Ensaio de agradecimento à santa ignorância pela graça alcançada

Escritor de verdade não tem lado, não tem ideologia, não tem bandeira. Independente de sua posição pessoal, tem que atirar em tudo o que se mexe e no que não se mexe também, sendo o Monty Python a mais injusta referência que consigo me lembrar. Isso significa que além de ser engraçado, o cômico precisa ser despojado e corajoso. Afinal, alguém sempre vai ficar ofendido com uma piada. É o princípio do humor, lamento dizer, senhores insultados compulsivos.

Na verdade, mais do que os politicamente corretos, me incomodam os mau escritores. Os que usam truques velhos e rasteiros para fazer a manada mugir, utilizando seus mais baixos instintos para gerar aquele riso provocado por algum tipo de histeria. Diria que a linguiça é o maior, mais rijo e pulsante expoente deste tipo de humor.

Não são os caretas mas os humoristas de baixa estatura que prestam maior desserviço à graça divina. E os temos aos montes, infelizmente. Estes sim são os verdadeiros responsáveis pelo crescimento vertiginoso do humor beijo-de-irmão. Sem riscos, sem novidades, sem ousadia, sem graça, enfim.

A única forma que eu conheço de imprimir autoridade a uma piada é fazê-la inteligente. Quando uma piada é inteligente, ela é auto-defensável, auto-limpante, mesmo aquela que ignora totalmente o bom senso. A boa piada faz alguma certeza em seu cérebro tomar um chute na bunda utilizando a lógica como pé.

Mas pior que piada burra é piada com lição de moral. Tenho visto uma quantidade espantosa de ditos humoristas brasileiros com nítido pensamento moralista de direita. Mas ser de direita não seria tão grave se nas entrelinhas de suas “piadas” não pudéssemos notar um ranço, um cheiro de vingança pessoal, uma demonstração clara de que o piadista está de alguma forma ofendido em relação ao objeto de sua piada. E como sabemos, se sentir injuriado é coisa de quem não tem senso de humor. O verdadeiro cômico, repito, independente de suas crenças pessoais, não se avexa, não escolhe lado, não moraliza nenhum tema, ao contrário. Enxerga tudo a distância, buscando sempre a desestabilização do status quo, não permitindo que nada se leve tão a sério, que esteja acima de críticas, inatingível, inquestionável.

Ao expor de forma indireta as suas magoas e melindres pessoais, o escritor perde a graça e, consequentemente, o direito de ser assim chamado, recebendo em troca, com muita justiça, a alcunha de idiota.