A falsa questão dos “defensores de bandido” e das “vítimas da sociedade”

Será verdade que o aumento da violência em um dado contexto é resultado apenas de escolhas individuais? Será verdade que levar em conta os contextos nos quais os indivíduos que fazem escolhas aprendem a escolher é considerá-los “vítimas da sociedade”? Será mesmo que uma pessoa de dez anos “já fez suas escolhas”, definitivamente?

Alguém que se tornou um bandido, agiu violentamente e morreu devido a isto já foi um bebê com um mundo de possibilidades pela frente. Antes que este bebê se transformasse em um “caso perdido” (se eles existissem, com certeza teriam muito mais de dez anos de idade), ele era um caso possível. Me perdoem ser repetitivo, mas deveríamos mesmo entender isto: antes de sermos alguém que faz escolhas, somos formados como alguém que deseja e escolhe de formas específicas. Se em algum lugar ou época mais pessoas estão escolhendo agir de maneira violenta, é porque as condições deste lugar ou época estão formando pessoas que escolhem assim — e jogando fora todo o potencial para que escolham de outra forma. De que adianta focarmos nas escolhas individuais e não na urgência de criar condições melhores para as vidas que ainda não perdemos?

Ou seja, não é questão de dizer que bandidos são “vítimas da sociedade”, é questão de entender que todo ser humano é, sim, a efetivação das possibilidades de sua sociedade. Tanto é verdade que todos sabemos isto, ao menos intuitivamente, que tomamos bastante cuidado com os ambientes e relações de nossos filhos; sabemos muito bem que eles não são naturalmente “bons” ou “maus”. Sabemos perfeitamente bem que a personalidade deles está em formação e que suas experiências da infância influenciarão suas escolhas.

Li um colunista afirmando que o menino de dez anos (que furtou um carro e atirou contra os policiais) “já fez suas escolhas”. O que há de tão autônomo, e, aliás, de tão irreversível assim, na “escolha” de uma criança? Olhem o quão cedo estamos dando os outros como caso perdido. Nossa sociedade pode ser dividida num espectro em que, de um lado, situamos aqueles a quem damos o justo direito de refazer suas escolhas mesmo após adultos, e, do outro, aqueles de quem já condenamos à morte ou culpabilizamos por estupro devido às suas escolhas de infância. De um lado, as vidas dignas de luto; de outro, as que (assim dizemos) morreram porque mereciam. Percebam também que, quanto mais branco e rico, mais próximo do primeiro lado você está. Se te parece que esta frase é um exagero, vitimismo, etc., sugiro mesmo que você a tome como uma hipótese e a teste nas próximas vezes que assistir o jornal. Ou procure estatísticas sobre o perfil médio de quem sofre assassinatos no Brasil.

(Só para esclarecer. Não estou discutindo se, no caso “do momento”, havia ou não outra saída por parte dos policiais que atiraram no menino. Nossa polícia, como instituição, é responsável por um verdadeiro genocídio, e os próprios policiais [mal treinados, mal pagos, em péssimas condições de trabalho etc.] são vítimas da lógica de guerra com que pensamos nosso uso da polícia, mas não sei nem estou discutindo os detalhes do atual caso. Meu problema aqui é não considerarmos que uma vida de uma criança não é digna de luto.)

Publiquei originalmente no Facebook.

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