Estratégia versus superficialidade

Como o poder do planejamento entrou em quadra nas finais da NBA


Este ano resolvi acompanhar as finais da NBA entre Cavaliers e Warriors. Por estar há muito tempo afastado do basquete, toda vez que paro para acompanhar os jogos fico animado para jogar de novo. Pude perceber que muita gente compartilha desse sentimento quando fui a uma quadra no final de semana para dar uns arremessos e, chegando lá, encontrei ela lotada.

Como não conheço ninguém nessa quadra, fiquei sentado um pouco mais afastado, alongando um pouco e escutando a conversa da galera. O assunto, claro, era o jogo das finais, o que até me encheu de esperança de ouvir alguma opinião interessante; afinal, estávamos numa quadra de basquete, não só com gente que gosta do esporte, mas que o pratica.

Fiquei de ouvidos atentos e reparei em um cara que falava o seguinte: “o Lebron é amarelão” e que ele até jogou bem, “mas no último período não quis assumir o jogo e só passava a bola”. O que me chamou mais a atenção foi que todo mundo concordou, umas dez cabeças balançando em sinal positivo. Ninguém saiu em defesa do Lebron fucking James, naquele jogo em que ele marcou apenas 20 pontos e deu míseras 8 assistências.

Lebron James / Imagem: Sports Illustrated

A pelada começou e logo de início deu pra ver que a galera sabia jogar. O cara que fez o comentário acima era um dos “melhores” jogadores dentro da quadra. Melhores entre aspas porque isso não quer dizer que ele jogava bem, mas sim que exercia alguma liderança dentro da quadra. O cara não parava de falar um minuto e pedia uma falta atrás da outra — você já deve ter encontrado esse tipo por aí.

Sentado do lado de fora da quadra, comecei a pensar se valia a pena ou não entrar naquela peleja. Mas o que importa é que aquele comentário não saiu da minha cabeça e, mentalmente, comecei a rever os jogos que havia acompanhado nos últimos dias, apenas para me dar conta de que o Lebron, na verdade, está fazendo o trabalho dele muito bem. Mas não só isso.

O time inteiro do Cleveland Cavaliers está fazendo um trabalho muito competente. Todos ali são armas do técnico que ele pode acionar a qualquer momento e tudo que ele pede dos jogadores é que mantenham sua média; se forem melhores que isso, ótimo, mas não é o primordial.

Não é nem uma questão de vir aqui defender o Lebron ou o Cavaliers; isso se aplica aos times de basquete americano no geral. O nível da NBA é muito profissional. Os caras pensam no time que vão montar, nas peças que eles têm para usar, nos momentos certos para usar os jogadores, nas motivações de cada um, nos números, nos recordes, nas probabilidades.

Cheguei em casa para assistir o jogo da noite de sábado — jogo incrível, aliás. Muito acirrado, placar apertado o jogo inteiro. Quando chega o último quarto de partida, paro para acompanhar a movimentação do Cavs: armador puxa o ataque, dá seu jeito de passar a bola para o Lebron, todo mundo abre meia quadra para ele jogar um xis um contra quem estiver na frente dele — no caso, o Andre Iguodala.

Lebron vs Iguodala / Imagem: Sports Illustrated

Talvez contagiado pelo que ouvi mais cedo na quadra aquela tarde, comento no twitter como aquele foi o melhor um xis um de todos os tempos naquela NBA Finals. Aí me lembro do comentário na quadra e de repente me dou conta de que o Lebron estava fazendo exatamente o oposto do que o cara falou na pelada. Como assim?

Então caiu a ficha.

Lebron não estava fazendo isso da cabeça dele. Não é ele que está pedindo para jogar um contra um com o Iguodala. Todo mundo sabe exatamente o que fazer. Todo mundo tem o seu papel no jogo.

Até consegui imaginar o técnico montando essa estratégia. Em um jogo, ele deixa o cara solto; no outro, ele manda o cara passar a bola. “O Lebron tem praticamente uma órbita de marcadores em volta dele o tempo todo, então vamos dividir essa bola e colocar os melhores arremessadores para fazer o que eles sabem fazer”.

Delavedova arremessando / Imagem: Sports Illustrated

Delavedova marca 2o pontos nesse jogo, mostrando que a estratégia deu certo, mas agora o outro time já sabe. O que pode ser feito em um jogo seguinte? “Bom, o Lebron tem uma média de 88% de acertos em situação de um contra um”. Essa é uma porcentagem bem favorável e essa é uma jogada que só a marcação em zona poderia controlar, mas como esse não é o caso dos times da NBA (por lá tudo mundo combinou que só se joga marcando individualmente), então a jogada fica praticamente indefensável.

O técnico está ali traçando uma estratégia de médio prazo, pensando no desenvolvimento do time no desenrolar da série. Se fossem sete jogos de improviso, esse time nunca teria chegado onde chegou.

Nem sempre fica claro que uma simples e rápida jogada faz parte de algo maior. Que um jogo faz parte de um planejamento de um ano inteiro. E que portanto há momentos para ataques mais individuais e momentos para passar a bola — e que isso não necessariamente significa fazer corpo mole. É estratégia.

O planejamento tem que ser levado em conta. Basquete, assim como tantas outras coisas, não é só plasticidade.

O técnico David Blatt / Imagem: Sports Illustrated

Esse episódio me mostrou com clareza a importância de usar a ferramenta certa na hora certa, inclusive sobre a importância de ter uma variedade maior de ferramentas, assim como um técnico dispõe de jogadores dos mais variados perfis.

Essas combinações de ferramentas e estratégias é que nos aproximam dos resultados que buscamos, especialmente a médio e a longo prazo. É por isso que não acredito em pensar a curto prazo.

Então volto para aquele momento na beirada da quadra e percebo como a gente segue quem fala mais alto por achar que o que vale é impressionar na hora — e nisso acaba deixando de lado o planejamento, a estratégia, o pensamento de médio e longo prazo.

Dependendo das circunstâncias, a gente pode ser o jogador que assume a jogada ou que passa a bola. O que pra mim não dá é entrar para o time da visão superficial.

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