A boneca de pano

Já era estava quase na hora do almoço quando a porta bateu e Clarita entrou aos soluços.

-Bá! A Bia, Bá! A Bia…

A empregada que estava cozinhando esfregou as mãos no avental amarrado à cintura e foi correndo para o quarto da menina.

-Que foi Clarita? Que foi, menina?

Perguntou a mulher enquanto se sentava na beirada da cama.

-A Bia, Bá! A Bia morreu.

-Morreu? Cumé que morreu, menina? Boneca num morre.

-Morre Bá… Morre, sim.

A mulher era bastante corpulenta. Tinha papo, olhos arregalados, lábios carnudos e a pele cheirava, segundo Clarita, a tempero bom. Sua beleza era escondida por um lenço em cima dos cabelos crespos. Seu colo largo de cor chocolate, as mãos largas e os dedos compridos davam sempre abrigo à pobre garota.

-Morre não, Clarita. Boneca é feita de pano, num tem como morrer.

-Mas a Bia… A Bia…

Por causa dos soluços, a história nunca era contada.

-Faz assim, menina, bebe um copo d’água e conta a história pra sua Bá com calma.

A Bá, então, foi até a cozinha, abaixou o fogo que esquentava uma panela gigante, pegou um copo e levou até o quarto da menina.

-Então, fia, conta pra sua Bá. O que se sucedeu?

A menina limpou uma lágrima que caía do queixo, fez uma pausa e, com uma expressão frustrada, começou a falar.

-Foi igual minha mãe, Bá.

-Igual sua mãe? — Perguntou a mulher assustada.

-É! Não deu tempo de fazer nada. A gente tava brincando: eu de um lado e ela do outro; a gente tava tomando chá e uma bala, Bá, bala de revolver, acertou o peito dela. Eu não pude fazer nada. Aconteceu de novo, Bá! Eu não tive culpa, eu juro…

Por alguns segundos, Bá até parou de respirar. Quando voltou, deu dois fortes suspiros. Deitou a menina em seu colo e começou a carinhar os seus cabelos. Nada foi dito.

-Você tá chorando, Bá?

-Tô não menina, tô não…

-O que que eu faço, Bá?

-Fica aqui uns minutos, menina.

-Mas e a Bia?

-A Bia vai ficar bem.

-Mas minha mãe não ficou.

Bá voltou pra cozinha e desligou o fogo de vez. Sabia que a conversa ia demorar.

-Olha menina, sua Bia não morreu. Ela vai ficar bem. Só precisa de uma boa costura.

-Mas minha mãe não ficou, você não lembra?

-Lembro, Clarita, lembro.

-E por quê a Bia vai ficar?

-Porque ela teve sorte, menina, igual você.

Clarita parece ter entendido. Foi pro canto do quarto, pegou uma vassourinha e começou a varrer o chão.

-Quer me ajudar, Clarita?

-Não, Bá. Pode cozinhar, vou esperar as outras crianças aqui mesmo no nosso quarto.

-Tá bem, menina, fica aqui e, qualquer coisa, chama a sua Bá.

-Bá já tinha saído do quarto, estava quase no fim do corredor, foi, então, que Clarita gritou.

-Eu tenho sorte, né, Bá?

-Tem, sim, menina.

-É.. Eu vim morar com você.

Bá deu de novo um forte suspiro, balançou a cabeça e voltou pra cozinha. Tirou o avental do peito e limpou as lágrimas com o pano. Ascendeu o fogão novamente e, enquanto mexia uma sopa rala, repetia pra si mesma.

- Sorte… quem é que tem sorte em viver num lugar desses?