Que faça chuva

foto: Marcus Arboés / Universidade do Esporte

Não sei qual dos deuses/santos, Zeus, São Pedro, Chaac, Frey… não sei realmente qual deles, mas aquele que fechou o tempo e derramou chuva sobre a cidade de Natal nesse feriado de semana santa, não brincou em serviço.

O que sei é que quem trabalha duro também não tem tempo para brincar nas horas sérias, nem de ficar se lamentando porque o céu está caindo e pela complicação que a chuva forte traz consigo.

O dia de trabalho do UDE no sábado já não era dos mais tranquilos. Tentei esvaziar a cabeça de qualquer tipo de estresse e dar o meu melhor, eu queria fazer as melhores imagens possíveis daquele momento, mas eu sabia que a chuva ia me atrapalhar e que eu ficaria de cabeça cheia por isso.

Quando senti os primeiros pingos de chuva caindo sobre meu rosto, primeiro protegi a câmera com uma camisa velha, depois fechei os olhos e tentei pensar no que eu estava realmente sentindo.

A chuva apertou e percebi que fazia tempo que eu não lembrava do quão divertido era estar de baixo de uma poderosa chuva, como quando eu ainda era uma criança em Teresina-PI (uma cidade bem quente kk) e comemorava as imparáveis chuvas de manhã à tarde com meus irmãos.

Além desse frio nostálgico, a sensação de desafio foi minha válvula de escape para lidar com a dificuldade de fotografar naquele temporal.

Ainda cedo as fotos estavam sob o meu controle, mas com a chegada da noite veio o cansaço e, além dele, outras consideráveis dificuldades.

Para quem tem equipamento de ponta, mais dinheiro para investir e mais experiência, lidar com isso é mais tranquilo. Mas para quem trabalha com uma lente que não tem uma abertura tão boa, as coisas são mais difíceis de noite, principalmente quando a iluminação do local não ajuda muito (imagine chovendo).

Eu me equivoquei. Com a chuva, a grama sintética ficou alagada e a iluminação na lua era refletida pela água no gramado, deixando minhas fotos ficarem mais claras e com uma captação de movimento menos problemática.

Ainda assim, não foi fácil. Minhas pernas doíam, e eu não tinha exatamente um lugar para ficar sentado em paz em algumas partidas. Meu joelho tremia um pouco, meu corpo estava encharcado, mas dava para sentir a garganta seca. A camisa que protegia meu equipamento estava quase ineficaz e, a cada vez que eu fechava um olho para focar no visor, a lente dos meus óculos, que já estava molhada, embaçava.

Cheguei na parte coberta do local, parei para sentar e respirar algo que não fosse o cheiro da grama molhada em volta das quadras, liguei a câmera e fui olhar as fotos que fiz.

Não foi o melhor resultado, mas eu gostei do que vi… ou fiz… não sei ao certo.

Eu sinto que, de certa forma, gosto quando as coisas estão difíceis. Sinto que essa parte do trabalho, que põe em risco nossa capacidade de fazer, é uma das que mais vão ficar marcadas na minha memória.

É muito bom ver que, até quando tudo parece bem complicado, você conseguiu fazer dar certo. Mesmo que não tenha sido o seu melhor, mas é incrível produzir algo significativo com aquela situação que você tinha nas mãos.