UM SONETO ECONÔMICO

Marcus Freitas, 15/06/2016

Camões, como o leitor bem sabe, é um dos primeiros grandes homens modernos. No soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, intui a noção física de aceleração, oitenta anos antes de Newton mostrar que a variação do espaço no tempo é velocidade, mas que a variação da variação de espaço no tempo é aceleração. Essa aceleração, sentida no tempo, faz o poeta dizer que seria fácil aceitar o mundo como mudança e variedade, mas o caso é que a mudança “já não se muda já como soía”, e nessa variação da variação capta ele a nossa tão moderna sensação de desconcerto do mundo, dada pela terrível consciência da aceleração do tempo histórico.
 Mas Camões é também moderno na consciência de que, num mundo de comércio — tal como aquele em que ele viveu, enquanto mercenário, mercador, traficante, soldado e vagabundo — o lucro é metáfora das relações.

Veja aqui, leitor, o soneto “Quem vê, Senhora, claro e manifesto”:

Quem vê Senhora, claro e manifesto
 O lindo ser de vossos olhos belos,
 Se não perder a vista só em vê-los,
 Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
 Mas eu, por de vantagem merecê-los,
 Dei mais a vida e alma por querê-los,
 Donde já me não fica mais de resto.

Assim que alma, que vida, que esperança,
 E que quanto for meu, é tudo vosso:
 Mas de tudo o interesse eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
 O dar-vos quanto tenho, e quanto posso,
 Que quanto mais vos pago, mais vos devo.

Salta aos olhos o uso poético do campo das relações monetárias e comerciais — perda, ganho, pagamento, preço, vantagens, interesse (juro), dívida — como solo para a declaração amorosa.

Vejamos de perto as imagens. Ver os olhos da amada, e não ficar nesse instante cego por sua beleza, é já uma situação de lucro, pois cegar-se seria o termo de troca adequado a tanto ganho. Se o poeta que olha a amada não se cega, estabelece-se então um saldo de lucro, um “surplus” que supera qualquer “preço honesto”. Não perca o leitor a associação entre moralidade e lucro, e note que há preços honestos e preços desonestos, em função dos quais o lucro excessivo seria medida de desonestidade. Mas que fazer se esse lucro veio como juro, em função da aplicação ao amor, e não como malversação das relações de troca? A única saída, para manter justa a balança da troca, é dar tudo o que tem o poeta, tudo quanto tem e quanto pode. Mas o caso é que esse ato de dar-se completamente ao projeto, esse investimento total e absoluto gera por sua vez mais lucro, mais interesse (essa palavra tão adequadamente ambígua no corpo do poema), e faz do pagador um devedor cada vez mais endividado. Logo, não há saída: quanto mais paga, mais deve, numa espiral de amor e dívida, em que os juros do amor se capitalizam, transformando o amador na coisa amada, e o juro nunca pago em dívida impagável.
 Para o poeta, o amor é então apenas comércio? Não. Simplesmente Camões, o moderno, usa das questões do dia para falar do que é eterno. Sejam as juras de amor, sejam os juros compostos.

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