A DISTRAÇÃO E O CUSTO BRASIL

por Marcus Freitas, 19/10/2016

Ontem caí num golpe. Recebi uma mensagem-isca no celular, muito bem arquitetada, e caí feito pato (já digo que caí no golpe, mas logo caí em mim, e bloqueei os efeitos do golpe, ainda bem). A técnica das mensagens fishing é a mesma da literatura policial: o narrador (o larápio) te dá uma pista falsa, mas que, por um truque de linguagem, te coloca na condição de se sentir inteligente por segui-la, e enquanto você se sente inteligente, percorrendo o caminho falso, acaba por cometer ali mesmo o erro fatal, caindo no conto do vigário. Está na sua cara, mas você não vê. Tem algo de hipnose, pois a técnica faz você se fixar no erro como acerto, e cometer como acerto o verdadeiro erro. A diferença é que, na ficção, essa distração e o consequente engano são uma forma de prazer; já na realidade, elas custam dinheiro, saúde mental, produtividade, felicidade.

Para não ser ludibriado, você precisa estar o tempo todo em alerta. Mas viver assim cansa, te indispõe com o mundo, te coloca na defensiva, aumenta a bile, te impede de trabalhar, de criar, de viver. Para mim, esta é a coisa mais terrível desse Brasil em que vivemos: a obrigação de estar em alerta, em alarme, todo o tempo. É como se fosse guerra. Minha casa tem alarme, meu carro tem alarme, meu telefone tem alarme, meu sonho tem alarme, e tudo isso custa muito. Viver alarmado é custoso. Tenho cá na memória o fragmento de um monólogo que vi Ziembinski, já velhinho, dizer com maestria num programa de TV. Trata-se das reflexões de um diretor de teatro. Segundo minha memória, o autor do texto deve ser o Vianinha ou o Paulo Pontes, mas posso estar errado, o que não importa aqui. Diz assim o fragmento: “o que é a morte gloriosa, comparada à vigília ininterrupta? Eu quero que esta frase bata na cara do suicida da terceira fila: o que é a morte gloriosa, comparada à vigília ininterrupta?” Essa vigília ininterrupta é o que oprime.

Caí no golpe (e ainda bem que me recuperei a tempo) porque estava distraído, estava feliz com um livro que estou escrevendo, e a frase me saía eficiente naquele momento. Estava distraído dos alarmes, da vigília ininterrupta. Mas, pensando bem, “estar distraído” é a melhor coisa do mundo, não é não? Que tragédia a de não podermos estar distraídos.

Paulo Leminski tem um verso fenomenal, também nome de um de seus livros, que diz “Distraídos, venceremos”. Seria bom que esse verso pudesse se tornar nosso lema, e que a distração não fosse punida pelo nosso destino social. Distrair significa “divertir”, “entreter”, e também “mudar o foco”, “mudar o destino”, “variar a atenção”, essas coisas todas que andam fazendo falta.

Riobaldo Tatarana, o jagunço de Guimarães Rosa, diz que “tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.” A frase é boa, e bem poderia sintetizar meu desejo. Mas, como sou um tanto agnóstico, faço outra: Civilização é a qualidade de uma sociedade em que se pode, de vez em quando, ficar distraído.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Marcus Freitas’s story.