Acho que o Brasil precisa do Monstro do Espaguete Voador!

http://www.venganza.org/

Não, não estou brincando. ;)

Há algum tempo atrás, escrevi este texto falando sobre a o projeto de lei “Escola Livre”, que infelizmente foi aprovado aqui em Alagoas. O texto da lei é repleto de absurdos, e no meio deles eu destaquei os potenciais problemas relacionados ao ensino de Ciências — não que este seja o ponto mais importante da crítica desta lei, é apenas um pedaço que eu resolvi discutir. E aí, sendo mais específico, eu estava (e ainda estou, já que a lei foi de fato promulgada!) particularmente preocupado com o ensino de Evolução, um dos conteúdos mais fundamentais para a compreensão da Biologia como um todo.

Quando você acha que as coisas não podem piorar…

É, elas podem. :p

Não deve ser novidade para ninguém que nos EUA existe um longo e desgastante conflito sobre o ensino de Evolução em sala de aula, e que é forte a presença de grupos criacionistas que defendem o ensino de “teorias alternativas à de Darwin” (muitas aspas aqui, pois a expressão é usada para enganar, dando a falsa ideia de que existem outras teorias científicas envolvidas). Até aí tudo bem, o problema é lá com eles, e aqui no Brasil não vemos nada parecido. Não, pera. Vemos sim. E não parece ser algo isolado, pois você pode encontrar mais coisas assim. Não quero fazer uma compilação de propostas assim, mas apostaria que existem mais…

Até que ponto esta é uma preocupação real, algo que realmente pode acontecer com o ensino de Ciências aqui no Brasil é algo que me deixa em dúvida. Se me perguntassem há um ou dois anos atrás, eu iria rir e dizer que isso nunca vai acontecer. Hoje, acho que daria mais uma risada nervosa, e depois ficaria preocupado com a questão…

Mas espere aí um pouco, Evolução não é “apenas uma teoria”?

Não, não é por aí, pelo menos não como você está pensando — o significado da palavra Teoria é bem diferente no meio científico do que no uso “leigo” do termo. Veja só, o meu propósito neste texto não é falar sobre o que é a Teoria da Evolução, nem explicar porque ela é tão importante e fundamental para a compreensão de toda a Biologia. Então, se o questionamento acima passa pela sua cabeça, você pode escutar o pessoal da Nerdologia falar do assunto, escutar o pessoal do Rock com Ciência falar do assunto, assistir este vídeo bem explicativo do Stated Clearly ou dar uma lida nesta série de textos da USP. O tal argumento do “apenas uma teoria” é bem furado, então procure saber mais antes de repetir este tipo de coisa, ok? Mas vamos seguir.

Mas ensinar teorias alternativas não é algo que faz todo sentido do mundo?

Não, não faz — a não ser que você tenha verdadeiras teorias científicas alternativas. Se você leu o que eu passei acima, mas ainda fica na dúvida, pois pensa que podem existir teorias científicas alternativas neste contexto, então leia este texto bacana do Gould (traduzido para o português) sobre isso. Resumindo: criacionismo não é ciência. E nas aulas de ciências você deveria ensinar o que mesmo? Pois é.

E quem é esse Monstro do Espaguete Voador, e por que existe uma igreja dele?!

O MEV (ou FSM na sigla original em inglês) é uma ideia muito legal, que nasceu no meio daquele contexto nos EUA que eu mencionei ali em cima. Resumindo bastante a história, o que rolou foi o seguinte: o estado do Kansas estava aprovando uma proposta para se ensinar criacionismo como “alternativa” ao ensino de evolução. Então o físico Bobby Henderson escreveu esta carta aberta fantástica ao comitê que estava trabalhando nisso.

Uma tradução livre de alguns trechinhos da carta, para vocês terem uma ideia do tom:

[…] Eu acredito que todos podemos concordar que é importante para os estudantes ouvir múltiplos pontos de vista, de forma que eles possam escolher pessoalmente a teoria que acharem fazer mais sentido. Eu me preocupo, entretanto, com a possibilidade deles ouvirem apenas sobre uma teoria de Design Inteligente.
Devemos nos lembrar que há múltiplas teorias de Design Inteligente. Eu e muitos outros ao redor do mundo temos uma forte crença de que o universo foi criado por um Monstro do Espaguete Voador. Foi Ele quem criou tudo o que vemos e tudo o que sentimos. […]
Se a teoria do Design Inteligente não é baseada em fé, mas sim uma teoria científica, como dizem ser, então vocês também devem permitir que a nossa teoria seja ensinada, uma vez que ela também é baseada em ciência, e não em fé[…]
Alguns podem achar difícil de acreditar, então pode ajudar se contarmos um pouco mais sobre as nossas crenças para vocês. Nós temos evidências de que um Monstro do Espaguete Voador criou o universo. Nenhum de nós, é claro, estava lá para ver, mas nós temos relatos escritos sobre isso. Nós temos muitos longos volumes que explicam em todos os detalhes o Seu poder.[…]

A proposta da carta e, mais tarde, da religião que surgiu em torno da proposta, pode ser encarada como uma espécie de “brincadeira muito séria”. É claro que a carta é satírica, é claro que toda a proposta da Igreja do MEV é cheia de coisas engraçadas (e vale à pena conhecer, é muito legal!). Mas o assunto é sério. Um dos pontos chave é: as pessoas podem acreditar no que elas quiserem, elas são livres para isso; mas elas não podem impor as suas crenças para outras pessoas a seu redor. E obrigar o ensino de Design Inteligente ou qualquer outra forma de Criacionismo em escolas se trata justamente de tentar enfiar crenças garganta abaixo.

A ideia toda, então, é fazer o seguinte questionamento: se você vai ensinar na escola algo que parte de uma religião (ou de um conjunto de religiões com pontos em comum, como o cristianismo), então você deveria dar espaço para que o mesmo seja feito por várias religiões diferentes. Mesmo se você não gostar delas. Mesmo que você as ache ridículas. Mesmo que elas envolvam uma divindade macarrônica com almôndegas. :D Ou, caso você ache que a criação do mundo como vista por aquela-religião-que-não-é-a-sua não deveria ser um assunto para as aulas de Ciências, então você deveria aplicar o mesmo princípio para a sua religião também. Sacaram a ideia? ;)

Se quiser conhecer mais, dê uma espiada na página deles, e veja também a página sobre eles na Wikipedia, que está bem detalhada. E se alguém quiser me dar de presente o Evangelho do MEV, eu aceito feliz da vida, pois morro de curiosidade de ler essa parada. :D Enfim, são várias coisas legais relacionadas à Igreja do MEV, mas vou deixar quem se interessar por conta própria para ler mais sobre isso — e, quem sabe, se converter! :)

E aí, precisamos dele por aqui?

Pois é, já faz um tempo que eu estou me assustando com a onda de conservadorismo que está crescendo no Brasil, que vem acompanhada de uma quantidade enorme de ódio e preconceito por tudo aquilo que é diferente da sociedade “tradicional”. Isso me preocupa muito como cidadão, e me apavora como pai de duas crianças, que vão crescer no meio disso tudo. E, como professor e cientista, me preocupo muito mesmo quando esta onda também parece querer afetar o ensino de Ciências. Isso tudo me parece parte de um ciclo: temos um ensino básico que já não é bom, e tornamos ele ainda pior ao podar e limitar o ensino de Ciências; com isso, formamos pessoas com menos conhecimento, menos senso crítico, menos reflexão — que finalmente carregam isso para a próxima geração, que terá um ensino ainda pior… Não tem jeito disso terminar bem.

E cada vez que vejo uma nova notícia que diz respeito ao ensino de Ciências no Brasil, mais penso no MEV, e se em breve vamos precisar dele.

http://venganza.org/

Aviso para eventuais leitores distraídos: assim como o meu texto sobre o projeto “escola livre”, este aqui também não faz parte das nossas publicações “oficiais” do LEQ, ok? É desses temas que permeiam as minhas atividades como cientista e professor, mas prefiro deixá-lo mais como um texto pessoal. ;)