15 anos, ontem de tarde

Cheguei em Brasília de uma vez só. Minha mãe, meu avô e meus irmãos vieram me deixar junto com minha TV de tubo, duas malas de roupas e algumas panelas. A república dos meus amigos já tinha um ano e duraria mais dois. Meus amigos (Gus, Lenira, Luana, Kazuo além do também recém-chegado Kenzo) e eu morávamos na 404 Norte. Às 12h, eu ainda moraria na 404 Norte. Às 13h, eu já morava.

Eu tinha à frente uma tarde e um almoço para fazer. Fiz macarrão, era o que eu sabia fazer. Fiquei de ir ao supermercado comprar outras coisas. Cerveja, hambúrguer, bife, pizza congelada. A ida ao supermercado, me passou da quadra para a outra quadra, onde ficava o Sebinho, que eu já conhecia. Ali, também havia o Havana Café, um restaurante cubano muito bom ao qual eu tive oportunidade de ir umas duas vezes até fechar — os donos foram para os EUA e eu fiquei amigo do filho deles mais tarde.

Dali, fui mais para frente, para a outra comercial. Naquela época, o Pôr do Sol era ladeado por uma mureta azul clara. O Meu Bar era maior e tinha uma mesa de sinuca sebenta. O Barkowski, o Vale da Lua, o Cenário e outros muitos bares de hoje em dia eram apenas depósito de algum outro lugar ou imóvel vago. No lugar da molecada da UnB, havia um monte de senhores velhos dali das imediações. Há muito tempo que não se vê uma banca de jogo do bicho ali. Fui para frente.

As comerciais seguintes rezavam à risca todo o gabarito que me passaram da paisagem brasiliense: vazio. Era o começo dos anos 2000. Poucos daqueles imóveis tinham mais de 10 anos de existência. No entanto, era a sombra das árvores que colocava todo e qualquer senso comum sobre Brasília em contradição. Meus pés faziam o papel de advogado destas partes.

Quando viajava para cá, a fim de fazer o PAS ou algum vestibular, o pessoal olhava pela janela do ônibus com ar condicionado e falava “Deus me livre andar nesse solão”. O trajeto sempre compreendia a zona dos hotéis, a Asa Norte pela L2 Norte e dali para Goiânia passando primeiro pela Esplanada e depois até um shopping para lanchar e vazar para casa conferindo as provas com os colegas.

Foi na 411 Norte, onde eu notei que as pessoas vinham para cá de passagem. Quem vem a Brasília mal saia do táxi ou do carro (do Uber, hoje em dia). Tinha singrado os pilotis e os gramados aos meus módicos 6 km/h (a velocidade é a mesma hoje em dia) e me via no meio de sombra de árvore intermitente. Era um maio mais seco que este pelo qual passamos. Mesmo assim, a temperatura era amena demais para o cerrado ali no estacionamento perto da Escola Classe daquela quadra — eu nem sabia que aquilo era uma Escola Classe… eu nem sabia o que era uma Escola Classe.

Segui além e fui até a 412/413 Norte. A quadra que hoje abriga diversos restaurantes era banguela. A paisagem era composta pelos blocos, buracos de fundações e descampados que eram feitos de estacionamento pelos parcos ocupantes dali. Ali, desde então, só o Bendito Suco, acho.

Além daquele descampado, o Parque Olhos d’Água. Relativamente recente, ainda recebia toques de paisagismo e manejo de material. Ou seja: ainda recebia toque de esterco. Ainda eram poucas as pessoas que iam àquele parque. Dei umas cinco voltas ali e fui voltando para casa pela passarela na parte superior da quadras 400.

Até hoje, é como se as copas daquelas árvores que ladeiam o caminho de cimento e formam um toldo verde de folhas me cumprimentassem de alguma forma… e sempre que estou em Brasília eu sou grato por isso.

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