CIDADANIA INTELECTUAL E CIENTÍFICA: O QUE DEVEMOS SABER NO SÉCULO XXI?

Conferência proferida em 22 de agosto de 2007 no ciclo Encontros Transdisciplinares do IEAT — Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG. Belo Horizonte, Faculdade de Letras da UFMG.

OBSERVAÇÃO EM 2017: Este texto foi escrito há dez anos, a pedido do IEAT/UFMG. Não tendo sido publicado imediatamente, circulou como handout pelas mãos de alguns pesquisadores, mas afinal acabou voltando para a gaveta e sendo esquecido. Hoje, dez anos depois, e com tudo o que aconteceu ao longo desse tempo, o texto ganhou um caráter premonitório, e por isso vale finalmente trazê-lo a um público maior.

Para Márcio Quintão Moreno, José Israel Vargas e André Augusto Rodrigues Salgado, pela inspiração.

INTRODUÇÃO

O título dessa conferência pode sugerir que o autor seja um praticante de artes advinhatórias, um astrólogo, um jogador de búzios, um xamã; na melhor das hipóteses, um escritor de livros de autoajuda financeira, um especialista em formação de preços do mercado de capitais, um consultor de TQC para empresas subdesenvolvidas; na pior delas, um revolucionário, que impõe sobre o hoje a miragem de um futuro hipotético, feito do desejo de poder no presente e do desprezo arrogante pelo passado. Não. Não sou futurólogo, nem futurista. Com certeza, recuso todas essas hipóteses. De vaticínios, não arrisco nem a previsão do tempo. Se vou aqui olhar para o futuro, é sobretudo a partir da visão do presente, mediada pela meditação sobre o passado.

A partir desse título, a mim sugerido como provocação pelo Professor Carlos Antônio Leite Brandão, diretor do IEAT, tento refletir um pouco sobre o campo específico das necessidades educacionais e do papel das escolas e das universidades na configuração dos campos do saber, na construção dos currículos e no desenho das profissões que respondam às necessidades do tempo que se afigura à frente. Dizendo de outra forma: tenho uma filha de seis anos, e tento apenas imaginar o que ela pode ser quando crescer, o que me obriga, como pai e professor, a imaginar que escola, que saberes e que currículos ela necessitará para aprender e para desenvolver possíveis talentos, habilidades e profissões que a habilitem a viver bem, contribuindo para si mesma e para a sociedade na qual viverá.

O ensaio que proponho depende antes da conformação de um possível cenário em que aqueles talentos, habilidades e profissões possam ser imaginados. Devo, portanto, dizer que penso a partir da realidade brasileira e da esperança de que o país supere o seu complexado subdesenvolvimento, o seu gosto ressentido pela derrota, o seu proto-socialismo, o seu estatismo, o seu idealismo subjetivo, que leva a uma recusa dos fatos e a um culto das sombras, para usar a imagem platônica da caverna, e que, ao superar todos esses obstáculos, caminhe para ser uma sociedade econômica e socialmente liberal, juridicamente ordenada, baseada em democracia representativa, liberdade de expressão, livre iniciativa, respeito ao lucro, à propriedade e à individualidade, com sentido de continuidade entre passado e presente. Devo, entretanto, dizer que esse não me parece o cenário mais provável. Temo por um futuro em que as habilidades requeridas sejam as de guerra; o talento incensado seja o de propagandista; e a profissão mais reconhecida seja a de comissário. Ainda assim, como forma mesmo de combater a visão sombria, prefiro imaginar o melhor cenário, e dentro dele os talentos, as habilidades e as profissões requeridos para uma vida digna e plena, ao mesmo tempo em que sou levado a imaginar qual o percurso intelectual e científico a ser feito para alcançar um cenário assim desenvolvido.

E se falei em ensaio foi no sentido mesmo que Montaigne atribui ao termo, o de uma reflexão vacilante, feita de errância e contradição. Diz o filósofo, no capítulo 2, do Livro III dos Ensaios, ao discorrer sobre a condição humana: “Não posso fixar meu objeto; ele vai, confuso e titubeante, com uma ebriedade natural. Pego-o em qualquer lugar, como está, no instante em que com ele me divirto.; não descrevo o ser, descrevo a passagem.”[1]

FOLCLORIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

Parto, então, de uma imagem que muito me impressionou recentemente. Trata-se de uma cena que presenciei há cerca um mês, quando estava de férias em Porto Seguro, na Bahia. Na ocasião, subi com um grupo de amigos à cidade histórica para apreciar as construções coloniais e a vista do mar. Em meio ao pequeno casario, um garoto de mais ou menos oito anos de idade, claramente um indiozinho, fazia as vezes de vendedor numa barraca de bugigangas artesanais destinadas ao consumo dos turistas ávidos de cor local. Pentes de coco, colares de sementes e arranjos de penas na pobre banquinha não tinham para o garoto, que ali agia como vendedor, o menor interesse. Os turistas provocavam-no para saber preço e material dos objetos, mas ele nem respondia, absorto que estava em palmilhar, com verdadeira sofreguidão e intenso interesse, um game boy, de onde saía aquele inconfundível som de quinquilharia eletrônica.

O ministro da cultura, muito possivelmente, veria na cena um emblema do mundo “parabolicamará”; antropólogos talvez vissem ali a aculturação forçada e brutal do indefeso índio; sociólogos talvez chamassem a atenção para a exploração do trabalho infantil; militantes políticos com certeza gritariam contra o que chamariam de uma imposição do capital sobre o modo de produção e de vida da pequena comunidade. Para mim, a cena teve um outro efeito muito específico. Ela se me assemelhou a um pastiche da afirmação célebre de Joãozinho Trinta: “Quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo”. O garoto, com seu gesto e postura, parecia dizer: “Quem gosta de artesanato é intelectual; artesão gosta é de tecnologia”.

A cena tem algo de insólito: trata-se do deslocamento da personagem em relação ao próprio contexto. Os turistas em busca de quinquilharias, em sua maioria pessoas do sul-sudeste do Brasil, socialmente bem formadas, educadas, além de economicamente estáveis — uma ilação óbvia da sua condição de turistas, desejavam a todo custo reiterar sobre o garotinho o seu estatuto de membro de uma comunidade que ainda vive na era da pedra polida, mas o curumim saltou no tempo e se revelou integrado no circuito do mundo digital. O índio não quer apito, quer um palm top, mas está reduzido à versão igualmente grotesca da tecnologia, qual seja, o brinquedinho eletrônico fabricado na China e contrabandeado do Paraguai.

A cena fala de uma realidade grotesca: a folclorização do conhecimento. Os turistas sinistros traduzem uma visão prêt-à-porter do conhecimento e uma redução desse conhecimento a simples cultura de massa. Mas não é só isso. Ainda há bem mais na personagem intrigante do indiozinho.

O garoto está na idade do aprendizado. Deixá-lo à mercê do trabalho infantil constitui com certeza um crime, mas crime ainda maior é o de relegar a sua avidez de aprendizado a uma visão folclorizada que lhe nega a verdadeira integração na sociedade do conhecimento. A sua atenção ao game boy revela um interesse genuíno que não pode ser desprezado por nenhum sistema de ensino e por nenhuma sociedade que queira se desenvolver profundamente. O curumim, na cena que presenciei, era vítima de duas formas de folclorização: a dos turistas, reiterando o seu lugar exótico para consumo massificado, e a que vinha do brinquedo, a revelar que o seu potencial de aprendizado está sendo desperdiçado, ao invés de canalizado para o seu crescimento e o de sua comunidade da pedra polida.

Esta deve ser a nossa primeira tarefa intelectual em relação à educação no século XXI em um país como o Brasil: combater uma visão folclórica do saber, sobretudo quando o recurso a uma reentronização perversa do senso comum, manipulado como estratégia de combate ao saber científico e instrumento de poder, constitui a ordem do dia na chamada cultura pós-moderna.

Para compreender essa estratégia irracionalista e pós-moderna, que redunda em populismo e folclorismo, vale investigar um pouco as suas fontes. Muitos seriam os lugares nos quais poderíamos buscar o manancial do irracionalismo contemporâneo. Poderíamos partir, por exemplo, de Fritjof Capra, ou de Bruno Latour, ou de Ilya Prigogine, ou de vários outros lugares críticos. Escolho um outro ainda, qual seja, a obra do sociólogo new age Boaventura de Sousa Santos. Nem tanto ao acaso se dá a minha escolha, uma vez que acompanhar as ideias desse guru do Fórum Social Mundial parece importante, já que o atual projeto de reforma universitária em curso no Brasil, e que vem sendo emulado em outros lugares, deriva, na palavra de seus propositores, diretamente das ideias de Boaventura sobre as ciências, as quais estão explicitadas em vários de seus textos e que poderiam ser simplificadas dizendo-se que se trata de um investimento político no senso comum enquanto estratégia de combate ao saber científico.[2] As ideias mais recentes do sociólogo sobre a universidade que considera ideal foram expostas em conferência de 2004, proferida em alguns lugares no Brasil, dentre eles a UFMG, que se intitula A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade.

Entretanto, as noções de fundo dessa conferência devem ser buscadas num texto datado de 1986, intitulado Um discurso sobre as ciências,[3] fundamental para entendermos o projeto irracionalista de uma “ciência pós-moderna”, para usarmos o termo do autor. Dizendo de outra forma, para meditar sobre o que saber no século XXI, sobretudo na paisagem do Brasil, necessitamos antes de compreender as vicissitudes da ciência sob a ótica do discurso que sobre ela tem feito a pós-modernidade desconstrucionista, o qual tende a uma dissolução da racionalidade nas malhas do interesse político, com o aparecimento de uma “racionalidade prática”, e a concomitante substituição da busca dialética e lógica do saber pela manipulação puramente poética e retórica do discurso, para usarmos aqui a distinção aristotélica dos quatro níveis de discurso.[4] Nesse contexto, as contribuições da teoria da literatura, campo específico do poético e do retórico, fazem-se sentir com toda a sua força, de resto um força apontada pelo próprio sociólogo de Coimbra.

A NOVA GNOSE, POR BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

No texto de 1986, Santos postulava uma crise do paradigma científico, assim colocada: a) “a crise é profunda e irreversível”; b) “estamos a viver um período de revolução científica que se iniciou com Einstein e a mecânica quântica e não se sabe ainda quando acabará”; c) “os sinais nos permitem tão-só especular acerca do paradigma que emergirá deste período revolucionário mas que, desde já, se pode afirmar com segurança que colapsarão as distinções básicas em que assenta o paradigma dominante” (p. 22).[5] A contradição absolutamente explícita entre, por um lado, a certeza do que reserva o futuro — dada pelas afirmações, feitas “com segurança”, diz o autor, de que colapsará o paradigma e de que a crise é profunda -, e, por outro, a incerteza especulativa, baseada em sinais, ao lado da consciência de que não se sabe em que vai dar a atual revolução científica, já mostra quão frágil é a argumentação do autor. Entretanto, a colocação confusa é suficientemente forte para percebermos que o seu único interesse está em demolir o referencial científico, sem apresentar no lugar nada de concreto, a não ser o desejo de outra ordem de discurso que faça a racionalidade submeter-se a uma razão prática, de ordem política. Se não, vejamos.

O autor parte do princípio de que a nova gnose (sic) nascerá do reconhecimento da irrelevância da matemática e dos modelos matemáticos para a autonomeada “ciência pós-moderna”. Segundo ele, o lugar central da matemática na ciência moderna significou que nesse modelo de ciência “o rigor científico afere-se pelo rigor das medições”. Dessa premissa verdadeira, ele deriva sofisticamente a ideia de que a aproximação do conhecimento humano de realidades físicas microscópicas e galácticas, procedimento no qual a capacidade de medida estava comprometida pela rudeza dos instrumentos, provariam a falácia do instrumento matemático. Segundo ainda o autor, o modelo matemático e a busca de segmentação do objeto de análise em favor do rigor da medição serviram apenas como instrumento de dominação burguesa: “sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário” (p.10). Em outras palavras, também do autor: “No plano social, é esse [o modelo matemático e a aferição rigorosa] também o horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia que via na sociedade em que começava a dominar o estádio final da evolução da humanidade” (p. 17). Generalizando o mecanicismo, o autor toma-o como metáfora da ascensão burguesa e ataca um e outro dizendo que “esse modelo de racionalidade hegemónica […] a pouco e pouco transbordou do estudo da natureza para o da sociedade”. Aqui suas provas derivam tanto de Comte e de Spencer, quanto de Bacon e de Montesquieu (p. 18).

Entretanto, Boaventura deseja fazer o mesmo transbordamento, apenas com sinal contrário. Segundo ele, uma nova aliança (para usar o termo de Ilya Prigogine, similar à “nova gnose” de Boaventura) entre ciências naturais e sociais deve ser presidida pelas ciências sociais. A partir daqui, a ideia de rigor matemático passará a ser questionada pelo que ele chama de “outras formas de rigor alternativo” (sic). E esse rigor alternativo passa a ser da ordem da analogia e da metáfora. De fato, diz Boaventura, “a ciência pós-moderna é uma ciência assumidamente analógica”. Coerentemente com sua inconsistência, o autor lê a ciência moderna apenas como metáfora, como discurso, no caso como metáfora da ascensão burguesa. Essa redução permite que, retoricamente, ele faça o percurso inverso e substitua virtualmente a ciência ao substituir as metáforas, desqualificando o rigor científico e substituindo-o por um discurso claramente literário, enquanto estratégia a favor de um modelo utópico de sociedade.

Essa torção retórica está assentada, a la Jacques Derrida, em quatro metáforas fundamentais, jogo, palco, texto e biografia, e produz assertivas do seguinte tipo: “Não virá longe o dia em que a física das partículas nos fale do jogo das partículas, ou a biologia nos fale do teatro molecular ou a astrofísica do texto celestial, ou ainda a química da biografia das reacções químicas” (p. 45); ou, ainda, que a nova física explica “o comportamento das partículas através dos conceitos de revolução social, violência, escravatura, dominação, democracia nuclear”; e ainda nos remete a ideias tais como “cooperativas de células” (p. 41). Note-se que o relativismo interessado, que aí se constrói, busca metáforas nos elementos microscópicos e na escala cósmica, onde os nossos instrumentos de medidas são ainda precários. Ou seja, da dificuldade de conhecer, o autor deriva a inutilidade de conhecer, e prefere simplesmente transformar o mundo à vontade e semelhança de seu projeto político. O seu relativismo implica que a ciência não deverá guiar-se pela razão descritiva dos fatos, cujo modelo é, sobretudo, matemático, mas pelos interesses de “grupos sociais concretos, com projetos de vida locais” (p. 47). Aí está a sua racionalidade prática e o seu “rigor alternativo”.

Em última instância, diz o autor que “… a ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para considerá-la melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. A razão porque privilegiamos hoje uma forma de conhecimento assente na previsão e no controle dos fenômenos nada tem de científico. É um juízo de valor” (p. 52). O autor acusa a ciência moderna justamente daquilo que ele faz: o ato deliberado de impor juízos de valor sobre o conhecimento e de, de modo neopositivista, querer estender pressupostos da sua ciência social e de seu lugar epistemológico sobre uma ordem de conhecimento tão distinta da sua. O pior é que, se esses juízos são interessados, a possibilidade de conhecer o mundo e os fatos do mundo cede lugar ao interesse político e ao jogo discursivo que tudo reduz à poética e à retórica. Como síntese, arremata Boaventura de Sousa Santos: “O discurso científico aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária. De algum modo, a crítica literária anuncia a subversão da relação sujeito/objeto que o paradigma emergente pretende operar” (p. 54). Ao incorrer no neopositivismo, Santos não se atenta para o fato de que seu discurso sobre a ciência de esfacela exatamente pela miragem do paradigma único. Por óbvio, não se deve desqualificar a poesia, a filosofia, a arte ou a religião enquanto formas de explicação do mundo, não estou entre os que pensam que a literatura morreu. Trata-se sim de entender que os campos são diferentes, e que a transdisciplinaridade, no caso de Boaventura de Sousa Santos, está apenas sendo usada como fachada para uma indisciplina irracionalista.

Voltarei à comparação com a literatura mais à frente. Antes cabe ainda lembrar que entre os instrumentos de desqualificação da razão científica está o apelo político ao senso comum. Segundo o próprio autor, o senso comum é prático e pragmático; é transparente e evidente; é superficial, é indisciplinar e imetódico; aceita o que existe tal como existe; e, ainda, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, e sim persuade. Todas essas características são, no entender do autor, virtudes antecipatórias do senso comum em relação ao autonomeado paradigma emergente. Ou seja, a lisonja ao senso comum é a mais requintada estratégia da desconstrução pós-moderna em direção aos seus projetos de poder. Aqui a folclorização do conhecimento, a que me referi no começo dessa conversa, fica absolutamente evidente.

Cabe também lembrar que, elaboradas em 1986, as ideias desse texto de Boaventura de Sousa Santos permanecem validadas, pelo próprio autor, através do conceito de “ecologia de saberes”, utilizado na conferência de 2004 para exemplificar o relativismo do seu conceito de ciência, agora não apenas estruturado como modelo teórico, mas transformado em experimento prático na direção do projeto de reforma de ensino que estamos vivendo.

SOKALIZAR É PRECISO

As ideias antes expostas tornam-se ridículas se confrontadas com alguns dos avanços científicos a que assistimos nas duas últimas décadas e revelam que os argumentos de Boaventura Santos não possuem qualquer interesse na verdadeira construção de um cenário possível sobre o futuro, mas sim na imposição de um futuro desejado, a contrapelo dos fatos. E não se trata aqui, como se diz popularmente, de chutar cachorro morto. Seria fácil, com o distanciamento histórico, simplesmente atacar os desacertos do autor. Lembro, entretanto, e uma vez mais, que as suas ideias estão na ordem do dia em nosso país.

A primeira constatação sobre o texto está relacionada à absoluta impropriedade de se falar sobre uma ciência analógica no século XXI. O mundo digital e informatizado destrói de maneira tão acachapante essa ideia que ela fica reduzida ao que sempre foi desde o princípio: apenas uma metáfora pouco eficiente para o irracionalismo do autor.

A segunda constatação sobre o falacioso texto de Santos está na assertiva sobre a falência do modelo matemático. Se pensarmos nos avanços da biologia, e no fato de que a biologia se apresenta como o lugar científico por excelência no século XXI exatamente por estar conseguindo construir modelos matemáticos de processos biológicos, fica claro uma vez mais que a crítica do sociólogo aponta não para uma crise da racionalidade científica, corporificada no modelo matemático, mas apenas para as intenções anticientíficas e irracionais do mesmo autor. Se consultarmos, a título de exemplo, o número 28 da revista ComCiência, publicação eletrônica do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP (Labjor),[6] datado de fevereiro de 2002, e intitulado Modelagem matemática — o contido e o residual, teremos uma pequena amostra da vastidão de novos campos em que os modelos matemáticos têm sido aplicados: agronomia, pesca e piscicultura, saúde pública, controle de epidemias, proteção ambiental, medicina, futebol, música, dinâmica de populações, demografia, biologia molecular, matemática biológica, entre outras.

A terceira constatação sobre a falácia daquela ciência pós-moderna advém do fato de que as nanotecnologias e os novos telescópios, por exemplo, demonstram que a nossa capacidade de medir e de controlar processos em escalas diminutas e gigantes cresceu e foi levada a um ponto que nunca poderíamos antes imaginar, trazendo como consequência a revelação da impropriedade de se tirar ilações sociais do que antes era apenas a limitação dos nossos instrumentos de medida.

Em quarto lugar, não há como não se opor à ideia tola de que o modelo científico moderno seja totalitário por ser matemático e rigoroso. Não é o que demonstram os fatos históricos. Se o autor busca ler o conhecimento das ciências naturais como metáfora social, e daí o seu apelo pelo combate a um suposto totalitarismo do modelo matemático, cabe voltar o uso metafórico contra suas próprias afirmações e mostrar que a ciência moderna, com sua expansão do conhecimento e a paralela transformação desse conhecimento em tecnologia, seja ela médica, de comunicação, de engenharia, de diversão, etc, está entre as maiores contribuições do engenho humano para a verdadeira libertação de populações inteiras. Basta ver o que uma internet livre é capaz de fazer de desarranjo em países autoritários. Os fatos mostram que os países e as sociedades que se pautam pela confiança na ciência estão entre os que proporcionam aos seus cidadãos os melhores e mais amplos exercícios de liberdade, para não dizer de qualidade de vida.

Em quinto lugar, nada mais falacioso e politicamente interessado do que inverter a equação entre o conhecimento científico e o senso comum. Como mostra Maurício Abdalla Guerrieri, em artigo sobre o caso Sokal, é “… a Ciência que vai conformando o senso comum por educação e hábito e isso não é um processo natural”.[7] Não há um senso comum que seja infenso ao saber científico e que possa ser tomado como modelo anterior para a ciência. Esse fato esclarece ainda mais o puro viés interessado da inversão e do neopositivismo político das metáforas propostas por Santos.

Cabe dizer, portanto, que a alegada crise de paradigma não era profunda nem irreversível, e ainda que os pressupostos das ciências não iriam necessariamente ruir, como praguejava folcloricamente Boaventura Santos em 1986, e continua vaticinando hodiernamente.

Mencionar aqui o caso Sokal reveste-se de grande importância, sobretudo porque estamos na Faculdade de Letras, lugar da crítica literária, aventada por Santos como sendo o modelo de racionalidade da nova ciência. Apenas para lembrar, uma vez que o caso é rumoroso e do conhecimento de todos, Alan Sokal, nascido em 1955, é professor de física e matemática na New York University. Em 1996, ele submeteu para publicação na Social Text, revista de literatura e de estudos culturais publicada pela Duke University, o texto intitulado Transgressing the boundaries: towards a transformative hermeneutics of quantum gravity.[8] Tratava-se de uma paródia ao discurso da crítica pós-moderna, feita nos moldes das humoradas lições de Stephen Katz em How to speak and write postmodern.[9] Uma vez aceito o texto, sem que os editores dessem pela paródia, sobretudo porque o texto vinha assinado por um físico conceituado, Sokal enviou concomitantemente à revista Lingua Franca o texto A physicist experiment with cultural studies,[10] em que desmascarava o próprio texto e expunha a falácia do discurso pseudocientífico de parte específica da teoria literária e cultural. O caso teve e tem ainda largos desdobramentos, dentre eles a publicação por Sokal e Jean Bricmont do livro Imposturas intelectuais, em 1999.[11]

Para nós, que fazemos teoria da literatura, essa história tem um valor especial. Duke era, e ainda é, o centro mais ativo dos estudos culturais nos Estados Unidos. Basta lembrar que ali são professores de literatura Frederic Jameson e Frank Lentricchia, dois dos expoentes dos estudos culturais. Na metade da década de 1990, Duke atraía pessoas de todo o mundo com o seu foco nos estudos culturais e fazia irradiar suas ideias por todos os campi universitários americanos. Eu mesmo tive de fazer essa escolha. Em 1996, tendo sido aceito para fazer doutorado em Duke e na Brown University, optei intuitivamente pelo caminho da Nova Inglaterra, onde, vim a saber depois, David Hirsch já havia publicado, em 1991, cinco anos antes do Sokal Affair, o livro The Deconstruction of Literature: criticism after Auschwitz,[12] que desmonta um por um os argumentos irracionalistas que vão de Heidegger a Lentricchia, passando por Derrida, Barthes, Paul de Man, Foucault e Jameson, entre outros, além de mostrar as enormes consequências do desconstrucionismo não apenas para a teoria e a crítica literária, mas para as ciências humanas como um todo. David Hirsch mostra como o relativismo desconstrucionista, versão desdobrada do relativismo niestzscheano, fundamentou a episteme dos regimes totalitários do século XX, com destaque para o nazismo.

As contribuições da teoria da literatura para o desconstrucionismo em geral podem ser resumidas da seguinte forma: a literatura constitui uma forma de discurso que opera no campo da virtualidade e da verossimilhança. Seus argumentos não se localizam no campo das distinções entre verdade e mentira, entre falso e verdadeiro, entre essência e aparência, mas no campo do imaginário e da persuasão. A mimese é a arena do possível, da potência que se atualiza em ato, para ficar com a explicação aristotélica. Estudando teoria da literatura, podemos aprender como funciona e como fazer funcionar a virtualidade no lugar da realidade.

Não é outro o motivo pelo qual Platão, na República, coloca sob suspeita a mimese, não em função de tê-la como um discurso menos válido, mas porque a sua potencialidade, sendo enorme, pode influir sobre as almas menos educadas. De fato, Platão correlaciona a teoria da mimese com a definição das partes da alma. A alma divide-se, diz o filósofo, em três partes: a racional, a irascível e a concupiscível. Celina Figueiredo Lage explica a divisão: A melhor parte da alma é a racional (logistikón), justamente aquela que mede, que pesa e que calcula. Ela é simetricamente oposta à parte concupiscível (epithymetikón), a pior parte, que julga sem medida. A mimesis convive justamente com essa parte da alma contrária ao bom senso.[13] Sob esse ponto de vista, a mimese, ou seja, o discurso poético, deixa vir à tona a dimensão irracional da alma. Diz ainda a comentadora: “os homens que vivem na caverna acreditam ser a mímesis a realidade, porque estão impedidos de vislumbrar os procedimentos miméticos”.[14] Educar os homens para que saiam da caverna em que se encontram passa assim por uma educação para o reconhecimento dos procedimentos miméticos. Platão, entretanto, deixa aberta a possibilidade de uma visão positiva da mimese, ao mostrar que a caverna não é apenas uma condenação humana, mas um lugar de passagem para o conhecimento. Há portanto ligação entre a parte concupiscível e a parte racional da alma. A poética é parte fundamental do nosso aprendizado. O problema não estaria na mimese em si mesma, mas na redução do mundo à pura mimese.

Partindo desse ponto de vista, Aristóteles, o primeiro teórico formal da literatura, recupera positivamente a poética para a teoria do conhecimento, ao integrá-la, numa escala ascendente, a um sistema de discurso que incorpora a poética, a retórica, a dialética e a lógica, como demonstra a análise proposta por Olavo de Carvalho sobre os modos de discurso em Aristóteles.[15] Essa linha ascendente responde em grande parte à psicologia da mimese, tal qual posta por Platão, na qual a escala ascendente vai igualmente do poético ao lógico. Não há, para Aristóteles, contradição entre aqueles discursos, mas complementaridade: a poética é o campo da imaginação, onde podemos dar vazão a todas as irracionalidades, enquanto forma de inventar e ampliar visões sobre o mundo e sobre os seres; a retórica é o campo discursivo da formulação das hipóteses, onde, a partir do voo mimético, escolhemos uma visão, uma ideia, que passa a ser temporariamente aceita como discurso verdadeiro sobre o mundo. Em resumo, o campo da retórica é o da formulação de hipóteses através das linguagens; a dialética é o teste da hipótese diante dos fatos. Uma boa definição de verdade é esta: uma ideia que passa no teste dos fatos; o último estágio do conhecimento é o da lógica. Uma vez testada a hipótese pela dialética, a lógica é o discurso capaz de, por pura abstração, verificar a veracidade ou não das nossas hipóteses retóricas, nascidas do voo poético e testadas na dialética do embate com os fatos.

A poética, assim, é o nosso primeiro e fundamental voo em direção ao conhecimento. Sem esse voo não há hipótese a ser testada, nem fatos a serem contrapostos, nem rigor lógico a ser comparado. Há que se ensinar muita poesia e reafirmar o lugar do poético na escala do conhecimento. Mas se nos atemos somente à mimese, ficamos presos à caverna, e deixamos o governo das nossas almas àqueles que sabem reconhecer os procedimentos miméticos.

Ora, outro não é o caminho percorrido por parte da filosofia em nosso mundo contemporâneo, de Nietzsche para cá: uma recusa sistemática dos estágios da dialética e da lógica, e um investimento decidido no arrebatamento poético e na persuasão retórica. Com pouco tempo, os regimes totalitários do século XX descobriram que esse era um instrumento decisivo para manter os homens encarcerados no fundo da caverna.

A teoria da literatura, com seu instrumental de reconhecimento dos procedimentos miméticos, passou então a ser um discurso chave na construção epistemológica do desconstrucionismo contemporâneo, neto direto de Niestzsche e filho de Heidegger. Menos um lugar de conhecimento, e muito mais um lugar de apropriação da força poética como instrumento de poder e de controle, à revelia dos próprios estudiosos de literatura e dos próprios filósofos. Não à revelia de todos, diria David Hirsch, ao apontar as relações políticas e afetivas entre Heidegger, Paul de Man e Derrida, entre outros, com o nazismo.

Poderíamos dizer então que, em oposição à tese do controle do imaginário pela razão a partir do século XVI, tão bem colocada por Luiz Costa Lima, assistimos hoje a uma verdadeira metafísica do ficcional, uma tentativa de controle da razão pelo imaginário manipulado poética e retoricamente. O próprio Costa Lima já alertava para essa derivação estranha da teoria da literatura, ao criticar a mistura barthesiana entre crítica e ficção, modelo de crítica literária adotado e aplaudido por Boaventura de Sousa Santos. Da mesma forma, Santos recorre ao senso comum porque ele “não ensina, e sim persuade”. Penso que aqui fica claro como a teoria da literatura, um campo aparentemente inerte no que concerne às questões das ciências e do conhecimento no mundo contemporâneo, pode ser vista como estando no olho mesmo do furacão irracional.

O ataque feito por Sokal a essa vertente da teoria da literatura atingiu um campo muito maior do que talvez o próprio autor tivesse consciência. Dirigindo-se à Social Text, Sokal enxergou o desconstrucionismo e atingiu a síntese da questão contemporânea nas ciências humanas e sociais, com desdobramentos na teoria do conhecimento e na apreensão das ciências naturais, que poderia ser assim colocada: reduzimos o campo do conhecimento aos seus dois estágios iniciais, poética e retórica. Essa redução deixa a porta aberta a todas as formas de projetos de força e de aventuras autoritárias. Desmontar essa equação de dentro mesmo do campo dos estudos literários seria uma contribuição que nós, estudiosos de literatura, deveríamos dar às ciências contemporâneas, sob pena de nos tornarmos obsoletos se não o fizermos. Há, portanto, que se praticar o verbo sokalizar.

Ouso dizer que, do ponto de vista de uma parte da produção de conhecimento no campo das ciências sociais e humanas, estamos vivendo em plena caverna, com o agravante de que temos os instrumentos para dali sair, mas preferimos contemplar folcloricamente a virtualidade, agora tecnologicamente alcançada, com o gozo do garoto que joga video game como se ele fosse a vida.

A nossa grande tarefa intelectual no século XXI parece-me ser a de um novo combate à sofística, essa sofística reentronizada no desconstrucionismo contemporâneo. Para que a cidadania científica seja alcançada, deveremos buscar a cidadania intelectual de um novo combate à sofística, irmã siamesa da tirania.

CIDADANIA CIENTÍFICA: UM CURRÍCULO PARA O FUTURO?

Uma vez colocado e equacionado o problema da cidadania intelectual, poderíamos então imaginar uma cenário em que a ciência possa se desenvolver livremente. E aí se coloca uma questão: nossos currículos escolares e nossas profissões, tais como hoje organizados nas instituições de ensino, podem fazer frente ao desenvolvimento das ciências? A resposta imediata é não.

Nossos currículos escolares foram formados no final do século XIX e baseiam-se na ascensão de um conjunto de ciências durante aquele século: por um lado, a ascensão do discurso histórico e do alargamento dos interesses geográficos, consequência direta da expansão europeia; por outro, o desenvolvimento da química, da física e da biologia. Somadas essas disciplinas aos recursos básicos da matemática elementar, da língua materna e de uma língua estrangeira, essa cesta de conhecimentos permanece até os nossos dias como o desenho básico dos nossos currículos do ensino fundamental e médio. Esse currículo se espelha, por exemplo, nos exames vestibulares das nossas universidades, como se nada de novo tivesse acontecido ao longo do século XX, das transformações climáticas e ambientais ao crescimento vertiginoso das populações, sem levar em conta a invasão da nossa vida pela economia, pelo direito, pela computação, pela informática, pela biologia aplicada, pela engenharia dos materiais, entre outros ramos do conhecimento. Convidar alguma daquelas sete disciplinas do nosso moderno bivium (línguas e matemática) e do nosso quintivium (história, geografia, física, química e biologia) a deixar espaço a qualquer outra disciplina é o mesmo que um convite à guerra, pois cada uma delas poderia estar diante da necessidade de reconhecer que podem ter perdido algum espaço, em função das transformações do mundo.

Se tomarmos a teoria aristotélica dos quatro discursos como uma espiral de conhecimento, poderemos imaginar uma reinvenção do trivium (gramática, lógica/dialética e retórica) e do quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia), preparatórios dos estudos filosóficos e teológicos, que se adequasse aos nossos dias. Poderíamos imaginar uma lógica de aprendizado que incorporasse de maneira interdisciplinar cada um dos níveis de discurso aristotélico, numa espiral em crescendo, em que cada patamar ao mesmo tempo incorporaria disciplinas novas e alargaria as anteriores. Teríamos algo da seguinte ordem:

1) Pré-Escola: Poética (campo da imaginação) — poesia, música e desenho;

2) Ensino Fundamental — 1ª Parte: Retórica (campo das linguagens e da formalização de hipóteses) — língua materna e estrangeira, linguagem matemática (aritmética e geometria), informática — expansão da música em teoria musical, do desenho em técnicas de arte, da poesia em capacidade de escrita;

3) Ensino Fundamental — 2ª parte: Dialética (campo da indagação diante dos fatos) — ciências da natureza e da vida (entendidas como observação do mundo, fora do laboratório): astronomia, anatomia, biologia, ecologia, meteorologia, botânica, zoologia, física, química, geografia, geologia, mineralogia — expansão da matemática no estudo das quantidades, das estruturas (funções) e dos espaços; expansão do estudo da língua em teoria da língua;

4) Ensino Médio — 1ª parte: Lógica (campo das deduções) — lógica informal e formal, sistemas, mudança (cálculo) — expansão das ciências da natureza para o espaço do laboratório (formalização das indagações através das experiências) — expansão da poética em escrita criativa, da música e da arte em criação artística. Incorporação da arte dramática. Incorporação do estudo formal da literatura. Expansão do campo da dialética em história e economia. Expansão do estudo dos espaços em noções de arquitetura e urbanismo;

5) Ensino Médio — 2ª Parte: Filosofia (campo do conhecimento integral) — Filosofia, direito — expansão da matemática em matemática aplicada. Formalização dos campos do conhecimento nas ciências da natureza. Abertura ao mundo das engenharias (construção de máquinas e estruturas, acompanhamento de processos de transformação de materiais).

Um currículo de ensino assim desenhado traria a possibilidade de uma verdadeira mudança qualitativa no nível do ensino superior, que estaria em condições de trabalhar com pessoas cuja visão do mundo revelar-se-ia alargada e que estariam em condições de aprender as profissões do futuro.

O QUE AINDA NÃO SABEMOS FAZER: PROFISSÕES DO FUTURO?

Além de termos de retomar as habilidades de ensinar a pensar, ensinar a lidar com os processos miméticos, ensinar a criar e a inovar, existem várias coisas práticas que ainda não sabemos fazer, muitas técnicas que ainda não dominamos, campos que ainda não conhecemos, e que podem talvez se tornar algumas das grandes profissões do futuro:

1) Todas as profissões ligadas à biologia, diante da transformação da área pelos modelos matemáticos, terão grande apelo no futuro. Desde a engenharia genética à compreensão global do funcionamento do cérebro humano, além da biocomputação, (computadores de DNA, e não eletrônicos), da biomecânica, da biodiversidade, são alguns exemplos de áreas da biologia que irão configurar novas profissões;

2) A matemática aplicada será a grande ferramenta do futuro, rompendo com as fronteiras em diversas áreas;

3) As nanotecnologias aplicadas às mais diversas áreas, da medicina à restauração de arte, da computação à comunicação, da estética corporal à prática esportiva, para ficar em poucos exemplos, deverão transformar completamente o nosso mundo;

4) Sabemos prever, mas não sabemos controlar ativamente o clima. Fazer chover será uma profissão fundamental no futuro;

5) Não sabemos armazenar energia limpa;

6) Associadas às energias poluidoras, sabemos fazer máquinas, mas todas de baixo rendimento, que gastam excessos de combustível, sobretudo na área dos transportes. Precisamos desenvolver máquinas de alto rendimento.

7) Não sabemos degradar ou reciclar funcionalmente materiais poluidores;

8) Não sabemos envelhecer. Uma sociedade que se prepara para disparar a longevidade precisa saber envelhecer e lidar com os velhos;

9) Sabemos arquivar e reproduzir imagens e sons, mas não sabemos arquivar e reproduzir digitalmente cheiros ou sensações táteis;

10) Não sabemos lidar com uma forma nova de aceleração. Em torno de 1580, Camões, o grande poeta português, e um dos primeiros grandes homens modernos, expressou a sensação causada pela aceleração, um conceito chave da física moderna, que só viria a ser trabalhado cinqüenta anos depois, por Galileu, e finalmente por Newton, cem anos após o poeta ter formalizado assim suas sensações:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, /Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/ E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,/ Que já coberto foi de neve fria,/ E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto:/ Que não se muda já como soía.

O desconcerto do mundo, sentimento fundamental do homem moderno e da poesia camoniana em particular, ganha aqui um tom específico: trata-se do fato de que a própria mudança, ou seja, a taxa de variação do espaço no tempo, a velocidade, já não possui um ritmo regular e ordenado. A própria mudança muda, a velocidade muda. A mudança é um fato terrível, mas a aceleração aparece como sendo um fado intransponível e irreversível. O poeta define com precisão a aceleração.[16]

Nesse nosso tempo, estamos no limiar de uma outra forma de aceleração, tão angustiante quanto aquela sentida por Camões e seus contemporâneos, que levou à criação da ciência moderna: trata-se da mudança na taxa de variação não do espaço no tempo, mas do tempo no espaço, o que gera a virtualidade. Em uma mesma unidade de espaço físico, estamos vivendo a variação do tempo. Diante de uma tela de computador — uma unidade de espaço — vários tempos se nos apresentam simultâneos, como janelas para o mundo, janelas para o passado, o presente e o futuro. Essa é uma nova e estranha sensação com a qual não sabemos lidar ainda. Aprender como lidar com ela, sem nos deixar enganar pelos manipuladores da virtualidade em lugar da realidade, constitui uma grande tarefa intelectual e científica no mundo que se aproxima. O indiozinho com seu game boy talvez já saiba intuitivamente lidar com essa sensação. Não podemos desperdiçar o seu potencial e precisamos dar a ele a chance de transformar essa sensação em teoria, em tecnologia, em ciência, em conhecimento para um mundo novo.

NOTAS

[1] MONTAIGNE, Michel de. L’Humaine condition. apud AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 1987, p. 250.

[2] Sobre a contribuição de Boaventura de Sousa Santos para o projeto de reforma universitária ora em curso no Brasil, cabe lembrar as palavras do então ministro da educação, Tarso Genro, para quem, textualmente, “as propostas do governo estão vinculadas às ideias de Boaventura”. Jornal da USP, 18 de Abril de 2004.

[3] SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 12 ed. Porto: Edições Afrontamento, 2001 (primeira edição de 1986).

[4] Para uma explanação das relações entre poética, retórica, dialética e lógica, ver CARVALHO, Olavo de. Aristóteles sob nova perspectiva: introdução à teoria dos quatro discursos. 2 ed. São Paulo: É Realizações, 2006.

[5] Todas as referências ao texto serão retiradas da edição mencionada, com apenas a indicação da página de ocorrência entre parênteses.

[6] In: www.comciencia.br

[7] GUERRIERI, Maurício Abdalla. Alan Sokal: demolidor de barracas… inclusive a própria. Episteme. Porto Alegre, 12, jan/jun 2001, p. 136.

[8] SOKAL, Alan. Transgressing the boundaries: towards a transformative hermeneutics of quantum gravity. Social Text. Durham, NC: Duke University Press, 42/47, p. 217–252.

[9] KATZ, Stephen. How to speak and write postmodern. In: ANDERSON, Walter Truett (org.). The truth about the truth. NY: Penguim Putnam, 1995.

[10] SOKAL, Alan. A physicist experiment with cultural studies. Lingua Franca, 4, maio/jun 1996, p. 62–64.

[11] SOKAL, Alan e BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro: Record, 1999. Para uma análise detida desse livro e uma avaliação de suas fraquezas e contribuições, ver, entre outros, o artigo antes citado de GUERRIERI.

[12] HIRSCH, David. The deconstruction of literature: criticism after Auschwitz. Hanover/London: Brown University Press/University Press of New England, 1991.

[13] LAGE, Celina Figueiredo. Teoria e crítica literária na República de Platão. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, 2000, p. 63 (dissertação de mestrado).

[14] IDEM, op. cit., p. 86.

[15] CARVALHO, Olavo de. Op. cit. Os parágrafos a seguir constituem uma pequena síntese da exposição de Carvalho. Aos que julgam o autor apenas pela dimensão erística de sua obra, e nela veem o horizonte último e limitado de seu trabalho, sugiro uma leitura atenta e desprovida de preconceitos dessa análise de Carvalho, na qual o autor propõe uma visão original, compreensiva, e instigante do conjunto das obras de Aristóteles.

[16] Devo aqui agradecer a observação sobre o poema camoniano a Antônio Zumpano Pereira dos Santos, matemático-poeta a quem apresentei o poema e me apresentou de volta o espanto de ver a aceleração newtoniana exposta nos versos portugueses.