Sobre guitarra, música e não fazer parte desse planeta

A guitarra e a música. A guitarra e a música têm mantido a minha sanidade.

Por muitas vezes, sinto que não pertenço a nada e nenhum lugar. Aquela sensação de que você não se encaixa em nenhum ambiente ou grupo, sabe? Sentimento este que te isola, que faz de você uma peça que não faz parte de quebra-cabeça algum. Às vezes pode parecer legal ser esta pessoa diferente (barroca, vanguardista), mas a real é que não é. Creio eu que os seres humanos profundamente pedem para estarem conectados. E a sensação é que eu não estou.

Seria ingrato dizer que estou sozinho. Não estou, nunca estive. Existem pessoas maravilhosas ao meu redor, pessoas que eu amo e que eu não viveria sem. O que eventualmente sinto falta é de encontrar o meu lugar. É nesse ponto que eu sempre me senti desconectado de tudo e de todos. Não sei se isso só faz sentido na minha cabeça, mas é como se, por mais que as pessoas que te cercam se importem, você sentisse que não pertence a este mundo. Você é simplesmente um desajustado. Não porque você é alguém especial ou excepcional, mas sim porque você não se sente parte de nada.

Por isso que talvez uma das melhores decisões que resolvi tomar neste ano foi retornar aos meus estudos. Na verdade, sempre gostei de estudar, mas sempre fui mais um curioso que me interessava por diversas áreas do que alguém que estuda profundamente um assunto. Meus interesses sempre flutuavam sobre diversos campos, sempre fui assim. Exceto por uma área: a música (e também, mais especificamente, a guitarra).

Curiosamente, ultimamente estudar e compor têm sido a minha fuga quando nada faz sentido, quando o mundo ao meu redor não parece ser tão acolhedor. Se o John da canção “John the Fisherman” do Primus encontrava paz na pescaria, o que acalma os meus demônios é a música e tocar guitarra.

Estranho como que justamente no momento quando eu não me sinto bem, quando as coisas parecem estar fora do caminho, é que eu consigo encontrar a motivação para estudar e compor. É a hora que eu pego a guitarra e digo para mim mesmo: não espere que o mundo faça algo para você se você mesmo não faz nada nem para si mesmo. Que pelo menos eu seja a pessoa plena que eu possa ser, independente do que aconteça lá fora. Auto-ajuda barata, mas nós fazemos o que funciona, não é mesmo?

Neste momento em particular (só eu e minha guitarra, a música, minhas escalas, melodias e acordes) é que eu fico imerso no meu próprio mundo e nada mais importa. É quando eu esqueço que o Trump é presidente dos EUA e dia 8 chega o meu boleto. Talvez esta situação seja aquela que eu mais me sinta conectado comigo mesmo, para compensar a minha falta de conexão com o mundo. Acredito que todo mundo que goste de criar se sinta assim, provavelmente em níveis diferentes. Seja por hobby, seja criando por outras intenções, parece que realmente existe uma zona que a conexão é tão profunda com a sua criação que o resto parece não existir mais.

Pode parecer uma visão até romântica o que vou contar, mas é o que eu verdadeiramente sinto: quando eu estou tocando uma música, eu não estou tocando simplesmente por tocar. Eu não estou apenas executando uma peça, tocando uma frase ou fazendo uma base. Neste momento, eu estou conectando comigo mesmo. Não importa que eu esteja tocando guitarra sozinho no meu quarto, se estou no ensaio (e espero que futuramente em shows) ou em outra ocasião: esta é a hora que eu estou mergulhado no meu mundo. Até meus companheiros de banda devem ter percebido que, durante a execução de uma música nos nossos ensaios, eu pareço ser outra pessoa. Estou viajando (e não é na onda dessa menina que dá aula de inglês).

Concluindo, talvez eu nunca encontre essa sensação de pertencimento, mas pelo menos saber que eu tenho uma fuga, uma forma de escapar de tudo, me acalma. Quem sabe até o primeiro passo de se conectar com o mundo é tendo contato comigo mesmo. E enquanto eu não me sentir acolhido nesse mundo, eu vou criando o meu próprio planeta.

Like what you read? Give Marcelo Murata a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.