Marcus Telles
Sep 3, 2018 · 3 min read

Um comentário adicional sobre esse texto. Duas coisas que ele não defende de modo algum: (1) o argumento liberal (no sentido usado nos EUA) de que o “livre mercado das ideias” dá conta de conter o crescimento de formas de vida fascistas; ou, como variante, uma forma de “tolerância com a intolerância”. (2) alguma forma de prescrição sobre como regular a própria rede afetiva.

Afirmativamente:

Sobre (1): a circulação de ideias e a possibilidade de argumentação só surge quando criadas as condições materiais e afetivas, e para isso é necessário bloquear ativamente (ainda que, prefiro, pacificamente) toda possibilidade de violência e opressão. Isso se faz negativamente usando o corpo, o discurso, os meios institucionais; mas não há fuga de se agir afirmativamente, construindo laços, redes, projetos, usando formas de afetar a sensibilidade coletiva. Se o bloqueio ativo das violências físicas e simbólicas é um dos requisitos para a circulação de ideias, outro requisito obviamente é o positivo, de que as pessoas *desejem* dialogar. E como o desejo surge mimeticamente, precisamos fazer isso antes, com quem já dá pra fazer. Se somos engolidos pelo ressentimento tão em voga, esquecemos desse poder de contágio — que, enfim, existe. Se existe, que vantagem, esperteza, potência surge ao negá-lo?

Sobre (2), o texto fala de uma postura básica diante dos seres, a partir da qual diversas configurações são possíveis. Há vários bons motivos para nos afastarmos de alguém, e o sentido do termo amizade usado aqui não nega isso. Mas creio, sim, que esses bons motivos são contingentes e portanto o afastamento pode partir de uma aliança fundamental com todo mundo. É por reconhecermos que todos querem ser felizes e todos fazem de tudo para ultrapassar o sofrimento que ativamente nos opomos a todo posicionamento que produz sofrimento aos seres. Podemos presumir uma aliança fundamental com todo mundo e nos opor a toda forma de opressão sem qualquer contradição.

De fato, o que fazem os machismos e racismos e fascismos senão manter essa hierarquia implícita dos seres? Se vamos abrir mão dessa hierarquia, por que adotar uma indiferença generalizada (exceto com os poucos seres com quem temos, na prática, uma conexão mais imediata) e não uma aliança generalizada? Com que base concluímos que não podemos nos aliar com alguns aspectos do ser e nos opor a outros? Como pode pessoas que fazem análises tão sutis de fenômenos sociais tomarem a abstração “Sujeito” como um único bloco monolítico e se contentarem em agir com base nela? Se o que nos impele a tal simplificação são os sentimentos de aversão que surgem, por que não incluirmos nossos próprios referenciais internos no conjunto de coisas que precisamos trabalhar para modificar, juntamente com instituições, estruturas, modos de produção? Tem algo atrapalhando — cognitivamente, inclusive— nossa capacidade de ação conjunta e vamos deixar por isso mesmo?

Isso não é negar as configurações da nossa rede mais próxima, mas reconhecer a interconexão mais profunda que afeta muito além da nossa rede. Digamos: temos amigos próximos, mas nossas ações enquanto humanidade continuam afetando toda a biosfera.

Então não vamos nos opor a nada? Sim, vamos nos opor, mas o que nos opomos são aspectos contingentes que chegaram aos seres por meio de socialização, hábitos, ações passadas, e não os resumem. Ao adotarmos oposição, que vantagem há em fazer uma falsa conflação entre os aspectos negativos do ser e todo o conjunto de potencialidades que existem nele?

Ou seja. Acho incrivelmente equivocado o raciocínio, que tenho lido com frequência muito alta, de que “temos que acabar com amizades com eleitores de Bolsonaro sim”. Porque esse raciocínio presume uma dicotomia falsa: OU sou passivo diante de intolerâncias OU uso a inimizade como única forma de ser ativo.

Daí, reconhecer que a dicotomia é falsa nos constrange a uma certa obrigação de como agir? De modo algum. Ela aumenta nossa margem de ações possíveis, apenas isso. Melhor me afastar porque achei melhor, se for esse o caso, e não porque era minha única opção moralmente válida.