NARRATIVA E METÁFORA NA BORBOLETA AZUL, DE MONICA DE BOLLE

por Marcus Freitas, 31/10/2016

A certa altura do livro Como matar a borboleta azul: uma crônica da era Dilma (Intrínseca, 2016), Monica De Bolle faz a seguinte afirmação: “Steve Jobs ensinou ao mundo que tão importante quanto o conteúdo são a graça e a arte da embalagem.” Um leitor desavisado poderia, a partir da frase, reiterar para si mesmo o preconceito funcionalista que vê a forma (embalagem) apenas como efeito decorativo do conteúdo. Mas basta ter visto uma vez o discurso de Jobs ao receber em 2005 o título de Doutor Honoris Causa em Stanford, quando ele discorre sobre os anos em que estudou e praticou caligrafia — semente dos futuros Mac -, para perceber que o homem que moldou nosso tempo colocava forma e conteúdo numa relação indissociável. Os funcionalistas dizem que a forma segue a função; mas Jobs, como um partidário da racionalidade da beleza, enfatizava que a forma, quando bela (e por isso mesmo justa) atrai para si a função. Esse me parece ser o ponto de partida de Monica De Bolle na escrita de risco que caracteriza seu recente livro. Se falo em risco, é porque muitos podem entender que a autora estaria emprestando seu capital a um projeto subprime, perdendo tempo com efeitos de superfície. Não penso assim, e entendo que a autora também não. Para ela, forma é conteúdo, e, portanto, literatura pode ser economia.

Permita-me o leitor dizer que, por curiosidade intelectual e injunções de pesquisa, tenho me dedicado a estudar as fronteiras conceituais, as homologias formais e os cruzamentos estilísticos entre literatura e economia. Dessa maneira, quero aqui ler o livro de Monica como forma, com vistas a aquilatar a eficiência dos procedimentos que, no interior do texto, combinam literatura e economia, e ao mesmo tempo com o interesse de investigar as proposições conceituais que daí derivam.

Do ponto de vista da crítica literária, aquelas fronteiras têm constituído uma área quase inexplorada entre nós. Já do ponto de vista dos analistas econômicos, o projeto de Monica possui alguns companheiros de estrada muito importantes. Basta lembrar os estudos de Gustavo Franco sobre a Economia em Shakespeare, a Economia em Pessoa e A Economia em Machado de Assis, títulos de três de seus instigantes livros; ou as análises literárias de Eduardo Gianetti em O valor do amanhã; ou mesmo o uso reiterado de epígrafes literárias, com função de síntese, nos Ensaios imprudentes ou em Além do cotidiano, de Roberto Campos. Cada um, à sua maneira, usou e usa a literatura como matéria de meditação, o que não deixa de ser recorrente: Platão já lançava mão do mito, na hora H de formalizar o conceito. Cabe então ver a especificidade desse uso no trabalho de Monica De Bolle.

A dimensão literária aparece na Borboleta Azul em dois eixos perpendiculares: a narratividade e a metaforização. O próprio título do livro já condensa esses eixos na composição da imagem da borboleta (o eixo vertical das proposições figuradas, sejam elas parábolas, fábulas, símiles, alegorias ou propriamente metáforas) com a explicação de que se trata de uma crônica (o eixo horizontal da narrativa).

Começo pela narrativa. Há no texto uma consciência muito clara de que a narrativa seria uma forma muito eficiente de dar conta de conjunturas em transformação, ou seja, de que, para tornar claros os fatos e suas motivações, não bastaria enunciá-los, senão que o autor deve se transformar em narrador, e colocar causas e efeitos como elos de uma história, capaz de fazer o leitor passar de A para B pela via da diegese, do fluxo narrativo, que constitui, por si mesmo, a imagem concreta da mudança, esse horizonte perseguido pelos historiadores e alcançado primariamente pelos grandes narradores. Os Ensaios de Thomas Macaulay, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha são exemplos candentes dessa força que os contextos adquirem quando transformados em narrativas. Comentando a decisiva influência de Macaulay sobre Joaquim Nabuco na escrita de Um estadista do Império, Raymundo Faoro afirma que “hoje ninguém lhe nega [a Macaulay] a energia e a magia na arte de narrar”. A frase bem se aplica ao horizonte meticulosamente perseguido por Monica De Bolle.

Não por acaso, encontramos ao longo do livro várias construções linguísticas que denotam a contemporaneidade de certos eventos, como se fossem planos simultâneos de uma narrativa que deve ser apreendida no todo pelo leitor, em trechos como: “Enquanto o mundo voltava a derreter com o recrudescimento da crise europeia e os sinais de alerta nos mercados de títulos da Espanha e da Itália, o Brasil se preparava para um novo salto de Dilma Rousseff”, ou este outro: “Enquanto alguns assessores da presidente liam com atenção e parco entendimento os tomos de Babel, outros membros da equipe econômica ficavam cada vez mais apreensivos…”. O advérbio de tempo “enquanto” tem ali a função específica de colocar o leitor dentro do fluxo temporal, e de criar uma sensação de aceleração que o faz embarcar na narrativa.

A narratividade é também um tema metatextual. Várias são as passagens em que a narradora se remete ao recurso, como quando diz a certa altura do raciocínio: “Consideremos uma narrativa para a economia brasileira”. Das passagens metatextuais, as mais destacadas são, sem dúvida, as que nos remetem à mudança na comunicação do FED, à volta de 2012: “Quando já não é possível diminuir os juros, pois tiveram de ser reduzidos a zero, ou quando não se crê que os ajustes nas taxas sejam capazes, por si, de garantir os múltiplos objetivos da política monetária, o que sobra? A narrativa.” A necessidade de uma boa história seria o que Alan Blinder, membro do FED, chamou de “arte da política monetária”, que Monica assim explica: “A arte da política monetária está em mudar o que as pessoas pensam não apenas pela demonstração da competência técnica, como por meio da arte retórica”. Ora, o que a autora nos diz aqui é que a forma está determinando o conteúdo das ações e gerenciando as expectativas. Por isso é que os diretores do FED, orientados por Ben Bernanke, passariam, a partir de 2012, “a publicar contos, tramas curtas sobre a trajetória dos juros nos anos seguintes, numa tentativa de gerenciar as expectativas das empresas”, como coloca a autora. O mais importante para a consideração que aqui faço é o fato de a definição acima de “arte da política monetária” ser uma explícita consideração metatextual do texto de Monica De Bolle. Seu texto não convence apenas pela competência técnica, mas por meio da arte retórica.

Uma narrativa exige a presença de um narrador como elemento de composição. Esse narrador, no interior do texto, opera por digressões, que às vezes são elementos metafóricos, e às vezes são apenas derivações narrativas que abrem o fluxo central a uma consideração aparentemente marginal, uma pequena história paralela, que será depois recolhida ao fluxo principal da diegese, que se amplia em densidade a partir do fragmento. As crônicas que Monica publicou na imprensa brasileira ou em seu blog pessoal nos últimos anos ocupam esse espaço da digressão. Há no texto uma flutuação no modo como esses fragmentos paralelos são apresentados. Várias vezes eles são introduzidos por uma autorreferência do narrador, do tipo “Em junho de 2013, escrevi o seguinte trecho…”, ao qual se segue a passagem; em outros casos, o texto principal apenas anuncia o tema no interior do fluxo narrativo, que é bruscamente interrompido para a introdução da narrativa auxiliar, demarcada por caracteres tipográficos distintos. Tendo a achar que o segundo procedimento é mais eficiente, pois exige a participação do leitor para a conjugação das duas histórias. O primeiro procedimento, além de excessivamente didático, pode sobrepor ao narrador uma involuntária aura de pitonisa, que afasta o leitor. A dúvida entre usar um ou outro procedimento como padrão do livro se evidencia no seu aparecimento alternado. Ousaria sugerir não apenas que essas autorreferências do narrador, do tipo “eu disse”, poderiam ser retiradas, mas que, ao mesmo tempo, ao introduzir a crônica paralela, a referência ao seu local de publicação original não aparecesse ali sob o título, deixando essa informação para uma lista no fim do volume. O texto paralelo deveria vir como um fragmento de pensamento, uma derivação que dissolve o texto principal para, posteriormente, coagulá-lo num pensamento mais robusto. Há no livro muitas passagens assim feitas, e elas se revelam, a meu ver, mais econômicas e eficientes.

Passo agora ao eixo vertical das imagens. Ainda que todas as construções desse tipo sejam de ordem metafórica, há que distingui-las em níveis e intensidade.

A mais simples das figuras metafóricas é a parábola, não por acaso um gênero didático por excelência. Na parábola, conta-se uma história que, por homologia com a realidade, permite uma e única conclusão moral, pois apenas um elemento entra na comparação. O Velho do Restelo, a personagem de Os Lusíadas, de Camões, que adverte os marinheiros da soberba e da vanglória de querer conquistar o mundo enquanto sua casa está desarrumada, é usado pela narradora com uma intenção tipicamente parabólica: conta ela a história camoniana para chegar a uma frase, uma conclusão: “A presidente Dilma não gosta do Velho do Restelo”. Esse uso é comum no livro, e Monica lança mão dele com vasto conhecimento literário e exímio poder de recorte, o que torna o procedimento extremamente eficiente e encantador.

Já a fábula possui o mesmo intento de buscar uma conclusão, mas é mais sofisticada em termos de recursos do que a parábola, pois, para sustentar o termo comparativo, a fábula necessita não apenas de uma história inventada, e sim de outro mundo inventado, aparentemente distante do nosso, ainda que homólogo em suas funções. Há em Como matar a borboleta azul uma passagem exemplar que explica e exemplifica o procedimento: “As desventuras da economia brasileira em meio à desarticulação que predominava na economia mundial eram tamanhas que, para explicá-las, a tentação de recorrer a relatos fabulísticos tornara-se irresistível”. Daí segue a fábula: “Num país distante, em algum lugar do hemisfério sul, havia um local árido e inóspito…”. O recurso ao “era uma vez” denuncia a presença da fábula. O capítulo final do livro possui o subtítulo “uma fábula”, e nele aparece, com todas as letras, a expressão de fecho, “moral da história”, como a demonstrar uma vez mais o apelo ao recurso.

A alegoria aumenta a complexidade do termo comparativo, uma vez que, diferentemente da parábola, ali vários são os níveis de comparação e homologia estabelecidos. A alegoria possui também um poder de síntese que a torna muito eficiente. A observação que Monica faz sobre o conto “A casa tomada”, de Julio Cortázar, para com ele compreender um momento da sociedade brasileira, evidencia a riqueza interpretativa do recurso alegórico. O conto não fala de um só país latino americano, mas de todos; não fala de um tempo localizado, mas permite a adequação a vários contextos; e vários são os seus níveis interpretativos, como bem observa a autora: “as alegorias e os símbolos ali tratados se rendem facilmente às interpretações acerca dos rumos populistas e isolacionistas tomados pelo Cone Sul no pós-guerra”.

Ao lado da alegoria, a autora lança mão também de símiles, imagens que permitem o estabelecimento de comparações. Dizer que o Brasil havia se tornado uma “pintura de Braque” (fragmentado e moralmente segmentado) é um bom exemplo do procedimento. O mais acabado dos símiles, ao longo do livro, aparece no recurso ao quadro “Cronos engole seus filhos”, de Goya, usado pela narradora como imagem da crise da indústria brasileira.

Cabe notar que cada um desses recursos incorpora os anteriores. A profusão de citações literárias — de Borges a Machado de Assis, de George Orwell a Oliver Sacks, de Shakespeare a Poe, de Camões a Mário Quintana, entre tantos outros ­– ocupa as diferentes gradações dessa escala de metaforização, dependendo da necessidade da passagem. As citações possuem também o caráter de síntese buscado pela autora.

Chegamos por fim à imagem principal do texto, a história da borboleta azul do sul da Inglaterra, a Maculinea arion, que dá título ao livro, e que foi extinta por “ingrata intervenção de tecnocratas”, para usar aqui o verso de Drummond em “Adeus a Sete Quedas”. Um aumento inesperado da população de coelhos nas plantações passou a ser combatido com a inoculação de um vírus que tornava os animais letárgicos e menos propensos ao acasalamento. A diminuição da população dos roedores levou a um aumento da altura das gramíneas em que eles pastavam. Esse aumento mudou a temperatura do solo e prejudicou as formigas Myrmica sabuleti, que viviam em colaboração com a borboleta azul, levando seus ovos para o ninho e deles cuidando até que as larvas se transformassem em lepidópteros. Sem as formigas, os ovos se perderam, e a borboleta também. A riqueza alegórica da história, enquanto matéria de meditação sobre a economia brasileira dos anos Dilma, é poderosa. Há ali várias personagens envolvidas, vários planos concomitantes, várias ideias frustradas, uma verdadeira cadeia de acontecimentos a ser explorada, o que a autora faz com maestria. E cabe lembrar que não se trata de uma narrativa sem fim, mas de uma que possibilita a esperança de um fim melhor: depois de quatro décadas, os biólogos conseguiram reintroduzir a borboleta azul no sul da ilha britânica. Aliás, não parece acaso que a autora tenha escolhido essa alegoria, não apenas porque ela estudou na Inglaterra, mas porque, como ela mesma diz, “economistas são fascinados por ilhas”, talvez porque elas são territórios isolados, e por isso mais frágeis à ação humana. São excelentes lugares para se viver, fazer uma casa, mas exigem uma atenção contínua de quem ali mora.

No entanto, mais do que no plano alegórico, é na dimensão propriamente metafórica que o recurso utilizado por Monica De Bolle revela a sua importância, o que talvez não seja de todo claro para a autora. A verdadeira metáfora, mais do que explicar ou tornar complexa a visão de um objeto, é aquela figura que se torna conceito. Sob esse ponto de vista, a alegoria da borboleta azul é uma metáfora no mais alto grau da palavra. A tragédia e a frágil recuperação da borboleta azul são imagens de uma preocupação conservacionista, e a Inglaterra rural é um dos lugares em que essa atitude conservacionista, da qual não está fora uma dimensão conservadora (no sentido positivo do termo), ocupa lugar de destaque. Assim dizendo, a história da borboleta azul se torna um conceito de economia que explica a larga dimensão dos interesses da autora, o que extrapola os limites do livro, e ganha ares de uma meditação sobre o papel da economia e dos economistas no mundo de hoje.

Cabe fazer um parêntese e lembrar uma frase da autora no programa Roda Viva, da TV Cultura, levado ao ar no dia 24 de outubro último: “eu considero a economia um ecossistema”. Ao dizer que a economia é um ecossistema, Monica recupera nas duas palavras, “economia” e “ecologia”, a sua raiz comum oikos, casa, e por extensão recupera, através da palavra “ecologia”, o sentido de economia como o “governo da casa”. A dimensão conservacionista desse realce ecológico da economia possui implicações profundas.

Ao escolher como metáfora de seu livro uma imagem de extração conservacionista, Monica coloca em perspectiva, mesmo que malgré lui, a “destruição criadora” schumpeteriana. É lógico que a autora está longe de ser uma ludita, muito pelo contrário. Basta ver suas críticas ao Brexit e às trombetas de Trump para compreender que ela é uma partidária decidida da inovação e da abertura, com verdadeiro horror a qualquer imobilismo. Mas o caso é que, da mesma forma que entre ecologia e economia, há entre conservacionismo e uma atitude conservadora elos que talvez possam ser explorados a partir de uma perspectiva mais autoconsciente. É exatamente por isso, por ser a autora uma economista que parte do princípio de que a riqueza é criada, e não constitui um dado da natureza sagrada, que o seu tom “verde” tem importância no cenário. Monica talvez possa ser descrita, paradoxalmente, como uma economista liberal verde, ou como uma schumpeteriana com compaixão. Será possível? Sua atenção à embalagem, assim como ao produto, para voltar à metáfora de Steve Jobs, dá a entender que sim.

Essa é a maior riqueza criada por Monica De Bolle em seu livro e em suas intervenções. Muitos queriam que ela fosse uma coisa só, mas ela não é. No capítulo XXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Brás mata uma borboleta preta. Depois de matá-la, se arrepende, e termina por racionalizar seu gesto dizendo “Também por que diabo não era ela azul?”, como a dizer que se ela se enquadrasse num molde pré-estabelecido não a teria matado. É porque não se enquadra em cores pré-estabelecidas que a Borboleta Azul de Monica De Bolle nos surpreende e nos põe para pensar. E, agora que saiu pela janela, vai voar alto, alto…

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