O calcanhar de aquiles da esquerda

É muito mais fácil entender o racismo investigando-o na obra de intelectuais de esquerda do que de direita. Nesses últimos ele é tão escancarado que quase sempre nos contentamos em constatar o que é caricatural. Na esquerda é onde podemos achar o racismo agindo com todas suas sutilezas. Ele é tão mascarado e escondido que até duvidamos de nós mesmos quando o vemos. Mas se o descobrimos, entendemos como a coisa funciona.

O Ocidente é racista — desde que surgiu como ocidente. Por isso o racismo está na base da espiritualidade ocidental. Daí decorre que suas ciências são racistas. Lima Barreto percebe e registra isso em seus diários:

“A ciência é um preconceito grego; é ideologia; não passa de uma forma acumulada de instinto de uma raça, de um povo e mesmo de um homem.”

O mito da objetividade científica é uma forma de dominação, de subjugação, de colonização. Quando se diz que o sujeito deve ficar o mais distante possível do objeto, o que se diz, no fundo, é o seguinte: um filósofo, um cientista, um homem da ciência, não pode ser nem africano, nem asiático, nem indígena de qualquer continente, nem árabe, em suma,não pode ser um não-branco. A postura básica, com toda cultura e tradição e epistemologia, tem que ser a europeia, branca, cristã. Nenhum outro tipo deve “contaminar” o objeto em uma investigação científica, filosófica. Em qualquer sistema de dominação, a coisa dominante não é denominada, ela é travestida de de neutra, de universal, de “humana”. Já as coisas que precisam ser excluídas, que não pode nunca chegar ao status de dominante, elas recebem adjetivos, podem ser combatidas, ao contrário das coisas universais, que são “fatos”. Assim, a forma de saber que domina o ocidente, o conhecimento do europeu, branco, cristão, é chamado simplesmente de “ciência”, de “filosofia” (a propósito, o seu deu é chamado simplesmente de Deus), e as outras formas recebem adjetivos que podem ser refutados. Por isso o mito da neutralidade numa investigação científica ou filosófica, a única coisa a contaminar os objetos tem de ser a europeidade. Por isso Lima Barreto dizer que a ciência é um preconceito grego (a Europa se coloca como a herdeira da Grécia, o tal berço da civilização), ela não passa de uma coisa relativa a um grupo específico (mascarada de universal). Fique dito: isso não invalida suas conquistas, ela não ser universal não significa que ela não seja útil.

A esquerda, por todo Ocidente, se sustenta em ciências, em conhecimentos europeus. E como qualquer coisa ocidental, seu calcanhar de aquiles é o seu racismo — se for exposto, põe em cheque sua não universalidade. Em sua grande maioria de inspiração marxista, a esquerda tem como dogma colocar a luta de classes em cima de todo o resto. É uma teoria que desconsidera totalmente a questão racial, questão inventada pelo Ocidente e que nunca o abandonou. Assim, a fonte e a solução dos problemas gira em torno da luta de classes. O racismo, quando entra em jogo, é sempre subordinado ao problema de classes. Até o mais crítico do intelectuais de esquerda, em se tratando de brazil, vai dar uma maneira de subordinar o racismo à classe. Ora, aqui nesse país o salário de um preto pobre é 46% menor do que o de um branco pobre. O número de homicídio de mulheres branca caiu pela metade, o de pretas dobrou. Pretos em cargos de poder? Raro, quando muito é numa espécie de cota, para dizer “aqui também temos pretos”. Se a desigualdade social nos últimos anos diminuiu, foi entre os brancos. Entre brancos e pretos ela cresceu. É um problema de classe? Como se dentro de uma mesma classe a desigualdade social existe e é causada pelo racismo? Cuba, país socialista, que diz ter extinguido através do socialismo, é um país com racismo estrutural e sistemático (óbvio, seu sistema político é europeu), pretos são maioria esmagadora dos encarcerados, possui menos pretos no poder do que nos EUA. A URSS socialista exalava racismo tanto com pretos quanto com outros grupos étnicos. Até o Canadá, tão louvado por ser um dos países mais progressistas do mundo, é um monstro com seus indígenas. A desigualdade social que é reduzida quando o problema-cabeça é a classe é apenas a desigualdade dos brancos, dos europeus, dos colonos. Se se joga o racismo para escanteio, se é conivente com ele. O melhor governo desse país nosso, nada fez pelos pretos, senão ações demagógicas. Aos pobres brancos, resultados efetivos. Aos pretos, demagogia. Encarceramento, homicídio em massa, menos salários, sem espaço na mídia e no poder, os piores trabalhos. Tudo isso ainda continuou sendo o legado para os pretos. Porque a esquerda, que arroga para si as causas sociais e coletivas, joga para escanteio a questão racial, tem um vício (derivado de seu adestramento ao que é europeu) com o problema de classes. Assim, ao silenciar a questão racial, ela a fortalece o racismo. Por isso, se enche de maquiagem, de fantasias, banca o “senhor benevolente”, denuncia o racismo dos outros, nunca o seu.

Evidente que quem é suficientemente adepto das mentiras, dos engôdos ocidentais, vai achar que tudo que escrevi é uma bobeira, é loucura, não atende aos requisitos mínimos de seriedade ocidental. Dirão que sou financiado pelos EUA, pela fundação Ford, que sou reacionário ou conservador. Dirão que sou um idiota por contestar a universalidade do saber europeu e de seus dogmas. Não me importa. Quão bobo fui ao não perceber antes que todo conhecimento europeu se sustenta calando o conhecimento dos outros povos! A Europa, para manter seus domínios no mundo, precisa vender a todo custo a ideia de que só ela é civilizada, de que a história da humanidade tem ela como sua protagonista. E é por isso que a Europa é profundamente imoral. É moralista, mas não tem um pingo de moralidade. Sempre joga para debaixo do pano os atos mais desumanos praticados por ela. Ela nos faz acreditar que a arte e o pensamento devem prevalecer sobre toda desumanidade, sobre toda barbaridade. Assim, um professor nazista que dedurou seus colegas para o regime é considerado o maior filósofo do século XX, apesar do seu nazismo. Assim, a França, que escravizou, colonizou e assassinou milhares de pessoas no continente africano, é o país da revolução, o país da liberdade, igualdade e fraternidade. Monteiro Lobato, racista e eugenista incontestável, de um livro grotesco chamado “o presidente negro” é uma das figuras mais importantes do cânone brazileiro, mas Lima Barreto foi sempre desprezado por ser um alcoólatra. Quando se trata de algo Europeu ou europeizado,os pontos positivos devem prevalecer sobre os negativos. Se não se trata de algo europeu, então que seja excomungado, que seja banido. Assim, a esquerda vem fazendo sempre. Louva e coloca vários “apesar de” em tudo que é europeu, e escorraça o que não é. Carloos Moore, que critica a teoria marxista justamente por desconsiderar o racismo, é um vendido para os EUA, para o capitalismo, espião infiltrado, apesar de seu histórico em estar sempre com figuras dos movimentos de libertação da África e da própria Cuba. Dizem que nem merece ser lido. Mas Marx e Engels, que bateram palmas para a vitória dos EUA sobre o México e anexação de territórios, são gênios incontestáveis da humanidade, mesmo tendo seus “”desvios”.

Em sempre estufar o peito para lutar contra a opressão de classes, a esquerda colocou a luta contra o racismo em segundo plano — como toda boa teoria européia. Ao fazer isso, assinou seu contrato de racismo. Aqui no brazil pegam, as diversas esquerdas, os problemas do povo preto e generalizam, é tudo na mesma bacia que o proletariado, que o pobre. E no fim, em todo “progresso”, como se deu no Ocidente, os benefícios são sempre para os brancos, para a “raça” dominante. Os outros, os não brancos, servem apenas para compor número, mas suas questões sequer são levadas a sério.

Quem for ler isso, deixo esse link aqui como complemento. Conferi a maioria deles, antes que digam. Todos assassinados ou por europeus ou por colonizados cachorrinhos dos europeus. Maioria desses assassinatos não tem 60 anos.: https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/06/29/25-homens-pan-africanistas-assassinados-pela-direita-e-pela-esquerda/?fbclid=IwAR2hlNWqSx5USgJ10Og-xI_7g_F-Au8l5GpPzGp8gLCyb2NBIQRiw90RP0c