EURÍLOCO E A SYRIZA

Marcus Freitas, 02/02/2015

A prudência é um tema caro a Homero, ao longo da Odisséia. Enquanto mãe de todas as virtudes, a prudência não significa acanhamento ou morosidade, mas sim atenção ao kairós, ao sentido de oportunidade, à espera do momento certo de agir. Por isso, a prudência se opõe tanto à procrastinação quanto à temeridade. Trata-se, por excelência, da virtude da medida. Há que esperar a hora certa de agir. Odisseu, desde o primeiro verso do poema, é denominado como “astuto”, e o sentido de oportunidade é a sua maior virtude. Mesmo no contexto de uma ética heróica, e portanto guerreira, Odisseu age sempre mediado pela prudência. Nesse sentido, ele é o oposto complementar de Aquiles, o colérico herói da Ilíada, que, como diz o epíteto, age sem meditar. “Prudente” é o epíteto de Telêmaco, filho de Odisseu, assim como a sensatez é a característica definidora de Penélope, a mulher do herói.
Ao longo do poema, o poeta submete Odisseu e seus marinheiros a variadas provas, nas quais entram em jogo a prudência, a morosidade e a temeridade. Os cantos centrais do poema, de IX a XII, são marcados por essas provas. Entre todas as passagens, a mais exemplar é a que fecha a série: depois de sofrerem variadas agruras nas mãos dos Cícones, dos Lotófagos, dos Ciclopes, dos Lestrigões, de Circe, de Cila e Caribdis, todas causadas pela temeridade e pela imprevidência — e nas quais a armada de Odisseu vai sempre perdendo companheiros, em função da imprudência de todos -, chegam finalmente à ilha Trinácia, onde estão as vacas sagradas de Hélio. Tirésias, o adivinho, já advertira Odisseu de que o caminho de casa seria seguro, desde que ele ou os companheiros não tocassem nas vacas. Circe havia feito a mesma advertência, e dera a Odisseu provisões suficientes para que seu navio pudesse passar ao largo da ilha, enfrentando o tempo ruim. As provisões eram poucas, o tempo tenebroso, o que exigia dos marinheiros um bocado de austeridade, a ser recompensada com o regresso seguro à casa. Tratava-se de uma chance do destino, que precisava ser administrada com prudência.
Bem, mas sempre há um demagogo no caminho. Euríloco, um temerário marinheiro, de fala fácil, comanda um motim lamentoso, e exige que Odisseu pare o barco na ilha. Diz que os homens estão cansados e merecem um banquete na praia. Temendo o pior, Odisseu implora aos homens que sigam o caminho traçado, sem morosidade,sem tempo a perder. Acaba por ceder, depois de arrancar de todos o compromisso de que não tocariam nas vacas de Hélio. As vacas eram sagradas porque não eram suas. Mesmo tendo concordado, os marinheiros passam descuidadamente a se banquetear com as provisões dadas por Circe, enquanto o tempo segue fechado, sem pensar nas necessidades do caminho de volta para casa. Quando as provisões acabam, e aproveitando um cochilo de Odisseu, Euríloco naturalmente convida os marinheiros a matarem as vacas de Hélio, seduzindo-os com a promessa de que, uma vez em casa, ergueriam um templo ao deus. Trata-se de uma típica promessa de demagogo: “vamos gastar hoje, e pagamos depois”. Os marinheiros, cansados da austeridade imposta pelo destino como paga de suas próprias ações temerárias, aceitam de bom grado a proposta de Euríloco. Quando Odisseu acorda de seu cochilo, as vacas já estão mortas, e não há mais o que fazer. Durante seis dias, os gregos vivem à tripa forra. No sétimo dia embarcam alegres, para imediatamente serem colhidos na tempestade atroz que Hélio pediu a Zeus que lhes enviasse, em represália à hecatombe de suas vacas. Morrem todos. Apenas Odisseu escapa, para contar a história.
Homero, o cego, sabia das coisas…

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