quinta-feira de manhã

Quando a xícara caiu por acidente e o café quente se espalhou pelo colo do Manoel, a primeira coisa que ele sentiu foi alívio. Era a primeira coisa real que acontecia com ele em várias semanas.

Deixou o café queimando aquela delicada região por algum tempo, encheu a xícara de novo, a ergueu à altura dos olhos e virou o café novamente sobre o colo. A dor foi ainda maior. Se lembrou de quando a mãe derrubou leite quente nas suas costas, ainda era pequeno.

E prosseguiu com seu banho de café quente pelo corpo no meio da cozinha até secar a garrafa. Levantou-se num salto empolgado da cadeira e apanhou um saco de açúcar no armário. Rasgou o pacote com os dentes e fez um montinho de açúcar no chão. O açúcar da base do monte escureceu por causa do café que caíra no chão.

Olhou diretamente para o pico do monte de açúcar e sentiu o vento frio e a tonteira que sentira sempre que se lembrava de todo mundo que o abandonou. Engasgou-se, segurou o choro e afundou a cara no monte de açúcar, lançando lambidas violentas. Em pouco tempo, o monte de açúcar se tornou uma meleca branca espalhada no chão e no rosto do Manoel, que agora, além de vermelho e dolorido, sentia vontade de chorar e vomitar.

O telefone tocou. Manoel avançou a passos confusos em direção ao celular, na sala-de-estar, e atendeu.

- Alô?

- Eu tô aqui embaixo há meia hora. Você vem comigo hoje ou não? Eu não tô podendo me atrasar.

Era um amigo que ofereceria caronas para o trabalho diariamente.

- Cinco minutos?

- Ok… Anda logo.

Manoel desligou o telefone, vomitou o açúcar e restos de outras refeições no tapete da sala e foi até o banheiro. No espelho, encarou com olhos molhados seu rosto vermelho e sujo da mistura grossa de restos de açúcar derretido, saliva grossa e vômito.

Lá fora, seu amigo buzinava.

Olhou para si mesmo novamente. Se viu queimado, com a cueca suja e molhada, e foi até a sala, apanhando a chave na mesinha e seguindo decidido até a porta, hesitando no último momento e voltando apressado para o banheiro.

- Ainda não, pensou, enquanto ligava o chuveiro.