No meio do caminho

eu, talvez como você,
tenho pra mim que é preciso
uma mão amiga que entregue
justiça quando há desnível
e não, eu não acredito
na história da mão invisível.

outros, no entanto, acreditam,
e por um medo compreensível
da sujeira da mão visível
encontram na mutilação
uma saída irresistível.

seria esse então o fruto
de todo o nosso conflito?

meu lado imaturo diz “não”,
e grita que a culpa disso
é do outro, que rancoroso
aposta no egoísmo
mas e eu?

será que eu, como ele,
não percebo que estou errado?

será que eu, como ele,
defendo o indefensável,
escondo, desconfiado
contradições e incertezas
por trás do que penso e digo
e como ele, por medo
não admito?

partindo disso, percebo
que assim como reconheço
motivos e atenuantes
por trás dos mais graves delitos,
também preciso enxergar
a dor que alimenta os rancores
e os erros daqueles que ainda
me encaram como um inimigo.

hoje, à direita e à esquerda,
assisto caírem os mitos.
abandono a minha utopia
que assim como a deles, é burra
e espero, no meio da rua
ver vindo meu velho inimigo 
feliz, desarmado, sorrindo
e pronto pra andar comigo.

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