Mas qualquer um pode ver que não é nada disso, como mostra este verso: “Ei, eu acho que a polícia deveria parar de matar jovens negros”.

Além disso o clipe traz diversas referências a movimentos que lutavam pela igualdade dos negros, como os panteras negras. Para completar, Beyoncé ainda se apresentou no Half Time Show de 2016. Não tem jeito, terão que engolir a mensagem da música.

Termino este texto pedindo mais empatia (para quem ainda não sabe o que é pode ler mais aqui), uma citação da página Black is power e pedindo que, por favor, escute a música “A Carne”, da Elza Soares.

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo”